O Festival
Foi com enorme prazer que assisti a quatro curtas metragens da programação do projeto Ciranda de Filmes. O prazer vem de se saber que estes filmes foram cuidadosamente escolhidos pela curadoria do festival e que cumpriram (uns mais que outros) com a proposta da mostra que é a de provocar em nós o exercício da reflexão, da escuta, do olhar para a infância e a educação. Proporcionar um espaço de aprendizagem, inspiração e de efetivo movimento de transformação.
Infâncias "roubadas" pelo sertão
Quando nos deparamos com a realidade do nosso sertão, o fantasma da seca como vemos em “Águas de Ramanza”, ou a situação de pobreza vivida pela família de “A Menina Espantalho”, não temos dúvida em qual terrenos estamos entrando e quais são estas motivações. Aproximar o espectador da realidade social do país, introduzindo a criança e sua infância – por vezes “roubada”- como meio de reflexão e crítica, é uma escolha feliz pra começarmos a conversar sobre o assunto.
Em determinado momento escutamos uma avó explicando a neta porque não chove na região: “o céu é grande....não dá pra lavar de uma vez só...” Entramos junto com a criança na fantasia criada pela avó, como uma forma de explicar o inexplicável. Como fazemos quase sempre com nossas crianças. Esta passagem do filme é especialmente bonita pois nos traz de volta a infância e o que representa o lúdico, o brincar, a imaginação. E nesse sentido, o final de Águas de Ramanza apenas completa o que já foi dito antes nesta linda passagem da história. Lançar mão do artifício da água para que a criança possa vivenciar o que é tomar um banho de chuva (ela tinha 6 anos e nunca tinha visto a chuva cair onde morava) é estarrecedor. Bonito e doído ao mesmo tempo.
A prisão do espaço do outro
Em comum os filmes trabalharam com a imaginação e a fantasia infantil, entregando resoluções criativas, inesperadas e provocando suspense na medida. No fundo de cada filme, um mundo possível, a crença na humanidade.
Em especial, fui fisgada pelo “A Conquista do Espaço”, que diferente dos demais, nos brindou com um retrato realista da classe mais privilegiada do país, fazendo o uso esperto da metáfora que nota-se desde o título da obra. Conquistar o espaço, pode ser entendido como a conquista do espaço do outro, a abertura pro desconhecido, a tolerância com o diferente, a apropriação, inclusive, do espaço urbano, do futebol de rua. O menino é privado o tempo todo de atravessar as janelas, as grades, as portas e portões deste outro universo. Em sua fantasia de astronauta, nos asfixiamos com ele. Sentimos a prisão (com o verniz da proteção) em que se encontra o garoto e torcemos para que ele saia daquela bolha, que fuja, que conquiste o espaço, o seu espaço.
Bem executado, com ecos de “o Som ao Redor” (há uma cena da babá e do menino jogando bola dentro da quadra do condomínio, que me fez recordar a obra de Kleber Mendonça), A Conquista do Espaço é um filme que diz muito com pouco e que nos faz, em última instância, pensar sobre o nosso propósito de vida enquanto sociedade.
Sinto-me gratificada pela riqueza das obras apresentadas. A mobilização já começou. E este post é só sobre o primeiro dia do festival!













