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Ciro Pessoa | Em dia com a rebeldia
Compositor de clássicos do rock nacional como “Sonífera Ilha” e “Homem Primata”, o músico e jornalista fala de seu envolvimento com poesia, política e budismo por Omar Godoy
Aos 58 anos, Ciro Pessoa finalmente vai lançar seu primeiro livro. Relatos da existência caótica, que sai até o fim deste mês pela editora portuguesa Chiado, reúne cinco dos 11 volumes de poesia escritos — e nunca publicados — pelo músico e jornalista ao longo das últimas três décadas. Sempre lembrado na cena roqueira como líder da banda pós-punk Cabine C, Pessoa também fez parte da primeira formação dos Titãs (é coautor de hits como “Sonífera ilha”, “Toda cor” e “Homem primata”) e até hoje desenvolve projetos musicais independentes. Mas, ultimamente, vem chamando a atenção por seu posicionamento, digamos, contundente contra o governo federal.
Ao lado de contemporâneos como Lobão e Roger Moreira (Ultraje a Rigor), Ciro Pessoa vem praticando uma militância permanente de oposição na internet. E não se importa de ser chamado de “reaça” por causa disso. “Sim, sou um radical. Pode me chamar do que quiser. Odeio comunistas e esquerdopatas em geral”, afirma o artista. Segundo ele, essa indignação começou em 2010, quando lançou o disco solo Em dia com a rebeldia e não conseguiu divulgá-lo por não fazer parte de uma determinada “panela” de artistas alinhados com a situação. Felizmente, o assunto central desta entrevista é bem mais agradável: a poesia, gênero que fisgou Pessoa ainda criança, graças ao rock and roll. Mais especificamente, por meio dos álbuns Yellow Submarine(Beatles) e Os Mutantes (do grupo paulista homônimo), ambos lançados no final dos anos 1960. “Lembro da minha mãe traduzindo o refrão da música ‘Yellow Submarine’ e do meu espanto e alegria ao saber que a ficção, a imaginação, o não real, também pertenciam à vida”, conta. A partir daí, outros roqueiros com pegada literária passaram a fazer sua cabeça, como Lou Reed, David Bowie, Jim Morrison e Jimi Hendrix (“Sim, Hendrix foi um grande poeta também”, diz). Seus poetas preferidos são os portugueses Fernando Pessoa, Mario de Sá Carneiro e Camilo Pessanha, os franceses Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud e o norte-americano Walt Whitman. As correspondências de Antonin Artaud, também francês, foram igualmente decisivas para sua formação. “Eu cursava duas faculdades, Jornalismo e Direito, quando li uma coletânea de cartas escritas por ele. Aquilo pirou a minha cabeça e fez com que eu largasse os dois cursos e viajasse pela França, onde fiquei por dois anos”, lembra. Envolvido com o budismo desde os anos 1990, o artista também se interessa pela poesia filosófica oriental. “Quem se envolve com o budismo dificilmente se livra dele. Ele está absolutamente presente no meu dia a dia, no meu comportamento e nas minhas convicções”, explica. E cita alguns autores tibetanos, como Chögyam Trungpa, Drupka Kunley e Jetsün Milarepa. “Meu livro, aliás, está permeado de pensamentos budistas do começo ao fim”, avisa. No campo da prosa, Pessoa confessa uma influência marcante da literatura norte-americana pré e pós-beat — Charles Bukowski, Henry Miller, John Fante, Jack Kerouac. Ainda cita o francês Louis-Ferdinand Céline e os argentinos Julio Cortázar, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Entre os brasileiros, apenas três conseguiram cativá- -lo: Campos de Carvalho (“O melhor de todos”), Oswald de Andrade (“Gosto de algumas obras, como Serafim Ponte Grande e João Miramar) e “o Guimarães Rosa de Grande sertão: veredas”. Quando o assunto é a produção poética dos rock nacional oitentista, seu berço artístico, Pessoa concorda com a opinião geral de que os textos tinham mais força naquela época. Para ele, o embasamento intelectual de figuras como Renato Russo ou de alguns integrantes dos Titãs fez toda a diferença. “Muitos compositores desse período tinham um vínculo muito forte com a poesia e a literatura”, diz, para depois alfinetar a geração atual. “Não estou vendo absolutamente nada acontecendo hoje. Acabou. Está tudo uma merda.” Ainda assim, Ciro Pessoa não desiste de fazer música. No momento, o artista e sua banda de apoio (batizada de Nu Descendo a Escada) ensaiam um set com poemas musicados, extraídos de Relatos da existência caótica. A ideia é estrear no evento de lançamento e depois excursionar por outras cidades brasileiras. Enquanto isso, ele segue colaborando como freelancer para veículos da imprensa e já prepara um segundo livro, dessa vez de ficção. “É sobre uma grande história de amor, e terá uma narrativa com pinceladas de surrealismo”, adianta, por hora.