Resenha sobre o filme “Babygirl-2024” *
* Resenha com spoiler. Melhor assistir ao filme primeiro.
Diretores de cinema escolhem atores não apenas pelo talento, mas pelo significado cultural acumulado que eles carregam. Isso é parte de um processo chamado casting do ponto de vista cinematográfico, mas também, tanto quanto psicanalítico e sociocultural, a imagem pública e cinematográfica que acompanha o ator em cada papel tem relevância como operadores simbólicos, não só estéticos. No filme Babygirl os personagens de Antonio Banderas e Nicole Kidmam são fundamentais para retratar essa carga simbólica despertada no imaginário do público. Antonio Banderas (o marido da CEO) carrega a projeção histórica de virilidade mediterrânea, do arquétipo do homem desejado, o “marido ideal” no imaginário feminino tradicional, a figura masculina que encarna potência — sexual, emocional e protetiva. Usar esse ator para interpretar um marido que falha exatamente nesses três pontos não é aleatório. Ele não corresponde à fantasia antiga (não assume a posição potente, não quer “parecer canalha”, diz ele para esposa numa cena onde ele recusa a entrar na fantasia sexual que ela propõe para justamente, não parecer ser um canalha). Ele não corresponde ao modelo novo, das masculinidades fluidas, capazes de negociar o sexo e o desejo. Ele tem um ataque de ansiedade quase no final do filme, (na cena, ao brigar com o estagiário, o rapaz lhe diz, sem hesitar, que ele “não entende seu lugar na sexualidade atual”). Ele fica no intervalo disfuncional entre dois modelos, o que é justamente o problema das famílias contemporâneas, onde os papéis antigos ruíram, e os novos ainda não se estruturaram.Banderas, como casting, encarna o colapso da função paterna simbólica: a falha não é apenas pessoal, mas estrutural, revelando um tempo histórico em que os operadores de interdição, limite e estrutura já não oferecem sustentação psíquica. Kidman é o ícone perfeito do feminino crepuscular: bela, forte, mas ameaçada pelo tempo, pela exigência estética e pelas rachaduras internas que emergem sob pressão. Kidman não é apenas “uma estrela”. Ela carrega a imagem de uma das atrizes mais bela do cinema tendo feito filmes fortíssimos como "DogVille", que é a marca do feminino ferido e submetido à crueldade, e "De olhos bem fechados", que evidencia a investigação sobre fantasias e segredos conjugais guardados a sete chaves. Ela é a escolha exata para personificar uma CEO hipercompetente, mas internamente fragilizada; uma mulher em crise narcísica e identitária; uma mãe ambivalente e incapaz de ocupar a função; alguém que performa força enquanto vive um colapso silencioso. Kidman intensifica o conflito entre o corpo que sustenta o poder público, e o íntimo que revela o desamparo. Sua presença em cena — sustentada por enquadramentos que frequentemente a isolam, por espelhos que a duplicam, por luzes frias que acentuam a distância entre o rosto e a alma — reforça a dimensão psíquica do colapso. A mise-em-scène visualiza o que o personagem não consegue pensar. Assim, o filme usa os próprios atores como dispositivos simbólicos para comunicar o colapso dos papéis contemporâneos. Ele coloca um homem idealizado (Banderas) para mostrar a falência da função masculina simbólica. E coloca uma mulher idealizada (Kidman) para mostrar o esgotamento narcísico da mulher contemporânea, pressionada por papéis múltiplos — mãe, profissional, jovem, desejável, poderosa, emocionalmente disponível, livre e contida ao mesmo tempo. Sua filha, numa cena crucial, a espera acordada — invertendo papéis — e pergunta o que está acontecendo. A mãe virou filha; a filha virou mãe. A função simbólica desabou. Isso está totalmente alinhado ao enredo estrutural do filme:
crise do simbólico, instabilidade dos novos modelos familiares, dificuldade de simbolização,
conflitos entre papéis antigos e contemporâneos, retorno de fantasias arcaicas quando o simbólico não sustenta.
Ao inserir Antonio Bandeiras no papel de um marido incapaz de satisfazer sexualmente a esposa — e mais do que isso, incapaz de sustentar a posição masculina, seja no modelo tradicional (virilidade e comando) ou no modelo contemporâneo (afetividade flexível, segurança emocional, fluidez sexual) — o filme opera uma inversão simbólica extremamente poderosa. Banderas encarna, por acúmulo histórico, exatamente a figura que não deveria falhar. E falha. Essa falha é o núcleo da crítica de uma época em que os papéis masculinos não encontram mais representação psíquica estável capaz de sustentar o símbolo, a interdição e o desejo. Kidman amplifica a ideia de que a mulher de hoje não encontra mais um lugar claro nem na maternidade tradicional, nem nos novos modos contemporâneos de exercer o feminino, aparecendo ao mesmo tempo empoderada e esvaziada, atravessada por uma crise narcísica em torno do envelhecimento, da perda da vitalidade imaginativa e do colapso do espelho, operando num vazio simbólico onde os papéis se desfazem antes que possam constituir representações estáveis. Suas biografias cinematográficas ilustram, antecipam e reforçam o argumento central do filme — a saber, que vivemos um momento histórico em que as novas organizações familiares, os novos arranjos amorosos e as novas formas de sexualidade emergem sem que o psiquismo dê conta de transformá-los em símbolo, e portanto sem que possam passar pelo interdito, pelo imaginário ou pelo pensamento. Quando a CEO se depara com o estagiário, não se trata simplesmente de atração sexual, mas da irrupção de algo mais primitivo. Um objeto externo que colide violentamente com o objeto interno idealizado — aquele que sustenta uma imagem de perfeição, controle e autopotência. O jovem desorganiza defesas cuidadosamente erguidas, abrindo brechas onde emergem fantasias pré-edipianas, erotismos arcaicos e emoções que nunca tinham sido simbolizadas. É o irrepresentável que retorna. O real invade o psíquico sem filtro, sem interdição, sem mediação imaginativa. No final do filme o resultado demonstra que quando o simbólico não se sustenta, o sujeito retorna às formações primitivas da mente — fantasias arcaicas, clivagens, erotismos pré-edipianos, angústias de desorganização — e falha nas tentativas de reorganizar o real com o corpo, com o ato e com o outro. Enfim, quando esse espaço se empobrece, o filme mostra que quando o sujeito não imagina: age. Quando não simboliza: atua. Quando não elabora: repete. É exatamente nesse cenário que Babygirl se inscreve. O filme apresenta a trajetória de uma CEO que, ao chegar numa idade em que o espelho já não devolve a ilusão da juventude, se percebe suspensa entre aquilo que foi e aquilo que já não consegue sustentar, imagem perfeita de uma subjetividade que perdeu o amparo do simbólico e colapsa no real.











