Martírio
Eu o vejo chegar quieto,
responder apenas com meneios de cabeça
e ostentar um olhar vago e distante;
deitar-se na cama,
fitar o teto,
estático
— até que lhe sugerem tomar um banho.
Fica ali parado,
despido exceto pelos pelos do corpo,
os cabelos na cabeça e a barba em seu rosto.
Não me olha,
passa pelo véu d'água
parando ao centro.
Ele passa a mão pelo queixo,
sente os fios serem entrepassados pelas unhas que pressionam a pele.
O corpo range,
os olhos se molham
de dentro pra fora
e o peito tenta segurar
o que acaba que por vazar
de relance pela boca,
o que soa como um abafado suspiro de uma agonia profunda.
As mãos encontram o aparador elétrico e o levam aos espessos
e escuros pelos faciais.
O rosto se contorce em dor pelas puxadas do aparelho,
mas o agressor não para.
Engole o misto de dor
e daquilo que havia sutilmente transparecido há pouco,
deixa que se expurgue a mente e o peito.
A respiração é sofrida.
O rosto vibra,
em espasmos,
como resposta da dor que cresce
à medida que os pelos caem.
A água escoa
mista de lágrimas,
fios e suor frio.
O chuveiro é só um lento gotejar
quando o enxergo nos olhos,
o rosto limpo
e a expressão ainda mais vazia.
Olho dentro dele
e me vejo.
Pergunto-me se estou dentro
ou se fora dele,
ou, se estou dentro
e fora.
Ele me olha de volta
— infinito reflexo.
Parece saber.











