Esfera
Era sem dúvida o único homem vivo em séculos luz de distância. Estava em uma viagem sem volta, rumo ao desconhecido. Will era o ser humano mais rico da raça humana. Sua fortuna fora herdada de pais que estenderam a vida tanto quanto o patrimônio, o que não era nada diferente do restante dos poucos ricos que guiavam a expedição humana pelo cosmos. O que fizera dele o mais rico fora apenas o acaso de ter herdado ao mesmo tempo e sozinho a fortuna de seus antepassados de seis gerações mortos todos ao mesmo tempo por um acidente sem precedentes. Acidente sem precedentes era uma expressão que já não tinha sentido em ser utilizada, tornando-a obrigatoriamente redundante, já que todo acidente era imediatamente analisado por uma série de algoritmos interligados por uma rede de inteligências quânticas e levado a cada microestrutura que naquele dado momento já compunha literalmente tudo com o que um ser humano faria contato em vida, do solo ao ar que respiravam; das vestes e veículos, aos alimentos e órgãos transplantados. Portanto, um acidente era algo quase impossível de se acontecer devido ao tempo de acúmulo de dados que a espécie humana obtinha e mantinha em circulação. Qualquer traje ou veículo era inevitavelmente contrário a participar de agressões ou movimentações que pudessem por em risco a si mesmo ou a terceiros. Qualquer comunicador, mental ou analógico, era incapaz de transmitir ordens que ferissem qualquer estrutura humana direta ou indiretamente, da mesma forma eram usados para avisar de qualquer risco remoto que dada situação oferecesse (hipoteticamente, já que não houvera muitos casos antecessores há milênios).
Há matemáticos que interpretaram o ocorrido como uma força da improbabilidade, que de tão improvável - tendendo ao impossível - caiu-se implacável sobre a situação sem qualquer chance de resposta satisfatória por parte de suas defesas. Da mesma forma que o ocorrido trouxe um aquecimento em todas as esferas econômicas - do entretenimento, do jornalismo, das ciências, seguradoras, e por aí vai - ele trouxe muitos a reflexões existências e assendeu pela enésima vez a fagulha da dúvida quanto ao livre arbítrio. Foi esse questionamento quanto ao determinismo que trouxe Will, o único sobrevivente desse grupo de parentes afortunados. Ele se salvara apenas por ter optado presenciar virtualmente do fatídico evento enquanto comparecia a um evento similar com a família de sua então companheira. Após muita terapia, seguida de um divórcio e de mais terapia e tratamento, Will engressou em estudos cosmológicos. Qualquer cidadão com a fortuna que possuía, sua disposição e o tempo de vida indeterminado que sua renda podia comprar, poderia tornar-se um explorador do espaço. Ocupação essa raramente acolhida por pessoas, visto que máquinas poderiam fazer com mais autonomia e obtinham melhores resultados. Porém, apesar de que o acesso nunca lhe tenha sido negado ele precisou ocultar o real motivo de tudo aquilo até o último momento. Existiam tantos mecanismos de autopreservação de sua espécie que ele nunca de fato poderia alcançar qualquer ponto no espaço que outra inteligência artificial outrora não tivesse alcançado. Preciso obedecer a um planejamento de exploração trilhado por ele e sua equipe espacial até o momento oportuno em que se pôs em fuga rumo ao desconhecido.
Precisou agir da forma mais imprevisível possível, sem tempo de reação ou de auto sabotagem de sua tripulação virtual - até que as comunicações estivessem cortadas e ele estivesse pela primeira vez por conta própria a deriva.
Energia para a nave não seria problema por muitas décadas, porém sua constituição humana ainda era dependente de nutrição. Seu estoque não seria suficiente para voltar caso tentasse retornar muito tardamenente. Portanto não voltaria, decidira. O tempo é uma questão complexa para um ser que vivera tanto tempo quanto ele. Poucos humanos que conhecera vivera por tanto tempo - com exceção de sua família e de outros membros da elite galáxica - as pessoas ordinárias como seus funcionários, professores e 7 de suas ex-mulheres, não viviam mais do que 200 anos terrenos. A Terra foi o planeta de origem de sua espécie e a rotação sobre seu eixo e sua translação ao redor de uma estrela era como ainda contavam a passagem do tempo, o planeta se encontra agora muito distante para ser visisado e pouco poderia a oferecer de novidade.
Adormecera quando finalmente descartou qualquer possibilidade de estar sendo rastreado ou seguido - quando sentiu que os recursos a serem gastos para recuperar o que estivesse com ele seriam maiores. Neste momento deveriam estar arrumando alguma forma de declará-lo morto para confiscarem seus bens criptografados e suas porcentagens de lucro.
Sonhou com um gigante espelho que aumentava sua imagem conforme se aproximava, quando finalmente pôde tocar seu próprio joelho refletido na imagem, utilizando a ponta do dedo com seu braço erguido e esticado para frente, o vidro explodiu de dentro pra fora. Choveu cacos prateados e uma imensa perna atrevesou em sua direção. O pé desceu violentamente sobre sua cabeça.
Acordou faminto, mas a comida precisava ser racionada. Conforme avançava dados de reconhecimento inundavam seus sistemas e sua principal tarefa era filtrar com sua tripulação artificial remota aquilo que seria útil, visto que não poderiam armazenar tanta coisa sem uma conexão com a base. O mais prudente seria colonizar pontos de minérios e fontes de energia para progredir gradualmente, pois esta era a forma que a raça humana e posteriormente suas máquinas fizeram desde os primórdios da expansão humana pelo cosmos. Mas Will não queria postergar muito seu objetivo, nem mesmo desviar um pouco que fosse da rota que a tanto tempo estudou secretamente. Sentia-se mais intuitivo e ao mesmo tempo ansioso do que nunca, precisava chegar ao fim disso e sentia que estava o fazendo da melhor forma ao não deixar chance de sobrevivência diferente daquela.
Não sabia antecipadamente como haveria de se parecer aquilo que procurava, talvez cruzasse o ponto em questão sem perceber que o fizera, e só depois de muito tempo perceberia. Ao mesmo tempo tinha a impressão de que o quanto mais avançava mais distante estava do seu objetivo, era como se mais e mais espaço entre eles se formavam, ou então que não estivesse saindo do lugar, mesmo todos os dados que a analisava mostrassem que já haviam percorrido distâncias inimagináveis por um humano. Estava cada vez mais distante de qualquer coisa e se perguntou se não estaria morto antes de encontrar qualquer refúgio àquela insanidade que se submetera.
Em meio ao vazio a nave perdeu força e soube que estava imóvel. Não entendia o que o fizera estacionar ali, apesar de tudo indicar que ainda estavam disparando energia de propulsão. Decidiu aumentar a velocidade. Nada. Estava preso embora nada apontasse isso também. Tentou iluminar os arredores, mas as luzes pareciam não chegar em lugar algum. Por fim desligou os motores e sentiu a nave escorregar um pouco, mas não teve certeza. Mandou um robô fazer reconhecimento, mas ao se distanciar muito pouco da nave perdera qualquer conexão com a mesma e desapareceu na escuridão. Preparou um veículo e partiu ele mesmo para fora da nave. Não havia precedentes para saber qual o melhor procedimento e isso o confortava ao mesmo tempo que lhe dava ainda mais excitação. O veículo parecia se mover não pela força da tração mecânica de suas esteiras, mas por falta de atrito deslizando quase desgovernadamente em qualquer direção que Will tentava conduzir. Sentia-se patinando em gelo pela primeira vez - não lembrava de sua primeira vez, mas sabia que apesar de ter caído muitas vezes nenhuma delas machucara devido aos trajes de segurança - quando mais domínio achava ter sobre a coisa mais ela parecia imprecisa e torta. Quando finalmente achou que estava no controle percebeu novamente que não podia mais se mover. Era o momento de decidir se passaria seus últimos momentos parado ali no escuro ou se arriscaria o contato usando apenas seu traje ligado por um tubo ao veículo.
Desceu. Escorregou e caiu. Riu por uns bons minutos. Ergueu-se com dificuldade e patinou sentindo a gravidade e como ela parecia tender a trazer ele para próximo do veículo. Deduziu que a superfície era côncava, livre de atrito e que o mais superficial contato com qualquer objeto o empurraria com força praticamente sem desperdício. Deveria estar próximo ao centro dessa concavidade. Fez uma concha com a mão, ilustrando e tocou com o indicador no meio de sua palma. Olhou pra cima e tentou pular. A gravidade era forte. Sabia disso desde que deixara a nave, mas não compreendia. Ela provavelmente estaria em alguma borda de sua "mão" pensou olhando-a como se fosse um mapa. Podia iluminar poucos metros com as luzes de seu capacete. Sabia a distância que estava de seu veículo trator pelo cumprimento do cabo. Entendeu que seria cada vez mais difícil avançar conforme se distanciasse do centro e ao mesmo tempo não deveria haver saída de onde estava. Não queria sequer entender como penetrara aquele "solo" ou campo gravitacional, mas teve a estranha sensação de que era isso que estivera buscando encontrar. Fez uma segunda concha com a outra mão e juntou as mãos.
Will não era inventor, mas reuniu todo o conhecimento da raça humana subtraído os perdidos pelo filtro que fez através de anos e anos de viagem sozinho na companhia apenas de sua mente e de inteligências artificiais para enfim chegar a uma engenharia rústica que pudesse fazer os poucos recursos em sua posse chegarem a propulsão necessária para "unir as mãos", como pensou. Seu novo foguete foi feito de engenharia reversa, da reconstrução com a pouca matéria que trouxe consigo em forma de nave, sem protótipos além daqueles simulados em seus softwares, sem dados concretos da realidade inusitada a ser enfrentada. Estava pronto para o lançamento e destruiria de forma literal tudo o que restou do que lhe trouxe até aquele momento, queimando silenciosamente em combustão e calor todo o arredor. Estava contando os segundos para ir de um centro a outro de sua mão. Prepararia a aterrissagem para o outro lado e então lá haveria de passar seus últimos momentos sem saber como faria para cruzar aquela esfera negra. Com sorte estaria errado e chegaria novamente ao espaço onde poderia tentar abrigo em planeta menos hostil e viver após ter realizado essa experiência de sobrevivência que já o enchera de satisfação. Ainda havia o risco do lançamento terminar em explosão e ter seu fim ali mesmo, nem isso o assustava mais.
O lançamento porém foi um sucesso e conforme avançava sentia que estava perto de algo maior do que poderia conceber. A gravidade era fortíssima, ainda havia o risco da força não ser suficiente para o fazer se distancar o suficiente do "solo" e manter a trajetória até o fim daquele espaço do qual ele não sabia o tamanho. Imaginou que saberia quando cruzasse o centro da esfera ao sentir a gravidade aumentar em sentido contrário, ai chegaria o momento de mudar a trajetória para a de pouso, antes que colidisse puxado por essa gravidade. Estava preparado para esse cenário ou para que atravessasse uma hipotética atmosfera. O que aconteceu porém foi inesperadamente a mesma coisa que o trouxe para o início de tudo isso. Percebeu-se novamente que não estava mais avançando, tampouco caindo.
Enfurecido resolveu deixar o foguete sem qualquer reconhecimento da área, usando de ganchos e cordas escalou até o topo. Para seu assombro o que viu ao iluminar o topo da ponta de seu foguete era que no exato ponto onde deveria terminar a extremidade dianteira do foguete outra se extendia exatamente igual a esta, continuando inversamente semelhante assim como uma imagem refletida. Estendia-se até a origem de uma segunda luz. Chegou o mais perto possível daquilo e extendeu, sem qualquer surpresa, o indicador de encontro com outro igual ao seu, e, ao se sentirem, ambos souberam ao mesmo tempo que jamais conseguiriam atravessar.














