Pão, para além do carboidrato.
Há uma onda dentro dos “nutricionismos” que insiste em “dicotomizar” os alimentos entre mocinhos e vilões. O pão, que foi encarado como vilão por muito tempo (trocado primeiramente pelas famosas bolachas de água e sal e mais atualmente pela tapioca, tudo na esperança de um “comer mais saudável” ou “comer menos calorias”, ou ainda “comer menos carboidratos”), tem voltado a ter seu espaço, passando a ser incluído cada vez mais no dia a dia de pessoas que pregam a importância do famoso “estilo de vida saudável”.
Bom, que o pão é um alimento fonte de carboidratos (macronutriente que nos fornece energia de forma mais rápida), muita gente já sabe. Que uma unidade comum tem em torno de 150 kcal, também não é tanta novidade assim. Que ele possui glúten (proteína presente no trigo e que faz mal para pessoas com doença celíaca), essa com certeza todo mundo já ouviu falar.
Mas você sabia que o pão é talvez uma das preparações mais antigas criadas pelo homem? Falamos em criação no sentido de produção, junção de ingredientes e desenvolvimento de técnicas. Talvez para nós não pareça tanta coisa agora, mas o alimento que contém mais de 80 % de seu aroma na casca possui pelo menos 10 mil anos, tendo em vista escritos e vestígios arqueológicos. Mas que vestígios arqueológicos o pão teria? Em Gizé, no Egito, foram encontradas padarias de mais de 4500 anos.
É no Egito, por sinal, localizado no crescente fértil, berço das primeiras civilizações que se formaram pela sedentarização e produção da agricultura, que os primeiros pães foram produzidos. E o que tem isso de especial? A início de conversa, toda formação de uma civilização é fantástica por si só: o processo de sedentarização em torno do Nilo, aproveitando as cheias para a agricultura fez com que se produzisse um modo de produção específico, assim como um calendário baseado no ritmo do rio. Lá, o trigo foi plantado e com avançadas técnicas de fermentação egípcia, juntamente ao sal e a água foi formando os primeiros pães da história. Mas ainda falta algo: o fogo! O pão sintetiza todo um processo de superação da Pré-Histórica, claro que não academicamente dizendo, visto que esta se encerra na Idade dos Metais e formação das primeiras civilizações (tendo em vista que o fogo já havia sido dominado durante o Paleolítico), mas ainda assim de forma simbólica: o observar dos grãos que crescem, a junção dos ingredientes, o levar a uma temperatura maior. Tudo isso são frutos de milhões de anos de evolução humana unificadas em um alimento.
Mais que isso: de socialização humana. O pão é um alimento “democrático”. É sim símbolo de avanço do paladar humano, mas também em momentos de desespero e necessidade. Em alguns locais do Egito hoje existem padarias abertas onde se compra o pão por 1 centavo brasileiro. Locais em Israel que a distribuição de pães por meio de um cadastro salva a alimentação de muitas famílias miseráveis. Na Idade Média, o pão puro era apenas para os nobres, mas a partir do século XIV, com a intensificação das secas, da fome e das doenças, o pão tinha em sua consistência elementos não convencionais como argila e madeira para alimentar os servos e novos habitantes das cidades.
O pão é assim um alimento universal. Mais que isso, é um alimento atemporal. Sua simbologia é nos mais diferentes sentidos relacionados a partilha. Jesus parte o pão e entrega aos seus discípulos no maior momento dentro da fé cristã. Antes ele mesmo havia feito o milagre da multiplicação dos pães, milagre este que algumas vertentes mais “modernas” dentro do cristianismo apontam como metafórico: Jesus não fez “aparecer” mais pães, mas mostrou que na partilha deste alimento era possível alimentar mais pessoas.
O Império Romano, antes de condenar Jesus dominou praticamente toda Europa Ocidental, Norte da África e Oriente Médio. Dosar tantas culturas distintas e impor uma forma civilizatória, cultural e legislativa romana a toda essa diversidade só foi possível aos imperadores que promoviam eventos no qual gladiadores matavam-se em arenas e pães eram distribuídos para os espectadores famintos que provavelmente só teriam esta alimentação no dia.
Enfim, nos parece que mais que carboidratos, o pão é carregado de significados, sendo símbolo de muita história dentro da humanidade.
O Guia Alimentar para a População Brasileira (2014) traz o pão como alimento típico do café da manhã de algumas regiões do Brasil. Na dúvida, prefira os que são produzidos artesanalmente. Na correria, prefira aqueles com menos ingredientes (o famoso pãozinho francês, não tem erro). Sem exageros e sem culpa, não tem problema comer pão. O ser humano come – e gosta de comer pão – há milênios.













