Este dia foi épico. Mas a descrição ultrapassa os limites. Mais vale passar ao próximo, amigos.
26 de Julho. Talvez seja melhor decorar esta data. Foi o dia. O meu dia Triunfal, mas não, não me despersonalizei em múltiplos "eus". Descobri-me. E para todas as pessoas que disseram que estava "perdida" quero apenas responder que me "encontrei".
Não, se pensaram que iria assumir homossexualidade, estão enganados, ainda aprecio o sexo masculino, os rapazes têm aquela essência que não consigo captar em qualquer outro género. Foi noutro campo que a revolução ocorreu.
Sempre fui uma pessoa com dificuldades em tomar decisões, em escolher, em fazer as coisas determinadamente, sem anteriormente ter estudado a situação de todos os ângulos imaginatoriamente possíveis. Aquelas pessoas complicadas. Sou eu. E, ultimamente, a pessoa chega a altura de escolher o curso, decidir a vida, e lá estava esta alma perdida, que não sabia para onde me virava, por mim na altura, até empregada doméstica soava bem. Os meus pais eram os dois tristes de rofissão e não me empurraram para nada, porque eles já sabiam o que era ser empurrado, e os empurrões nunca dão bom resultado nestas coisas. Maaaaaaaaaaaaas, como estava a dizer:
Tenho um problema, passo a explicitar: gosto de tudo. Interesso-me por tudo. Admiro tudo, quero saber tudo e não há nada pelo qual não me interesse. Até o ciclo intestinal das moscas, as flores do passeio, a composição anatómica do cérebro do rato e as datas e os versículos e tudo, qualquer coisa! Para além deste facto, tenho a chata capacidade de escrever páginas e páginas sobre "nada" que é um assunto que me assiste, falo sobre o nada, e até me sabe bem, até gastar as mãos e os miolos, não me canso. Deu um jeitaço para Filosofia. Depois sou também daquela gente que quando mete uma coisa na cabeça, é pior que uma mula cega, ou seja, mato-me até conseguir o que quero, e gosto sempre dos caminhos díficeis, lá está a complicadez outra vez a atacar.
E a que me leva isto tudo, perguntemo-nos. Ora bem: primeiramente escolhi Ciências, secalhar subconscientemente influenciada por amigos, depois escolhi Economia novamente em possível seguimento de um rapaz (que foi o primeiro "Häagen Dazs", a primeira surfada de todas, a luz estreante, o deslumbramento, a ceguez, o Deus, a parvalhice), a meio do 10º ano dou por mim a ir para Artes, porque desenhava nas aulas de Processos Económicos e a minha escrita ao que aparenta não era sucinta e directa, mas sim "artística" lá no sentidinho depreciativo. Então pimbas, sem nunca perder anos, tudo de seguida, andava feita cabrita a saltitar de curso em curso, e a gostar de tudo, de Arte, e Filosofia, e Literatura, e Física, e Teoria das Cordas, Bosón de Higgs, Mucha, estrelas no céu tipo constelações, Biologia, Neurociência, Política, Bases Monetárias, coisas da Sociedade e por aí em diante. Que chata. Vida chata.
Depois chegou a altura de ir para a faculdade, e senti uma ligeira falta de preenchimento com Artes por não ter cadeiras de Matemática e coisas pesadotas que eu feita masoquista, sempre gostei de perseguir, então fui para Economia. Passei um ano dos diabos que me deixou em coma, com uma avalanche, tipo uma G3 disparada contra mim, mas mesmo assim consegui acabar o ano. Quando recuperei da carnificina (atenção que demorou cerca de um ano, talvez dois se contarmos com o tempo que estive em coma perdido), NASCI OUTRA VEZ. Auto descobri-me, aceitei-me, afirmei-me, fiquei consciente e racional outra vez, foi a primeira lufada de ar que os bébés dão no Mundo cá fora, custou e demorou, mas veio finalmente, e a príncipio pareceu estranho (da parte da manhã) mas agora a noite que estou aqui a reflectir, tudo até fez o seu sentido. Consegui encontrar uma paixão, uma peça que preenche cá dentro e dá sentido à minha vida, e agora aqui vem o rídiculo: "ajudar os outros". Preciso de pessoas, e sempre me virei para os outros, porque sinceramente, já basta as alturas em que passo pelo espelho... sou uma chatice, sempre me virei lá para "fora". Sabe-me tudo a novo, é tudo o " melhor da minha vida", está tudo mais intenso, mais vívido, mais real e apreciado por mim, que era algo que antes não fazia. Deixava as coisas a meio, quando já "não me apetecia" e nunca houve nada que fosse até ao finzinho para dar TUDO DE MIM. Nunca me entreguei toda a nada. Nem a nada nem a ninguém. Credo.
E hoje voltei a entrar, após 9 anos, numa piscina, e foi o melhor orgasmo sensitivo que tive nos últimos tempos, provavelmente. Uma sensação indiscrítivel. Ainda melhor do que quando na semana passada fui à praia, após um período de recusa. Esqueci-me do quão bom aquilo era, e o quão pequeninas as outras coisas são todas comparadas àquilo. Parece que rebentei uma bolha, sendo esta de metal, e de metal com picos, picos para dentro e para fora, afastava-me a mim de mim mesma, e os outros de mim, e isolava-me sei lá eu bem onde, em terras perdidas.
E adoro o mar. Adoro natação, e surf, e ondas e água. E quando vou à praia fico 6 horas dentro d'água sem me cansar até enrrugar os dedos. Não sei se é pela experiência gravítica reduzida, se é do fluido em si, sinto-me em casa. E nunca me senti em casa. Nunca tive uma casa. Quer dizer, tive habitações e edíficios onde habitei mas aos quais nunca senti o conforto do que era realmente ter uma casa.
Voltaram os meus sonhos de antigamente, as ambições, as vontades, os delírios! E graças a deus! Desde os 13 anos que digo que quero sair de casa, e viver sozinha, e ser rica, e viajar pelo mundo, e ler os livros todos da biblioteca do meu pai e saber tudo. E depois estive meia adormecida, mas agora voltou. Acho que estive doente. A níveis físicos, mentais e patológicos, ressinto-me sempre muito sempre que a cabeça não está bem, nada à volta está.
Em Janeiro vou tirar o curso de nadadora salvadora, voltei para a natação, tenho este ano para estudar e entrar em Medicina em Santa Maria, a carta de condução já está 3/4 despachada, vou ter imenso tempo este ano para me recuperar, para ir ao mudeu de arte antiga e passar o dia todo lá a babar, para ir ao cinema e ver tudo o que quiser, para ver as séries todas que tenho no pc há anos e atender todos os livros que estão empilhados há séculos a gritar.
Continua tudo o mesmo lá fora. Fui só eu que mudei. Acho que se passa por isto às vezes, estas crises. Faz parte. E o pior já passou. Agora só me quero recuperar fisicamente, e psicologicamente, ficar mais solidificada, com metais, mais segura de mim, comigo mesma e por mim. Apoiada em mim. Dentro da minha pessoa e na minha presença. E não, não há ninguém lá fora a que me pudesse agarrar, ou ajudar, ou existir.
Adoro artes marciais, tipo judo, adoro judo, por toda a estrutura mental envolvida, pela filosofia, pelo espírito que move o corpo, a física que desequilibra e em balança ficamos. O judo cimentou-me cá dentro, e juntamente com a natação e com o surf, foram sempre coisas que me trouxeram paz de espírito e calma. Acima de tudo calma. O tempo pára, o infinitamente espacial envolve-me e sou só eu ali toda deslumbrada.
Voltei a procurar as minhas pessoas, voltei a encontrar moedas no chão! (ainda ontem foi uma de 50 centimos), voltei a ver formas nas nuvens, e a chorar de rir, e voltei a viver, se não é ser demasiado dramática. Vou já marcar aulas de surf. Era só isto. Pronto, já saiu.