corra sua própria corrida
Eu, sinceramente, não acho que a vida seja uma “corrida”, entende? É claro que tudo tem começo meio e fim, assim como a vida, mas isso não deveria ser o suficiente para algo ser, de alguma maneira comparado à vida. Mas a sociedade em que vivemos faz parecer com que a vida tenha mais coisas em comum do que um começo, um trajeto e um final. Faz-nos acreditar que todos aqueles ao nosso redor são competidores e que nós temos que “vencer na vida”, o que implica em chegar no “sucesso” antes daqueles que estão ao seu redor no seu campo de visão (que se tornou beeeem extenso com a internet). Eu venci se eu tirei 8.0 na prova, se foi a melhor nota da turma, mas se todo mundo tirou em média 9.5, e eu tirei 8.0, eu perdi. Na fase adulta, isso se torna um pouco mais complexo do que no sistema acadêmico. Vencer sai do campo numérico (exceto pelo saldo na sua conta bancária), e passa a ser um pouco mais complexo e menos “binário”. Matemática básica é simples, certo? Pode até não ser fácil, mas é simples. Quando crescemos, vencer é ter uma casa antes, um carro, um casamento, um filho, viagens, fazer festas para mostrar como temos uma bela casa e pra se gabar do jardim. Depois, assistir seus filhos como uma corrida de cavalo, falando de forma bem cruel. Ele precisa ser melhor na escola que o filho de seus “amigos”. Ele precisa se formar numa faculdade melhor, ter um emprego melhor, ser bem sucedido primeiro, para que você preencha seu vazio falando dele ou dela ao telefone com seus “amigos”. Afinal, é mais um bem que você usa como acessório para alimentar sua vaidade. E então, um dia você morre. Porque não dá pra evitar esse dia. E esse é o final da corrida. A linha de chegada. Independente se você se formou na USP ou teve que largar o ensino médio e ir trabalhar pra ajudar em casa.
Ok, mas voltando para a corrida. Para ter um vencedor, é preciso ter comparação. Se você me disser que ganhou o primeiro dizer em um campeonato de tortas de chuvisco (doce campista), e você era a única pessoa competindo, bom, que mérito teria isso? Então, a consequência do discurso de “vencer na vida” é a comparação com as outras pessoas que nos cercam. Mas no fim das contas, somos seres sociais, que se beneficiam de viver em sociedade e que precisam de relações interpessoais para serem saudáveis, viverem mais e serem mais felizes. Por isso o “amor é um ato de revolução”. É querer que outra pessoa vença na vida também. Que outra pessoa fique feliz também. Mas mesmo no amor, como disse anteriormente sobre relações comuns de pais com filhos, habita a competição em muitos casos. E a quem isso beneficia? Acho que você deve saber responder essa pergunta, mas a “elite” - que, não sei se você já procurou no dicionário, mas significa: “o que há de mais valorizado e de melhor qualidade”, seguido por: “minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social”, esse título também carrega sinônimo de valor, importância, assim como tudo que é vinculado àqueles que possuem dinheiro e, por consequência, poder, a famosa “Gente Importante”. Como se todos os outros não fossem importantes – mesmo depois de Jesus vir e fazer todo o sucesso que ele faz, não tem isso de “somos todos irmãos aos olhos do Pai”, né? Eu nem sou uma pessoa religiosa nem nada, mas isso é o básico que qualquer pessoa que nasceu em um país cristão sabe. E o básico que qualquer pessoa sabe é que não, não somos todos “iguais”, tratados de forma igualitária, não somos todos tratados com respeito, e com valor. Embora todos nós tenhamos valor. A soma de tudo isso não poderia dar um resultado positivo.
Ok, então eles dizem que estamos numa corrida, que todos temos as mesmas chances de chegar ao pódio, mas só alguns podem beber água, parar pra descansar, pegar atalhos, usar tênis, capa de chuva e usar casaco. Alguns também podem ganhar um buff. Mas isso não quer dizer nada. Todos estão correndo e batalhando, e se você não chegou ao pódio, foi porque não se esforçou o suficiente. E então, se você internaliza realmente esse discurso de que todos estamos correndo a mesma corrida, que precisamos vencer, e que todos nós temos a mesma chance de chegar ao pódio, todas as áreas da sua vida são afetadas profundamente. Até mesmo suas relações interpessoais. O tempo é seu inimigo. E a felicidade, uma promessa.
Eu tenho uma coisa pra te dizer, e eu espero que você leia de mente e coração abertos: não estamos correndo a mesma corrida. Não temos acesso aos mesmos recursos. Não temos as mesmas oportunidades. Não somos inimigos que precisam se comparar, ou ainda pior, diminuir as conquistas do outro pra poder se sentir melhor consigo mesmo. Então, você está correndo sua própria corrida, mas uma corrida diferente. Nela você não tá competindo com ninguém, ninguém vai vencer. É apenas uma corrida pra você conseguir aproveitar o máximo de experiências que conseguir no seu tempo de vida. É a sua estrada, onde você vai tropeçar, parar pra descansar, encontrar muros, borboletas, amigos, amores, saudades, vai pegar uma carona, vai subir no pódio, ou não, vai superar, recomeçar, e seguir em frente. Nessa jornada, você vai encontrar pessoas que vão testemunhar um pedaço da sua estrada, e você as delas. E depois seguirão sozinhas carregando umas as outras no coração, numa memória bonita, num pôr do sol, numa música. Nessa corrida, você não precisa aproveitar tudo ao máximo e todas as experiências do mundo, mas saber aproveitá-las. O que importa conhecer as mais lindas paisagens do planeta, se você não sabe se sentar em paz e se conectar com ela? O mesmo vale para tudo na vida. No seu tempo, na sua estrada.
Então, essa carta é um convite para você correr a sua própria corrida, construir sua própria estrada. O ponteiro vai te lembrar a cada página que a vida é feita de uma coleção de acontecimentos que experimentamos. Que nem todos os dias são felizes, nem todos os dias são tristes. Mas que independente disso, ele vai estar com você. 1, 2, 3, vai!