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Romance Pedagiado
A maquiagem estava posta. O uniforme do trabalho, impecável em sua ridícula cor, estava bem esticado e talvez engomado. Engomar roupa é trabalho, quase ninguém o faz hoje em dia, mas Meu Amor faz questão de estar bem apresentada. Romântica do jeito que era, ela sabia que naquele dia, poderia vir a encontrar o companheiro de toda uma vida. E, com aquele velho ditado que nossas avós e as avós delas diziam: "A esperança é a última que morre" na cabeça, Meu Amor finalizou o batom vermelho com um beijinho para a sua imagem refletida no espelho. Orgulhosa de como seus olhos castanhos piscavam e eram destacados pela cor preta do lápis de olho, tentou fazer aquele olhar 43 que assistira há muito tempo na televisão. Charme. O segredo desse olhar era desconhecido, mas poderia parar o trânsito se feito da forma correta. Só que para a realidade, o que parava mesmo o trânsito era ou acidente ou passeata ou dinheiro inteiro que precisava de troco. Resignada, deixou os sonhos que já ameaçavam surgir de lado e saiu do bairro cedo, rezando para que a lotação não atrasasse. Chegar atrasado ao serviço era algo que ela não se permitia fazer, ainda mais se fosse para mudar o turno de quem estivesse passado a noite em claro. Deus era testemunha de que trabalhar a noite era um árduo exercício de concentração e de insônia. Café era a chave do sucesso. Longos minutos depois, Meu amor trocou de lugar com Ana Rita. Ana Rita era uma mulata que gostava de pagode e só andava emperiquitada. Sorridente e toda gaiata, estava sempre procurando coisa com os volantes. Mas as 06:02 da manhã, estava com rímel borrado e trazia em seu semblante marcado pelo sol, o cansaço da jornada noturna. E, foi só por isso que Meu Amor não respondeu da forma como mainha ensinou, à mal criação da nega. - Tá atrasada. - Ana resmungou colocando a mão no ombro logo depois da alça da bolsa. - Bom dia para você também. - Meu Amor sorriu. - Humpf. Confira o caixa. Tô indo. - E foi. Levando no rebolado as horas que passaram rápido. Foram junto os carros, as motos, os triciclos, os caminhões... - Tem trocado? - Tem não. - Tem 0,25 centavos? - Tem sim. - Não esqueça a notinha. Todo mundo passou. E enquanto o relógio tiquetaveava, marcando que seu turno terminaria dali há três horas, Meu Amor se viu conferindo o troco de um jovem casal. O moço disse: - Boa tarde Meu Amor. - era novo, resplandecia em sua juventude mais pura, talvez 25 ou 30 anos, pensou. - Boa tarde Senhor. - sorriu diante do nome. Seria ele? Afinal, ele a chamara pelo seu nome. Perdida na possibilidade, outra voz se fez presente: - Boa tarde! - miúda no banco do carona, uma morena sorria simpaticamente. Para Meu Amor, que ainda observava o carro se afastar, restou o gostinho agridoce, daquilo que muito se almeja, mas que nem sempre se pode ter. Uma hora mais tarde, preparava o fechamento do seu caixa, conformada com a sua falta de sorte, mas decidida a não desistir do sonho de compartilhar um sentimento tão puro como aquele que move os jovens a cometerem suas loucuras insanas, retocou o batom vermelho. E lá embaixo, atrás de cinco outros carros, um vermelho lhe chamou à atenção: curioso ser da mesma tonalidade de carmim que agora coloriam seus carnudos lábios. Engraçado a coincidência. Pensou Meu Amor. E embora não fosse tão crente em coincidências, ela, que conferia os valores pago, passava o recibo ou o troco, manteve os aguçados olhos castanhos no carro que aos poucos se aproximava da sua cabine. Quando o mesmo se aproximou, roubou o ar do peito, foi como se o tempo congelasse, e em uma fração de segundos, Meu Amor viu o filme da sua vida passar pela sua mente. Os passeios e as noites. Os chamegos no cangote e o suor nas têmporas. Os filhos, suspiros e choros... - Boa tarde Meu Amor...- a voz era grave e profunda, arrepiou os pelos do braço. Tinha cabelos grisalhos e parecia faltar um dente, mas os olhos que eram de um dourado derretido, relembrando a Meu Amor o mel que comprava na fazenda de Dona Raquel, prendeu no seu. E lá se perdeu. Ela lembrou de sorrir e de baixar o olhar. Era hora de pôr em prática o olhar que tanto treinou. Funcionaria? Nunca soube, ela queria falar, mas o que? "Pega o dinheiro sua tonta. Torce que seja inteiro e demore no troco." A nota estendida era de vinte reais, e ao ver aquele sorriso maroto, se sentiu aquecida na forma mais gostosa possível. Ele a olhava sem pudores, estaria interessado nela? Seria ele? Era ele. Aquele momento fugaz parecia ter durado uma eternidade e demorou muito mais tempo para ser retratado em um papel. Depois que o troco foi dado, o último olhar foi compartilhado, as palavras que não foram ditas ficaram a deriva, perdendo-se no mar de carros e de buzinas que impacientemente queria seguir seu caminho pela cabine parada. Com um simples obrigado e um sorriso final, Meu Amor estendeu o troco e o comprovante, levantando a cancela e permitindo que o carro vermelho seguisse seu destino, tendo a certeza de que aquele homem levara um pedaço seu.
Muito tempo depois, o homem iria vir a encontrar, caído e amassado no carpete do seu carro o comprovante daquele dia, e repararia ao fundo, uma série de números escritos por uma caligrafia fina e quase se apagando, que o sentimento que o acometeu naquele retorno para casa não fora unilateral. No final das contas, vermelho era a sua cor preferida.
Continua...