“Sentir medo da noite não fará com que o dia escureça mais devagar”
Na cidade em que eu morava, havia uma família muito rica e influente chamada Dal Farra. Eles tinham algumas particularidades, que faziam o pessoal da cidade os chamarem de família Adams, como a licença de um cemitério familiar no quintal. No entanto, o terreno era grande o suficiente para terem esse tipo de espaço e, se algumas famílias podiam ter uma quadra de tênis, por que outras não poderiam ter um cemitério? Desde que estivesse dentro da legalidade ambiental...
Particularmente, sempre tive interesse na propriedade dos Dal Farra. A casa não era muito grande, mas sua arquitetura era absurdamente diferente de tudo na cidade, quase um ponto turístico. Era uma casa de pedras escuras, tinha dois pisos. Sua frente possuía uma pequena escada que dava para a área, levemente arredondada, sustentada por alguns pilares cheios de formas. No segundo piso, havia uma miniárea também, de um lado, provavelmente à porta de um quarto que dava para a rua da frente e, ao seu lado, uma sacada sem cobertura. Era um cenário meio Romeu e Julieta, mas sem as flores. As pedras mesclavam entre um tom de chumbo e um vermelho desbotado. Tinha um ar bem antigo, mas elegante e muito sério. Era a minha casa dos sonhos.
Eu devia ter por volta dos trinta anos quando o Sr. e Sra. Dal Farra faleceram juntos em um acidente de carro. Os filhos, que tinham mais ou menos minha idade, e nunca se casaram ou saíram da casa dos pais, decidiram voltar para a cidade natal deles, em que viviam os tios e primos. Ninguém sabia muito sobre os Dal Farra, mas muita gente comentava que eles eram fechados a ponto de casarem-se apenas com membros da própria família. Havia um boato, inclusive, de que o Sr. e Sra. Dal Farra eram primos de segundo grau criados praticamente juntos.
Foi nessa época, inclusive, que comprei a residência dos Dal Farra. Com a mudança dos irmãos, a casa foi posta a venda e eu, que sempre vivi de olhos nela, não perdi a oportunidade. Assim que a papelada ficou pronta, já resolvi minha mudança imediata. Felizmente, não precisei carregar muitos móveis, pois a casa havia ficado com todos. No entanto, achava um pouco estranho utilizar aqueles mesmos móveis que a família metade falecida havia usado por anos, mas preferi o conforto e calmaria da não necessidade de transformação dentro dos cômodos, afinal, o jeito que era por dentro, combinava com a parte de fora.
Lembro-me bem da primeira noite naquele lugar. A escuridão da paleta de cores da decoração da casa piora quando o sol se vai. Toda seriedade e elegância dão lugar a um ambiente assombroso. As coisas pioraram ainda mais quando rapidamente lembrei que havia um cemitério no quintal. Assim como muitas pessoas no mundo atual, eu sou bem cética. No entanto, também acredito naquilo que vejo. Eu nunca vi uma assombração fantasmagórica, por isso não acredito, mas… e se um dia eu ver? Talvez seja por isso que, nos momentos de pânico, cobrimos nossos olhos.
Passei três dias tentando entender que não havia nada de mais em ter corpos enterrados no quintal e que isso não assombraria minha nova casa, que tudo que andava sentindo nos últimos dias era fruto de um medo imaginativo. É claro que não manteria o tal cemitério comigo. Não só por questões culturais (não eram meus parentes) como por questões ambientais. Eu pretendia transformar o quintal em um ambiente de lazer com piscina e precisaria utilizar partes mais profundas daquele espaço do terreno. Pensando nisso, tentei entrar em contato com um primo meu, que é policial, para comunicar aos responsáveis sobre a situação. Não tive muito sucesso, mas nem foi preciso, no dia seguinte eles apareceram no terreno justamente para resolver essa questão.
Ninguém conseguiu contato com os Dal Farra, para saber o que pretendiam fazer com os corpos. Era como se eles tivessem deixado de existir. O que não foi tão surpreendente, já que tinham hábitos estranhos e eram absolutamente reservados. O fato de terem vendido a residência, também, sem informar nada a respeito do cemitério familiar, nos fez chegar à conclusão de que não se importavam. De qualquer modo, meu primo deixou um espaço legista encaminhado para os corpos, caso alguém aparecesse para procurar informações.
Por ser prima do policial, eu estava presente no dia em que foram desenterrar os corpos. Alguns estavam em caixões, mas encontramos outros enrolados apenas em tecidos sem o menor cuidado. No entanto, o que mais nos chamou a atenção foi um corpo que parecia ter sido enterrado recentemente. No primeiro momento, imaginamos que pudesse ser um dos corpos do casal, mas estranhou-nos que estivesse sozinho. Ao abrir para conferir quem estava enrolado naquele tecido, meu primo e a equipe legista ficou petrificada. Tentei questioná-los sobre o que estava acontecendo, mas ninguém me deu atenção. Após alguns segundos, consegui me aproximar do corpo para sanar minha curiosidade em saber a quem pertencia, pois para meu primo parecer tão assustado, poderia ser que eu conhecesse também.
Um imenso assombro, maior do que o que passei nos últimos dias na casa, tomou conta de mim. Ao olhar para o corpo descoberto e sujo deitado no chão, vi a mesma imagem que via todos os dias no espelho. Já não sabia mais se estava de pé vendo meu corpo, sujo de terra, no chão, ou se estava no chão, suja de terra, olhando meu corpo de pé em minha frente. Uma confusão tomou conta de minha mente e quando ouvi meu primo citar meu nome para o corpo, o choque foi ainda maior. Na tentativa de me afastar visualmente do que tinha em minha frente, fechei os olhos. E nunca mais os consegui abrir.