"Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!"
A cidade em que moro costuma ter um período muito forte de chuvas entre fevereiro e março. Ainda é verão nessa época aqui, e minha cidade tem o formato de uma bacia: a cidade fica em um buraco e os morros ficam em volta dela, o que torna o clima mais quente, fortalecendo a chuva tempestuosa. Às vezes chove tanto que dá até para usar casaco em pleno verão.
Minha avó sempre foi aquele tipo de pessoa que gosta de tomar chá caseiro. Ela tinha as próprias ervas no quintal. Nesses períodos em que chovia, ela aproveitava para fazer um chazinho quente antes de dormir. Lembro-me bem dos momentos em que passava com ela. A casa de madeira, o fogão a lenha sempre usado no inverno, o chazinho para tomar enrolada na coberta enquanto assistia à novela...
Em um desses períodos chuvosos do ano, a tempestade que caía do lado de fora da casa estava forte e cada trovão estremecia todas as madeiras da casa. Minha vó já estava acostumada, e sua casa também. Não tinha o que temer quanto a isso. Assim, ela pegou as ervas que tinha colhido mais cedo para preparar o famoso chazinho da noite. Sentou-se no sofá para assistir à novela enquanto a água não fervia. Não tinha esquentado lugar ainda quando bateram à sua porta.
Uma moça, encharcada da chuva, implorava ajuda. Prontamente, minha avó pediu que ela entrasse. A estranha explicou que seu carro havia estragado. Sem ter como parar embaixo da chuva para concertá-lo, decidiu correr até a casa mais próxima para pedir ajuda, chegando até a cada de minha avó. Ela pediu, então, para usar o telefone, a fim de pedir ajuda. Infelizmente, minha vó precisou explicar que o telefone estava “fora” naquele momento, o que era muito comum em dias como aquele, por ser uma região pequena também. No entanto, se quisesse, ela poderia pousar ali. Minha avó pediu que a moça entrasse no banho, levou toalha e roupas quentinhas. Enquanto isso, o chá ferveu. Preparou duas canecas. Beberam o chá juntas, assistiram à novela, conversaram e tiveram, ali, um momento estranhamente confortável, como se fossem velhas amigas, apesar da aparente diferença de idade.
Mais tarde, minha avó preparou o quarto de visitas e acomodou sua querida hóspede. Deitaram-se e dormiram tranquilamente. Nem perceberam que o gás do fogão, utilizado quando o fogão a lenha fica parado, havia ficado ligado, assim como a boca do fogão que acomodava o chá que beberam mais cedo. No meio da noite, enquanto a tempestade ainda corria livre no céu, um raio fugiu de sua rota comum, descendo até a cozinha de minha avó. A combinação entre o raio e o gás foi uma perfeita ligação química para o caos. Do ponto de vista da natureza, um verdadeiro espetáculo musical e visual. Do ponto de vista humano, uma tragédia.
A casa pegou fogo instantaneamente. Por conta do horário e do distanciamento das casas da região, o socorro demorou a aparecer. Quando os bombeiros chegaram, havia mais fogo do que casa. Tudo havia sido destruído. Como os quartos ficavam no segundo piso, conseguiram recuperar, ainda que sem vida, o corpo de minha avó. A respeito de sua querida visita, não havia nem corpo, nem caneca, nem roupas extras e muito menos qualquer carro nas proximidades.