AQUILO QUE ACONTECE QUANDO VOCÊ PENSA AO INVÉS DE SENTIR
Nunca entendi muito bem como o amor funciona. Quando era mais jovem, lá pelos meus 12, 13 anos, eu gostei de alguém. Veja, naquela época, por volta de 1960, na região em que eu vivia e com o tipo de família que tinha, as meninas eram meninas por muito tempo. Não se falava em adolescência. Você era menina, brincava de bonecas, corria pelos potreiros, subia em árvores... e a fase após isso era o namoro com vistas ao casamento. Não existia esses namoros rápidos como existem hoje, que você sai com uma pessoa, faz tudo o que quer, e pode nem cumprimentar no dia seguinte. Na minha época, até para andar de mãos dadas precisava ser algo sério. Se algum menino pegasse em nossa mão, morríamos de vergonha. Um beijo então... nem pensar!
Como em nossa época, família e região não existia esse tipo de maldade, era comum irmos às domingueiras nos domingos, obviamente. As domingueiras eram festas de dança em casal que começavam durante a tarde e terminavam quando o sol se punha. Como não tínhamos energia elétrica, a noite e período de estar em casa era de acordo com o pôr do sol. Minhas irmãs e eu sempre íamos e voltávamos com nosso pai, que, normalmente, tocava gaita nessas festas. Nem sempre queríamos ir, mas éramos obrigadas, pois recebíamos convite e sua recusa, segundo meu pai, seria muita grosseria.
Nunca tínhamos par fixo. Éramos todas solteiras e dançávamos cada música com um par diferente, o que também não era regra. No entanto, quando Osvaldo me tirava para dançar, ficávamos a tarde inteira juntos e tudo ao meu redor desaparecia. Só existia ele e eu. Parece clichê falando desse jeito, mas, veja, eu era uma jovem saindo da infância, descobrindo o amor. É claro que tudo seria mais dramático dentro da minha mente. Até mesmo o simples fato de pensar nele me fazia querer chorar.
Tudo se tornava mais dramático porque nunca falávamos quando gostávamos de alguém. Essa informação ficava somente conosco. E, então, um dia, talvez pela dificuldade em esconder meus olhos emocionados, uma de minhas irmãs contou para nossa mãe que eu gostava de Osvaldo. Neguei o quanto puderam ouvir. Chorei de vergonha. Preferia negar até acreditarem, do que permitir que a informação se espalhasse até chegar nele. Não faz sentido, mas é como era.
A pior parte de tudo era que minha família vivia se mudando. Vivemos em muitos lugares pela região. Se for colocar no mapa hoje, você vai perceber que as cidades não eram tão distantes assim, mas naquela época, em que não tínhamos carros, em que ônibus passavam uma vez por mês, em que não conseguíamos manter contato com as pessoa sem ser pessoalmente, até a casa do vizinho se tornava distante demais.
Foi então que, mais uma vez, nos mudamos. Nunca cheguei a falar sobre meus sentimentos com Osvaldo, é claro. Nunca firmei nem algum tipo de “amizade” em que pudesse pedir para me despedir dele. Nós simplesmente partimos. Tínhamos que estar onde tínhamos roça para trabalhar.
Nós vivemos alguns anos nessa nova cidade da qual o nome não é detalhe importante para minha história. O detalhe importante é que nós voltamos para a cidade anterior, a cidade em que Osvaldo morava. Acabei descobrindo que ele continuava morando lá, mas que agora já tinha mulher e filho. Não era para ser.
Anos mais tarde tive alguns namorados. Não como hoje em dia. Eles apenas me acompanhavam na volta da missa. Caminhávamos, sem dar as mãos, conversando, apenas. Minhas irmãs já tinham parceiros mais sérios, já andavam de mãos dadas, mas ainda tinha um ar de errado ao fazer isso. As mulheres costumavam casar-se cedo. A moça que passasse dos vinte anos solteira, não era mais chamada pelo nome, ou pelo nome + o nome do pai (a Dora do Sr. Leonardo, no meu caso). Quando passava dos vinte solteira, passava a ser chamada de “solteirona” (a Solteirona do Sr. Leonardo). E eu passei dos vinte.
Eu não estava no grupo das moças feias da cidade, pelo contrário, tinham moços que brigavam por mim. “A dona Benta tem oito filhas mulheres, por que vocês brigam justamente pela Dora?”, as mães deles perguntavam. Eles alegavam que era porque eu era a que mais sorria. De fato, sempre fui do tipo que ri de tudo. Mas, em todo caso, nunca fui do tipo que dava importância para os homens. Eu queria me casar (ou era imposta a querer isso), era a realidade que conhecia. A gente crescia, namorava, casava e formava família. Hoje vejo que se fosse jovem, teria feito tudo diferente, teria apostado em mim, teria estudado, trabalhado... Mas essa não era a realidade que eu conhecia.
Com vinte e um anos, um moço, de uma família que já conhecíamos, começou a cismar em mim. Meus pais não gostavam dele. Eu também não gostava tanto assim, mas sempre fui muito bondosa e simpática com todos, então não o reprimia. Adão ficou órfão de mãe quando criança e de pai aos quatorze anos. O pai de Adão tinha fama de ser uma pessoa muito ruim. Diziam que a mãe foi levada por Deus de tanto pedir por isso. Sempre que tinha uma filha mulher, orava para que Deus levasse embora, pois saberia que seriam maltratadas pelo pai. Coincidência ou não, nenhuma se criou. Se foi obra de Deus ou da própria mãe, não há como saber. Depois de um tempo, a mulher adoeceu e, de tanto pedir, partiu também. Quando o pai morreu, Adão passou a viver com os tios, que afirmavam que ele era igual ao pai. Eu sempre preferi acreditar na bondade das pessoas, então nunca levei isso de uma forma muito séria. No entanto, sempre deixei claro para Adão que não me casaria com ele, que continuava me perseguindo até cansar e me ameaçar dizendo que se eu não me casasse com ele, eu não me casaria com mais ninguém.
É claro que as coisas não foram simples assim, mas não pretendo lhe fazer muitos rodeios. O caso é que fui ameaçava e manipulada a fugir com ele por um bom tempo. E então eu fugi. Ao invés de namorar em casa, noivar e me casar (coisas que meus pais não permitiriam que eu fizesse com Adão, por conhecerem a família), arrumei algumas roupas em uma sacola de pano e fugi de casa durante a noite. Adão já tinha uma casa, para onde fomos. Nos casamos no civil. E foi aí que meu inferno teve início.
Adão não conversava. Era um homem calado, vivia no quarto ou no quintal sozinho, em silêncio. Todas as minhas tentativas de proximidade eram em vão. Com o tempo, fui me acostumando a isso. Meus pais não falaram comigo por um tempo, então me sentia meio solitária. No entanto, como sempre fui uma pessoa super otimista, busquei seguir a vida. Trabalhava, pagava as contas, inicialmente em conjunto, depois sozinha. Adão deixou até as despesas nas minhas costas. Um dia, senti necessidade de cogitar o motivo disso. Ele claramente não gostava de mim, por que quis que eu fugisse com ele? Ao que ele, com a cara mais lavada do mundo, explicou. Obviamente não me amava, nem gostava de mim. Adão queria apenas me roubar de casa e me largar em seguida, para deixar minha família e uma de suas filhas mal faladas. Como eu era uma pessoa boa e que não tinha “boca pra nada”, ficou com pena e decidiu casar comigo. E foi isso. Com tantos moços se brigando por mim, eu fugi com o que casou comigo por pena. Como naquela época a separação também era uma vergonha e humilhação, essa era agora a minha cruz.
E eu vivi 34 anos com esse homem. Compramos um terreno, uma moto, tivemos três filhos homens (um morreu ainda bebê), três netas mulheres, não que o sexo seja detalhe importante, mas minhas irmãs gostam da coincidência. A neta mais velha foi criada por nós, o que inicialmente deixava Adão muito animado, pois sempre quis uma filha mulher. Com o tempo, se tornou distante com ela também. Foi só empolgação de momento, mas até que durou alguns anos. E nesses 34 anos, nunca vivi exatamente para mim. Vivia para pagar as contas da casa, vivi para criar os filhos, vivi para criar a neta. Continuei suportando toda a frieza e grosseria daquele homem. Na rua, todos achavam que ele fosse um sujeito bom e sério. Ninguém via ou ouvia as portas batendo, as garrafas quebrando, as traições, a forma que ele me tratava, como se eu não estivesse vivendo com ele dentro daquela casa...
Quando minha neta cresceu, as coisas foram mudando e senti certo apoio e conforto dentro de casa. Cuidei muito para que ela tivesse o que eu não tive: estudo. Nunca fui muito boa nas questões emocionais, sempre fui mais materialista, mas foi como aprendi a demonstrar amor. Oferecendo conforto e qualidade de vida, na medida do que me era possível, já que sempre fomos pobres.
Minha neta era a única que sabia o que acontecia dentro de casa e que às vezes também era tratada de forma semelhante a mim, com a diferença de que, quando começou a crescer e aprender a se defender, deixou de aceitar essas situações. Ela era a única que o respondia a altura. Eu sempre tentei a conversa não violenta como resposta para as ações violentas dele. O que, apesar de saber ser o certo, nunca funcionou. Minha neta se sentia injustiçada e respondia no mesmo tom. O que, a longo prazo, também não resolvia, mas amansava a fera na hora. Certamente ela aguentou menos que eu e foi embora na primeira oportunidade. Nessa época, já não dormíamos mais na mesma cama, vivíamos como separados, mas na mesma casa. A saída dela me fez sair também. Não poderia voltar a ficar sozinha naquela casa com aquele homem que passou a se tornar mais agressivo a cada dia que passava. Ele nunca encostou um dedo em mim, é claro, mas a violência que aconteceu dentro da minha mente deixou estragos que cirurgia nenhuma poderia consertar.
Quando minha neta foi embora, minhas irmãs já estavam com planos maiores para mim. Eu não tinha como me sustentar sozinha com meu salário-mínimo de aposentada. Então, uma semana ou duas depois, fui morar com um senhor que vivia na cidade vizinha. Já tínhamos nos visto antes, conversado e tido alguns encontros, é claro. Não consigo imaginar se Adão sentiu paz e alívio ou desespero e solidão ao chegar um dia em casa e perceber, pela ausência das minhas coisas que, assim como fugi de meus pais para viver com ele, também havia fugido dele para viver com outro homem.
Eu vivi dias incríveis com Antônio. Me perguntava por que nunca tinha vivido isso antes. Nós dançávamos no quintal, ele me trazia flores que apanhava na frente de casa, ele me ouvia, respondia, cantava comigo, jogávamos baralho... Eu não tinha obrigações com a casa, cuidava de mim, apenas de mim, íamos à missa juntos, andávamos de mãos dadas... Mas eu já tinha sido traumatizada e com o tempo minha empolgação passou. Eu não amava Antônio. Na verdade, normalmente, ele me irritava muito, não fechava a boca. Tinham dias que eu precisava mandar ele tomar banho, trocar a camisa, escovar os dentes... Ele cuidava de mim, é fato. Ele sempre me tratou com todo amor do mundo apesar de, com o tempo, eu passar a ser um poço de grosseria com ele. Me irritava com tudo, não conseguia dizer que o amava, pois eu não o amava mesmo e vivia me questionando sobre o motivo disso.
Minha neta, que depois de um tempo voltou a viver comigo, desta vez na nova casa, me dizia que eu agia com ele da mesma forma que Adão agia comigo. E que eu fazia isso porque era um choque, para mim, sair de uma casa em que falava sozinha e não tinha nenhuma atenção, para outra em que eu era ouvida e conversavam comigo. Dizia que eu não estava acostumada com isso e que estava vendo de forma negativa, mas que não era. Só era diferente. Também, sempre que reclamava de algo sobre Antônio, ela dizia que isso não era um problema de Antônio, mas dos homens de um modo geral. Que eu estava sendo dura e que se ele voltasse a fazer coisas fofas, como as que fazia no início, eu não conseguiria aceitar, pois havia me fechado para o romantismo.
Ela usava palavras rebuscadas e explicações científicas que meu cérebro nem sempre conseguia absorver. Então, como é de se imaginar, eu concordei com tudo, mas não absorvi nada. Ela poderia sim estar certa, 34 anos vivendo um inferno não iria embora em alguns meses. Eu tinha muito trauma acumulado. No entanto, nada me fez absorver tão rápido tudo isso como o dia em que Antônio morreu.
Antônio estava mal há algum tempo, com um cansaço. Um dia, ele acordou pior e chamamos seu filho para levá-lo ao hospital. A pandemia do Covid não permitia que idosos (como eu) entrassem acompanhando pacientes no hospital. Então eles foram e eu fiquei. Antônio ficou vinte dias internado, entre cirurgia do coração, tubos de respiração, momentos desacordado por conta do tubo, momentos acordado por tentativa de retirada do tubo... Até que seus órgãos começaram a parar de funcionar. Avisaram para esperarmos o pior. Eu estava desesperada, perdida, não sabia o que fazer, esperava um milagre de última hora. Ele sempre foi um homem tão forte, sempre foi óbvio que viveria mais do que eu. Não foi o que aconteceu.
O dia do velório foi um dos mais tristes da minha vida, se não o mais. Um homem forte saiu de nossa casa andando com as própria pernas em uma manhã e vinte dias depois seu corpo voltou sem vida. Parecia que estava dormindo. Parecia tranquilo. Passava a sensação de que estava prestes a rir da nossa cara. Se olhasse por muito tempo, quase dava para ver o sorriso se formando. Mas ele não sorriu, não riu da nossa cara, nem acordou. Em casa, parecia que ele tinha ido na farmácia ou no mercado e que já já voltava. Na verdade, até hoje, dois anos depois, ainda é essa a impressão. De que ele foi ali e já volta, de que a qualquer momento vai passar pela porta com alguma fofoca nova sobre algum vizinho. Ele não vai. A única coisa que passa pela porta, acompanhado das lembranças, são a certeza de que eu o amava. Eu amei Antônio.