É UM TEXTO SOBRE AMOR
A gente ta sempre indo e vindo. Desde sempre parece que estamos espiralando no mesmo objetivo, seja um flutuar sutil ou uma queda livre, batendo em galhos e espinhos. Mas nós percorremos o caminho sempre a procura de sermos procurados, e enfim, encontrados. Já pensou como é engraçado que o alvo seja justamente o atirador? Mas é que olha, acho que a gente tem mesmo essa necessidade, de uma hora de repente pegar o trem certo, chegar no ponto, aportar o barco naquele cais lá. Acertar o pulo. A verdade é que tudo isso depende de um acaso que de subjetivo parece ter nada, porque parece ser uma conta matemática, tão exata que a verdade concreta, nua e crua, te faz alvenaria e quando vê, já ta construído, levantado, enraizado, fundado ao redor de outra verdade paralela, como se o vento que veio ali do sudoeste tivesse escancarado a janela e tudo tivesse se redescoberto com a ventania. E quando eu digo que isso é um texto sobre amor, é porque ventou muito hoje. E ontem também... para ser bem exata, tem ventado bastante já faz um mês. Em algum momento, quando eu nem estava cronometrando, nem ensaiando, nem preparando nada para exercer meu controle viciado de todo santo dia, foi quando eu, sem querer, embarquei e cheguei e aportei e pulei, e vi, com esses olhos meio perdidos, acizentados, que acizentavam tudo ao redor, notaram as cores outra vez. Tinha um pouco do azul do mar no meio, o sol da manhã acima e o acobreado do sol se pondo abaixo, tipo como se fosse um recado de que do nascente ao poente eu descobriria que maior que o infinito daquele mar, seria o tamanho do amor que veio naquela velha ventania. Espiralando num objetivo que zombou da minha consciência, mal prevendo que a minha única espiral era o próprio olho do furacão, que tinha braços, dedos, pernas, um jeito doce de olhar, um sorriso contido e uma mente sonhadora, poética, movida à nicotina e cafeína, que me abraçou, me protegeu e rodeou, uma centrífuga de toda energia negativa. E agora eu penso, enquanto escrevo, o quanto a predestinação é a única conta que nós, eu e tu, conseguimos aprender a gostar, por sua exatidão não só “espiritual”, mas correspondente à tudo aquilo que precisamos. Pois há uma beleza certeira em cada sopro, em cada fio de cabelo esvoaçado, cada arrepio causado e cada reviravolta, que revira e volta sorrateiramente das bordas até o fundo do meu eu. Essa beleza grande, de quase 1,90, que tem caráter suave, singelo, sincero e tímido. Beleza que me faz grata, intrínseco o meu agradecer, de tanto que agradas o ser, esse que eternamente acalantou e acertou em cheio, transforma em refém, me detém e vem. Deixo você entrar, eu te sinto bem-vindo, desde que tu pediu o meu nome pela primeira vez, eu já queria dizer: me chame de tua.
- aqueles 31 dias.













