À esquerda Joseph Marie Roche (botânico), ao centro Anantole Henry Coudreau (professor), à direita Clément Demont (navegador). Três exploradores franceses posando no estúdio Felipe Augusto Fidanza, possivelmente situado à r. Santo Antônio na época dessa foto, entre 1883 e 1885.
Como membro da Sociedade de Geografia Francesa, Coudreau viajou sucessivamente à região amazônica do Brasil e das Guianas entre 1881 e 1885. Nomeado professor de História e Geografia no Collège de Caiena, recebe em 1883 a primeira missão oficial para explorar e descrever as guianas, o que incluía também o norte do Brasil.
Coudreau milita pela exploração econômica da Amazônia, mas não recebe a atenção esperada da parte do governo francês, o qual acaba por não financiar mais suas viagens, por suas viagens terem ganhado um contorno político. Mais tarde, será o governo do Estado do Pará que bancará suas expedições de reconhecimento aos principais rios paraenses: Tapajós, Trombetas, Xingu, Iriri. Um dos palanques de Coudreau para o convencimento da exploração amazônica era a Sociedade Geográfica francesa.
A palestra pronunciada por Coudreau em 22 de maio de 1885 foi resumida dessa maneira no Comptes rendus des séances de la Société de géographie et de la Commission centrale: "as quatro últimas [viagens] (maio de 1883 a abril de 1885) foram financiadas por iniciativa do Sr. Chessé, governador da Guiana Francesa. O Sr. Coudreau estudou primeiro o Counani, depois o Mapa, na região costeira contestada entre a França e o Brasil. Em seguida, dirigiu-se a Manaus para atravessar toda a Guiana central entre o Rio Negro e Caiena". A mesma palestra foi reapresentada no 19 de junho de 1885. Posteriormente, em novembro, fará uma apresentação sobre a contestação dos limites entre Brasil e Guiana Francesa.
Há um extenso texto sobre o tema da palestra, publicado no Bulletin de la Société de Géographie Commerciale de Paris sob o título "L'Amazonie". Ali se nota que o explorador vinha com o objetivo de levantar não somente informações a respeito da geografia física, mas sobre o potencial econômico do território:
"A Amazônia realiza hoje mais de duzentos milhões em comércio, e pode-se prever, dada a sua progressão, que antes do final do século ela poderá muito bem chegar ao bilhão (...) Não quero falar mal do Hoang-Ho nem do Yang-Tsé-Kiang, mas tenho mais confiança no São Lourenço, no Mississipi, no Rio da Prata e no Amazonas".
As preleções na Sociedade de Geografia são acompanhadas por projeções das fotos dos locais visitados pelos exploradores. As primeiras conferências ilustradas são feitas em 1875, usando-se um aparelho óptico para projetar as fotografias em vidro. O equipamento era operado por Jules Molteni e após sua morte por seu sobrinho Alfred Molteni, agora o projecionista da Sociedade de Geografia.
As conferências de Coudreau são ilustradas por diversas fotos (contam-se 91) da região das Guianas, incluindo Belém e Manaus. Há ao menos 30 fotos que retratam Belém. Essas imagens foram doadas por Coudreau à Sociedade de Geografia em diferentes datas durante o ano de 1885, como está manuscrito em todas elas.
"doado pelo Sr. A.H. Coudreau"
O acervo está acessível na Bibliothèque Nacionale de France e no site Wikimedia Commons. Não há uma indicação clara da autoria das fotos. No site da Biblioteca Francesa atribui-se, sem certeza, à Molteni, mas como visto se tratava apenas do projecionista da Sociedade Geográfica, sendo improvável que tenho participado das excursões pela Amazônia, sendo mais possível que tenha feito somente os arranjos necessários para as projeções. Tampouco há atribuição das fotos a Coudreau, Roche ou Demont.
Suspeita-se que as fotos, ao menos as tomadas em Belém, possam ser de Felipe Augusto Fidanza. Há dois indícios: as imagens feitas em estúdio e as paisagens (coincidentes) que são atribuídas a Fidanza.
Perfil feito no estúdio Fidanza
Existem duas fotos atribuídas a Fidanza que estão na coleção da biblioteca francesa: uma do próprio Coudreau sozinho e a imagem dos três exploradores. As fotos possuem o timbre do fotógrafo português na parte inferior do papel cartonado que emoldura as fotografias (FIDANZA - PARA). Assim, os franceses tomaram contato com o trabalho de Fidanza - que já fotografava no Pará há no mínimo quinze anos. Fidanza é o autor das imagens de vários álbuns fotográficos patrocinados pelo governo do Pará no final do século XIX.
Outro indicativo de que as fotos poderiam ter sido feitas por Fidanza são as imagens idênticas que há tempos circulam na internet e são atribuídas ao fotografo português. Algumas fotos são semelhantes, outras tomam o mesmo ponto de vista, mas foram feitas em momentos diferentes.
À esquerda está a imagem obtida pelo perfil Belém de Outrora e disponibilizada pelo Laboratório Virtual da FAU-UFPA. À direita está a imagem disponível na Biblioteca Nacional Francesa. A foto foi feita na esquina da tv. Campos Sales com a r. 13 de maio. O Arquivo Público é chamado de Banque Commerciale no acervo francês. As fotos são absolutamente coincidentes ao se comparar a sombra do poste na esquina.
Ainda no bairro da Campina há as fotos feitas na confluência da r. João Alfredo com a av. Portugal. O ponto de vista é exatamente o mesmo, mas notam-se diferenças na pintura da empena do prédio à direita em primeiro plano (CENTRO COMMERCIAL). Na foto de baixo, com a empena totalmente tomada por um letreiro, ao fundo da cena, percebe-se que foi construído um sobrado, evidenciando que há um espaço temporal de meses ou anos entre essas fotos.
Vistas da r. João Alfredo tomadas em períodos diferentes
É preciso mais pesquisas para se comprovar que as fotos de Belém são de autoria de Fidanza, aqui estão apenas indícios. Teriam os franceses comprado fotos do acervo do fotógrafo? A data de 1885 que consta no material talvez não seja a data de todas as fotos, somente quando foram doadas para a Sociedade de Geografia. Assim, as fotos no interior do Estado do Pará e Amazonas que fazem parte do acervo podem ter sido tomadas por outro fotógrafos e em outros anos.
Essas fotos foram vistas primeiramente no perfil de Amadeus Hermes, sem muitas informações. Após uma intensa busca em acervos digitais foi encontrada a fonte das imagens. Das 91 fotos do acervo separamos 4 conjuntos que retratam Belém:
1º Conjunto de fotos: Campina Cidade Velha
2º Conjunto de fotos: São Bráz-Utinga
3º Conjunto de fotos: Umarizal-Nazaré-Batista Campos
4º Conjunto de fotos: Sacramenta-Una