Onde moro, corre livre a lascívia entre os homens e mulheres de carnes fartas. Em segredo ou não, dedicam grande lavoura a este pecado, embarcando em viagens de delírios, de prazer. Há uma certa vergonha no ar. Um recato impróprio às práticas diárias e reiteradas. Na rua cumprimentam-se com cerimônia, por vezes de uma forma tão cómica que é constrangedora, como amantes que se querem esquecer que o foram, mas ainda se desejam. É algo que sem dúvida alguma é estranho de assistir, pelo menos para mim, que com eles partilho esta vontade de viver. Para mim a única forma conhecida de adiar o momento da morte e as suas devastas consequências, como se a prática constante das volúpias do amor carnal alterassem a forma com que o tempo nos é descontado. Atrasando cada segundo, transformando-o num eterno momento de pura tranquilidade. Uma tranquilidade que surge na entrega dos corpos, veículos conduzidos com mestria e admiração, criando por vezes uma conexão entre aqueles que a partilham. Esta conexão que se deseja duradoira irrompe como que por forças orgásmicas no interior de cada um de formas diferentes. E assim se realizam os primeiros casais, à falta de melhor linguagem. Só aqueles que ousam a aventura da viagem por um mundo que é nosso, assustadoramente grande, cheio de vidas e convenções é que se cruzam com os despropósitos do Amor, coisa desconhecida na minha terra. Coisa terrível que dilacera jovens e velhos, coisa que afasta mais do que une, coisa que origina guerras e horrores… Coisa que preenche a Vida de significado, coisa que trazem com eles para todo o sempre. A esses, tristes viajantes, acolhemos com amizade e cuidamos como se de crianças se tratassem, pois os que regressam são conhecidos por Dilacerados. Caminham pelas ruas e vielas de olhos vazios, corpos amarfalhados pelas roupas descuidadas, costas vergadas pelas maleitas do Amor. #love #darklove #story #vilage #couraiso (em Estrada Nacional N2) https://www.instagram.com/p/ChotpzdjKSP/?igshid=NGJjMDIxMWI=












