A energia Kaira Zuex nasceu de uma necessidade minha de criar um universo novo e à parte de tudo que eu já havia vivido em meus cinquenta anos no planeta. Após minha transição de gênero, senti-me escrevendo uma nova história que, por mais que desse continuidade a toda uma saga de transformações e evoluções, também clamava por um espaço puro e imaculado, capaz de receber — sem prismas interpretativos condicionados por experiências anteriores — sua própria expressão artística.
Respeitei meu fluxo criativo e, ao mesmo tempo em que aprendi a compor e gravar tudo sozinha, produzi dois álbuns que concluíram as narrativas das sagas que registrei tanto na cena hardcore punk quanto no deathrock. Ao passo que essas histórias — das quais me orgulho profundamente — foram contempladas com minha total dedicação e o merecido respeito, senti enfim a leveza da entrega e o nascer de um novo impulso criativo, que, até então, eu não sabia aonde iria me levar, mas permiti fluir livremente.
Numa certa tarde, fiz um beat no djembê e gravei. Deixei em loop e criei um baixo contínuo. Sobre isso, construí a primeira linha de voz, mas senti que ainda não era aquilo. Então, retirei as partes que me soavam desconexas e, a partir da melodia vocal que permaneceu, criei uma flauta. Montei um loop de quatro minutos e deixei tocando em repetição enquanto cuidava do meu jardim, me conectava com a terra, com as plantas, com a energia da ilha isolada no seio da Mata Atlântica, para onde eu havia me mudado já há alguns anos.
Em meu universo, todo processo de criação é meditativo. Enquanto escutava aquela primeira composição, minha mente viajou por diversos momentos e passagens da minha vida — principalmente experiências relativas à identidade de gênero, porque era o que eu mais trabalhava internamente na época. A libertação, para mim, foi uma alegria há muito aguardada e guardada em silêncio. E lembrei que, aos olhares externos, não foram poucas as vezes em que o clamor do meu coração foi apontado, numa tentativa de silenciamento, como loucura.
Então, assumindo que a loucura aos olhos do mundo era, na verdade, minha libertação, me veio à mente: para eles devo ser mesmo um caboclo louco… então que seja! E, como a palavra caboclo carregava uma conotação masculina, completei com uma contraposição poética e passei a cantarolar: “Sou um caboclo louco, uma mulher de verdade!” Foi nesse instante — que lembro e guardo como tesouro — que senti, pela primeira vez, a energia do universo de Kaira Zuex.
Lembro que, na época, eu estava completando os estágios para a formação em monitoria ambiental e caminhava pela orla da Ilha do Cardoso. Era um silêncio absurdamente musical, que trazia melodias tanto do oceano quanto da mata. Ali, recordando a base, cantarolei uma nova melodia de voz — pela primeira vez me aventurando no espanhol — que se tornaria toda a poesia que deu luz àquela música, e que fiz questão de registrar no primeiro EP desse universo tão íntimo e especial da minha experiência terrena.
O processo foi longo e teve muitas fases. Foi uma jornada de transformação e desapego, porque enfrentei a dificuldade de dissolver sinapses solidificadas em conceitos de gêneros musicais, em “tem a ver” e “não tem a ver”, e todas essas coisas tolas que tomamos por verdades e que só aprisionam o coração. Conheci e estudei muitas coisas nesse período, e até achei que havia encontrado um caminho na cumbia — criei uma persona — mas logo percebi que o clamor dessa energia era por algo muito além disso.
Então, voltei ao ponto onde tudo era menos nomeável, soltei os controles e simplesmente deixei fluir. Assim, vencendo minha própria teimosia e meus apegos, reservei-me à condição de mera observadora do fluxo criativo e pude compreender que Kaira Zuex é algo além de uma energia ou de um universo criativo paralelo: é uma condição dimensional da minha própria existência. E, livre do medo oriundo da interpretação humana, aprendi a experienciá-la sem julgar, apenas aceitando-a como parte de mim.
Sendo assim, registro aqui, com o EP “Six Soul Hits”, os primeiros marcos dessa supernova. Sua existência compartilhada é a minha satisfação. Faço questão de que tudo nesse universo flua sem marketings, sem estratégias de lançamento e sem grandes planejamentos. Kaira Zuex é uma energia, então, se for para chegar a algum lugar além de seu aeon primordial, que atraia naturalmente energias equivalentes ou, simplesmente, que seja bela sendo o amor que nasceu para irradiar.







