Kaira Zuex #kairazuex Raising
d e v o n
Keni

blake kathryn
almost home
taylor price
Game of Thrones Daily
No title available
Mike Driver
One Nice Bug Per Day

#extradirty

shark vs the universe
macklin celebrini has autism
Noah Kahan
$LAYYYTER
The Stonewall Inn
official daine visual archive

Kiana Khansmith
2025 on Tumblr: Trends That Defined the Year

pixel skylines
No title available

seen from Malaysia

seen from Italy
seen from Pakistan
seen from United States
seen from Sweden

seen from Italy
seen from United States
seen from United States

seen from United States
seen from Thailand
seen from United States

seen from Vietnam

seen from Australia

seen from Mexico
seen from United States
seen from United States

seen from United States

seen from United States

seen from Singapore
seen from United States
@kairazuex
Kaira Zuex #kairazuex Raising
Fragmentos de uma Gnose Selvagem: Textos para o Primeiro Canto de Kaira Zuex - Capítulo 6
OUÇA NO BANDCAMP
A Aurora Interior
I think about it — maybe I will
bring this scene its final touch.
I am the certainty of the world I draw,
painted with a single thought.
I'm moving slowly over
the veil that covers time,
and I find no reason to forgive or forget,
’cause I'm alive beyond the sight of fear and regret.
So I ended up here,
searching for the one who owns the voice inside my head —
the voice behind my deepest thoughts,
the real one I am.
I run across the fields,
waking up the dead
and bringing forth the new vision
that frees the mind from the head.
I recognize the early song
rising from the depth of soul —
the sight behind the taste,
blooming fields of asking points.
The early point of questions and impressions marks the spot
where my mind steps back directions
to the teller of its voice.
My deepest voice is higher
than everything — and will
erase the confusion of thoughts
and the chains that still
say I'm not ready,
ready to rise and go.
My deepest voice speaks flowers
and colors the new eon.
I am the love season rising in the rain,
I am the love that heals, the shining morning flame.
’cause I am the loving soul, the loving moon
that keeps me calm and awake
while I’m sleeping and
reconnecting me to what I truly am.
If the sight among the stars
sounds like a whispering bell,
who am I not to fulfill
the coloring pages? Hell
only exists for those who believe.
I'm above reality.
I'm real and unreal. I'm the flying bee,
and each star is my pollen. I rise
like the morning charming flower,
like the blink of an eye.
The universe responds to the song
that my heart vibrates
and calls every soul
to the new world order chorus line:
“My lover, my lover,
my sweet self and lover,
my gorgeous infinity, my wonderful self and lover.
My lover, my lover,
my precious self and thrill,
delighting myself, feeling every part of the hue.”
Oh my goth! I've got newer wings,
like a bat flying to the moon!
I shine like a gem, so bright —
the diamond of a rebel soul.
I’m going slowly over
the world, roaring like the lion in the canyon,
waking the fields —
for a new dawn is born
and love will finally command.
☆☆☆
Penso nisso — talvez eu vá
dar o toque final a esta cena.
Sou a certeza do mundo que desenho,
pintado com um único pensamento.
Avanço lentamente
sobre o véu que cobre o tempo,
e não encontro razão para perdoar ou esquecer,
pois estou viva além da visão do medo e do arrependimento.
Acabei chegando aqui,
buscando quem é a dona da voz dentro da minha cabeça —
a voz por trás dos meus pensamentos mais profundos,
a verdadeira que eu sou.
Corro pelos campos,
acordando os mortos
e trazendo à tona a nova visão
que liberta a mente da cabeça.
Reconheço a canção inicial
que surge das profundezas da alma —
a visão por trás do gosto,
campos floridos de perguntas.
O ponto inicial de questões e impressões marca o lugar
onde minha mente recua,
cedendo direção
àquela que conta sua voz.
Minha voz mais profunda é mais alta
que tudo — e vai
apagar a confusão dos pensamentos
e as correntes que ainda
dizem que não estou pronta,
pronta para levantar e ir.
Minha voz mais profunda fala flores
e colore o novo aeon.
Sou a estação do amor que nasce na chuva,
sou o amor que cura, a chama brilhante da manhã.
Pois sou a alma amorosa, a lua amorosa
que me mantém calma e desperta
enquanto durmo
e me reconecta ao que realmente sou.
Se a visão entre as estrelas
soa como um sino sussurrante,
quem sou eu para não preencher
as páginas coloridas? O inferno
existe só para quem acredita.
Estou acima da realidade.
Sou real e irreal. Sou a abelha voadora,
e cada estrela é meu pólen. Levanto
como a flor encantadora da manhã,
como o piscar de um olho.
O universo responde à canção
que meu coração vibra
e chama cada alma
para o coro da nova ordem mundial:
“Meu amor, meu amor,
meu doce eu e amante,
minha linda infinidade, meu maravilhoso eu e amante.
Meu amor, meu amor,
meu precioso eu e emoção,
encantando a mim mesma, sentindo cada matiz.”
Oh my goth! Tenho novas asas,
como um morcego voando para a lua!
Brilho como uma gema, tão forte —
o diamante de uma alma rebelde.
Avanço lentamente
sobre o mundo, rugindo como o leão no cânion,
acordando os campos —
pois uma nova aurora nasce,
e o amor finalmente vai comandar.
Soulshine não nasceu como música, mas como travessia.
Ao compô-la, percebi que não estava apenas criando notas —
estava atravessando um território interior inexplorado.
A canção exigia mais que técnica:
exigia que eu habitasse plenamente minha presença.
Que atravessasse camadas de tempo, memória e silêncio.
Que me reconhecesse como autora do mundo que crio a cada instante.
Ela não fala do mundo lá fora.
Fala do mundo que carregamos dentro.
Cada verso é mapa do que sou —
e do que todos podem ser ao se libertarem da mente que julga, controla, limita.
A “voz interior” não é só minha.
É eco primordial de todas as almas que ousam buscar, perguntar, transcender.
É aquela que sussurra: você não está pronto? Talvez. Mas o preparo é irrelevante quando se decide viver.
Enquanto escrevia, percorri campos invisíveis.
Despertei o que estava dormente — em mim e no mundo que minhas palavras tocam.
O despertar não é linear.
Acontece entre o pensamento e a ação,
no movimento do corpo,
no silêncio da respiração,
no toque da chuva.
A filosofia de Soulshine é uma ética do ser:
existir plenamente não é cumprir regras —
é honrar a totalidade do que somos:
amor, erro, potência, dor, alegria.
O “eu amante” da letra não é egoísmo —
é consciência do próprio valor.
Cada flor, cada estrela, cada instante de clareza
é prova de que o mundo responde quando nos permitimos existir sem concessões.
Ao cantar “sou a alma que ama, a lua que ama”,
declaro que não há separação entre sentir e agir.
Quando me permito estar inteira,
o universo inteiro se torna colaborador da criação.
A linha entre realidade e imaginação se dissolve.
O ordinário e o extraordinário se fundem.
Soulshine é também um manifesto de responsabilidade.
Cada gesto consciente escreve a própria história.
Não se trata de fugir ou impor —
mas de assumir a autoria da vida.
O amor por si mesmo é força transformadora do espaço que habitamos.
A música, aqui, é ritual.
É filosofia.
É mapa para quem quer transcender medo, dúvida, fragmentação.
Ao reler a letra hoje, vejo tudo alinhado à manifestação plena da energia vital.
Percorro o mundo lentamente —
mas com potência crescente.
Cada batida do coração,
cada respiração,
é catalisador de beleza onde antes havia repetição.
Sou real e irreal.
Presente e invisível.
Limitada e infinita.
É nesse paradoxo que descubro a essência de habitar o próprio ser.
Soulshine é, enfim, reconhecimento radical:
reconhecer-se inteira.
Aceitar a vibração que nos atravessa.
Criar ponte entre matéria e intuição,
corpo e espírito,
tempo e instante.
E perceber, no fim,
que a revolução não está lá fora.
Está na música que o coração toca.
No brilho que emana da alma.
Na liberdade que nos tornamos capazes de viver.
I am the love season rising in the rain,
I am the love that heals, the shining morning flame.
🌒🗝 🌘
Estas e suas dezesseis irmãs estarão no álbum completo, que lançarei no próximo Samhain (hemisfério sul). Se você se conectou a elas na roupagem do EP, aguarde para encontrá-las integradas ao desenho completo da poesia do álbum. ✨✨✨
Nos vemos lá!
Fragmentos de uma Gnose Selvagem: Textos para o Primeiro Canto de Kaira Zuex - Capítulo 5
OUÇA NO BANDCAMP
A Técnica da Vida
La cabeza conoce su morada,
sabe bien lo que la vuelve pesada.
Cuando el peso la derriba,
se pone firme y se anima.
Si el miedo atormenta mi mente,
solo me muestra lo que aún teme.
Por eso, me quedo siempre conmigo,
y soy yo misma mi mejor abrigo.
Pienso así: si todo acá va mal,
simplemente cambio de canal.
No compensa vivir escondida,
siempre temiendo el peligro.
Aprendí que si me dejo de lado,
construyo el peor pasado,
y que el miedo no me deja vivir
lo mejor que puedo decidir.
Te llamé a bailar sin miedo,
la noche será nuestro juego.
Ahora ven, ahora va, seguimos,
hasta que el sol despierte contigo.
Solo quiero verte bailar,
amar tu felicidad.
El tiempo es ilusión
y oculta la verdad.
Solo quiero verte bailar,
amar tu felicidad.
Darling, this will be a long,
long, long, long night.
Qué alegría vivir sin miedo,
Baby, it’s a long,
long, long, long night.
Qué alegría, libres del tiempo,
Baby, it’s a long,
long, long, long night.
Baby, turn me on,
life is a party.
Dance around the globe,
this is our riot.
Baby, turn me on,
life is a party,
and it’s a long,
long, long, long night.
Make your body move, darling,
we got nothing to hide.
Let’s celebrate, my darling,
you’re happy and alive!
Make your body move, darling,
our hearts are drums, we are lights.
Let’s celebrate, my darling,
we are sparks in the night.
Vision, quoi.
Vision, quoi.
Choc, toque bien, toque boom, llama tuya!
☆☆☆
A cabeça conhece sua morada,
sabe bem o que a torna pesada.
Quando o peso a derruba,
põe-se firme e se anima.
Se o medo atormenta minha mente,
só me mostra o que ainda teme.
Por isso, fico sempre comigo,
e sou eu mesma meu melhor abrigo.
Penso assim: se tudo aqui vai mal,
simplesmente mudo de canal.
Não compensa viver escondida,
sempre temendo o perigo.
Aprendi que, se me abandono,
construo o pior passado,
e que o medo não me deixa viver
o melhor que posso decidir.
Chamei você pra dançar sem medo,
a noite será nosso jogo.
Agora vem, agora vai, seguimos,
até o sol acordar com você.
Só quero te ver dançar,
amar sua felicidade.
O tempo é ilusão
e esconde a verdade.
Só quero te ver dançar,
amar sua felicidade.
Querida, esta será uma noite
longa, longa, longa, longa.
Que alegria viver sem medo,
Amor, é uma noite
longa, longa, longa, longa.
Que alegria, livres do tempo,
Amor, é uma noite
longa, longa, longa, longa.
Amor, me acenda,
a vida é uma festa.
Dança ao redor do globo,
esta é nossa rebelião.
Amor, me acenda,
a vida é uma festa,
e é uma noite
longa, longa, longa, longa.
Move teu corpo, amor,
não temos nada a esconder.
Vamos celebrar, meu amor,
você está feliz e viva!
Move teu corpo, amor,
nossos corações são tambores, somos luzes.
Vamos celebrar, meu amor,
somos faíscas na noite.
Visão, né?
Visão, né?
Choque, toque bem, toque boom, a chama é tua!
Techné Tou Biou foi minha primeira incursão no trip hop —
mas não como gênero, e sim como território interno.
Em meu universo, o processo de composição é meditativo.
Enquanto componho, atravesso processos internos e aprendo muito sobre mim.
No processo dessa composição entendi: a cabeça conhece sua própria morada.
É nela que pesos, alegrias e memórias se equilibram.
E quando o mundo ameaça nos derrubar,
é exatamente aí que a força de existir se manifesta.
O abrigo mais seguro não é externo —
é a própria presença de si mesma.
Permanecer inteira frente ao caos é já um ato revolucionário.
A letra fala da coragem de não abandonar a si.
Porque abandonar o eu é abandonar a vida. Max Stirner sabia.
Cada gesto — dançar, mover, celebrar — é manifesto:
a vida não se aprisiona.
A “noite longa” não é fuga.
É duração da liberdade.
É o tempo em que se é inteira, radicalmente viva.
Esta canção é eco de uma filosofia que atravessa minha trajetória:
a liberdade de sentir, existir e transformar o mundo a partir do próprio pulso.
O coração não bate para a imposição —
bate para o que pulsa dentro.
O corpo não é prisão —
é veículo da energia vital.
Dançar aqui não é só movimento.
É deslocamento interior.
Ruptura com hábitos que nos tornam invisíveis diante de nós.
Techné Tou Biou é sobre assumir a própria potência.
Reconhecer que a vida se faz no agora.
Que cada instante vivido com consciência é revolução.
O medo, quando confrontado, revela criação.
O tempo, como medida, é gregoriano e relativo.
O que importa é a intensidade do presente.
Mesmo num mundo de controle e obsolescência,
há espaço para liberdade indisciplinada.
A noite longa é expansão —
território onde nada aprisiona a verdade do que somos.
A energia Kaira Zuex se manifesta aqui não como nome,
mas como consciência viva:
existir sem medo,
assumir o próprio ritmo,
deixar a força interior conduzir.
No fim, esta canção me ensinou:
existir é celebrar a própria presença.
A liberdade não se pede.
Não se negocia.
Apenas se habita.
Fragmentos de uma Gnose Selvagem: Textos para o Primeiro Canto de Kaira Zuex - Capítulo 4
OUÇA NO BANDCAMP
Ikigai
It seems like all my days have led me here,
no matter how much I resist,
or how much my mind tries to escape with tricks.
I disintegrate
the shell of mist
and cry the haze out of my eyes.
I’m out of the siege.
It seems that all paths have converged
at this crossroads, and the wind
just whispers: now or never.
Our bygone days are now the home
of a past that dust burns and corrodes,
and that the swirling void
sucks into the black hole.
I am now the brilliance that the stars
have long awaited from me.
I’m now beyond and out of time.
So long...
Brighter than the radiant sun,
I am where it all began.
And with a kiss, I savor
every part of the whole.
Louder than the sound of the world,
my heart beats its song.
The revolution has come,
and nothing can stop it.
Higher than the
imbalance of an
obsolete world,
my liberated soul flies—
far beyond the poor
human sight
on gender and love.
The days you cling
to are gone.
Darling, beyond fear are days of love.
Allow yourself.
It’s a rebirth.
We can.
Darling, enough pain in our lives.
Allow yourself to transform.
It’s a rebirth.
We can.
Where love reigns,
there is no segregation.
There is life, not just survival.
Where love reigns,
there is no place for what divides.
Rise!
☆☆☆
Parece que todos os meus dias me trouxeram até aqui,
não importa o quanto eu resista,
ou o quanto minha mente tente escapar com truques.
Desintegro
a casca de névoa
e choro a bruma dos meus olhos.
Estou fora do cerco.
Parece que todos os caminhos convergiram
nesta encruzilhada, e o vento
só sussurra: *agora ou nunca*.
Nossos dias passados são agora a morada
de um passado que a poeira queima e corrói,
e que o vazio giratório
suga para o buraco negro.
Sou agora o brilho que as estrelas
há muito esperavam de mim.
Estou agora além e fora do tempo.
Até logo...
Mais brilhante que o sol radiante,
sou onde tudo começou.
E com um beijo, saboreio
cada parte do todo.
Mais alto que o som do mundo,
meu coração bate sua canção.
A revolução chegou,
e nada pode detê-la.
Mais alto que o
desequilíbrio de um
mundo obsoleto,
minha alma liberta voa —
muito além da pobre
visão humana
sobre gênero e amor.
Os dias aos quais você se apega
já se foram.
Querida, além do medo existem dias de amor.
Permita-se.
É um renascimento.
Nós podemos.
Querido, basta de dor nas nossas vidas.
Permita-se transformar.
É um renascimento.
Nós podemos.
Onde o amor reina,
não há segregação.
Há vida, não apenas sobrevivência.
Onde o amor reina,
não há espaço para o que divide.
Levante-se!
Ikigai fala do peso acumulado dos dias — cada um nos conduzindo, mesmo sem saber, a este exato ponto:
o encontro com nós mesmos.
É como se a vida dissesse: agora ou nunca.
“Desintegrar a casca de névoa” é o instante em que percebemos:
estamos fora do cerco.
As prisões invisíveis — feitas de medo, norma, obediência — se dissolvem.
E o que brilha por trás é a própria essência.
Todos os caminhos convergem.
Não por destino, mas por reconhecimento:
tudo que vivemos — dores, erros, escolhas — preparou o solo para esta revolução interior.
A luminosidade que carregamos é esperada pelo cosmos.
Brilhar mais que o sol é metáfora para deixar que o amor próprio se manifeste sem intermediários.
E “saborear cada parte do todo com um beijo” é viver o êxtase do agora —
sem esperar permissão.
A revolução aqui não é social. É íntima, radical, irrevogável.
Meu coração bate mais alto que o som do mundo.
Nada — nem gênero, nem regra de amor — pode deter essa expansão.
“Os dias que você se apega já se foram.”
É um chamado à urgência:
acordar!
Abandonar amarras de um mundo obsoleto.
Não substituir vida por sobrevivência.
Conecto-me aqui ao ikigai ancestral — não à versão adaptada dos coachs, mas ao sentido profundo da tradição japonesa:
viver alinhada ao próprio ser,
sem pressa, sem comparação,
com reverência à própria existência.
Esta canção é um manifesto:
além do medo existem os dias do amor.
Permitir-se transformar é renascer.
E o amor é o critério que dissolve a segregação.
Não há divisões que prevaleçam.
Só a força da liberdade,
do encontro consigo,
do encontro com o outro.
Ikigai é meu convite:
Rise!
Erga-se!
Assuma sua luz.
E saiba:
podemos.
Podemos amar.
Podemos transformar.
Podemos ser universos inteiros.
Fragmentos de uma Gnose Selvagem: Textos para o Primeiro Canto de Kaira Zuex - Capítulo 3
OUÇA NO BANDCAMP
Mulher de Verdade!
La cabeza hecha un lío
El mar me invita afuera
No lo puedo evitar
La cabeza-cadena va
Lejos, mirando el mar
Las policías dicen
Que no puedo bailar
El camino del mundo
Es la mediocridad
No soporto más
No soporto más
Soy Caboclo Loco,
Mujer de verdad,
Brisa pasajera
A orillas del mar.
Soy Caboclo Loco,
Soy Caboclo Loco.
Soy Caboclo Loco,
No lo puedo evitar.
Rabo de cometa,
No puedes atrapar.
Soy Caboclo Loco,
Soy Caboclo Loco.
Mi cabeza pesa,
'na beira do mar'.
'A cabeza tá cheia'
En otro lugar.
'É segunda-feira',
'É segunda-feia',
No puedo parar.
Cai en la marea,
Cai en la marea,
No puedo evitar,
Mi cuerpo está fuera,
No puedo evitar.
Pesan las cadenas,
No puedo bailar.
Soy Caboclo Loco,
Soy El Capiroto,
No lo puedo evitar.
Soy Caboclo Loco,
No lo puedo evitar,
Mi cuerpo está fuera,
Mi alma perdida,
Una perra roja.
'Na beira da beira
Da beira do mar'.
Yo vivo, respiro,
Siempre al transformar.
El pueblo condena,
No quiere aceptar.
Se crean las leyes
Para segregar,
Golpean a los míos,
Covardes demais!
Me llaman arena
Que pueden pisar,
Mas mi resistencia
Es vivir y amar.
Solo quiero ser libre,
En mi cuerpo mandar,
El Cristo de otros
No es mi papá.
Los hombres y gobiernos
Siempre están detrás,
En ojos de ellos
Soy el Satanás.
Bruja de la luna
Me quieren quemar,
Pero soy el fuego
De mi libertad.
Estrella danzante
A orillas del mar,
Y no hay revolución
Si no puedo bailar.
Soy Caboclo Loco,
No lo puedo evitar,
Brisa pasajera
A orillas del mar.
Soy Caboclo Loco,
Soy Caboclo Loco,
A orillas del mar.
Soy "Caboclo Loco",
La noche ya vendrá,
É segunda-feira,
Fuerza no fallará.
Soy la luna llena,
Soy la luna llena,
La verdad es la verdad,
Yo soy hembra,
Hembra.🏳️⚧️
Y no hay revolución
En que no pueda bailar,
No hay nadie
Que no me deje bailar.
☆☆☆
A cabeça feita um lío,
o mar me convida lá fora.
Não consigo evitar:
a cabeça-corrente vai
longe, olhando pro mar.
As polícias dizem
que eu não posso dançar.
O caminho do mundo
é a mediocridade.
Não aguento mais,
não aguento mais.
Sou Caboclo Loco,
mulher de verdade,
brisa passageira
à beira do mar.
Sou Caboclo Loco,
sou Caboclo Loco.
Sou Caboclo Loco,
não consigo evitar.
Rabo de cometa,
você não pode me pegar.
Sou Caboclo Loco,
sou Caboclo Loco.
Minha cabeça pesa,
“na beira do mar”.
“A cabeça tá cheia”
em outro lugar.
“É segunda-feira”,
“é segunda-feia”,
não consigo parar.
Caio na maré,
caio na maré,
não consigo evitar.
Meu corpo está fora,
não consigo evitar.
Pesam as correntes,
não consigo dançar.
Sou Caboclo Loco,
sou El Capiroto,
não consigo evitar.
Sou Caboclo Loco,
não consigo evitar.
Meu corpo está fora,
minha alma perdida,
uma cadela vermelha.
“Na beira da beira
da beira do mar”.
Eu vivo, respiro,
sempre transformando.
O povo condena,
não quer aceitar.
Criam leis
para segregar,
batem nos meus,
covardes demais!
Me chamam areia
que podem pisar,
mas minha resistência
é viver e amar.
Só quero ser livre,
mandar no meu corpo.
O Cristo dos outros
não é meu papai.
Homens e governos
sempre estão atrás.
Nos olhos deles,
sou o Satã.
Bruxa da lua
querem me queimar,
mas sou o fogo
da minha liberdade.
Estrela dançante
à beira do mar,
e não há revolução
se eu não puder dançar.
Sou Caboclo Loco,
não consigo evitar,
brisa passageira
à beira do mar.
Sou Caboclo Loco,
sou Caboclo Loco,
à beira do mar.
Sou “Caboclo Loco”,
a noite já vem aí,
é segunda-feira,
força não faltará.
Sou a lua cheia,
sou a lua cheia,
a verdade é a verdade,
eu sou fêmea,
fêmea.🏳️⚧️
E não há revolução
em que eu não possa dançar,
não há ninguém
que não me deixe dançar.
Caboclo Loco nasceu como um mapa do fluxo interior — um registro sonoro do que se sente ao atravessar limites, romper barreiras e simplesmente existir. Minha cabeça bagunçada, que me arrasta pro mar, é a mesma que insiste em quebrar correntes invisíveis — aquelas que o mundo amarra em quem ousa existir fora do molde.
“Soy Caboclo Loco, Mujer de verdad” não é declaração de identidade.
É manifesto de resistência.
A loucura que me apontaram como pecado sempre foi minha liberdade disfarçada.
A canção desafia as leis do medo — governos, instituições, olhares que querem corpos dóceis, domesticáveis.
Mas o corpo que dança, que ama, que escolhe — esse corpo é político por natureza.
Porque desafia, simplesmente por existir, todas as estruturas que tentam domesticar a vida.
O mar, na letra, não é cenário. É símbolo: fluxo, renovação, entrega.
Cair na maré e deixar o corpo flutuar é aprender que resistência não é só luta — é viver, amar, manifestar-se na totalidade.
Ser Caboclo Loco é aceitar que o mundo tentará classificar tudo o que fazemos.
Mas nada apaga o brilho de quem é inteiro.
A frase final — “Não há revolução em que eu não possa dançar” — adaptação da frase de Emma Goldman é, para mim, axioma existencial.
Qualquer transformação que não respeite o ritmo do corpo é incompleta.
Dançar é manifesto. Respirar é manifesto. Existir é manifesto.
Minha música não é só narrativa. É filosofia prática:
viver sem negar o movimento, sem silenciar a voz, sem domesticar o espírito.
Quando canto Caboclo Loco, afirmo que liberdade e identidade são inseparáveis.
Como a própria energia de Kaira Zuex, que não cabe em caixas, gêneros ou expectativas.
Ela é o sopro criativo que permite a cada um se reconhecer.
A revolução começa quando música, corpo e verdade se encontram —
e a dança se torna o único território onde nada nos domina.
Fragmentos de uma Gnose Selvagem: Textos para o Primeiro Canto de Kaira Zuex - Capítulo 2
OUÇA NO BANDCAMP
O Gongo do Coração
If you listen to me here,
Let flow the beat,
Don’t let your soul
Feed incomplete.
Have a deep breath
And join the beat.
Follow your heart
And take the streets.
You gotta run
This song
Till you reach yourself before
You turn into
Someone you no longer know.
This is your stage, and this is your show.
I’m gonna beat it, beat it,
Back tomorrow!
Not this time.
Wick de La Rut
Has gone for a walk.
His mind is pounding
Like a pinball ball.
There’s something in the air
Whispering, my friend.
There’s something in the moon
That invokes a change.
My friend is finally in his way home,
Finally reached the turning point.
Feels so light, so magnificent,
That everything else is insignificant.
I’m gonna beat it, beat it,
Back tomorrow!
Not this time.
Carol Yellow
Joined her fellow,
One day heroes singing Rebel Rebel.
Got so sick and tired of a lifetime bleeding,
Sent her job to hell and went for a living.
Every single day quiet and serving,
So far from what her heart still screams.
Yes madam, yes my boss,
Yes Satan, yes my cross.
A sparkle in gasoline,
And the girl got free.
I’m gonna beat it, beat it,
Back tomorrow!
Not this time.
— Oh "ma' gal”,
This town’s a fuckin’ hell!
A meat grinder where banks and cops and preachers eat us all.
— Oh my pal, l'm tired of feeling drowned.
Don’t know about you, but I’m going woods, far away from this town!
They’ve taken roads,
So much new life,
So many newer thoughts,
So many newer sights,
So many new ways
For living and being,
No fighting to survive.
Enough was the word
Which claimed solution.
Enough was the burst
For the revolution.
Willpower,
straight for the change,
can make the impossible a joke and
live dreams a rule.
I’m gonna beat it, beat it,
Back tomorrow!
Not this time.
So say, say, say
Where you wanna go,
Kiss the wind
And make it rock’n’roll.
So say, say, say,
What’s your heart’s gong,
Your own beat,
Your own song.
So say, say, say
That you know it’s true,
You don’t need this hell
Where they caged you.
It’s time for a change,
No more losses.
Life’s short to waste
Like sheep for bosses.
☆☆☆
Se você me ouvir aqui,
deixe fluir a batida,
não deixe sua alma
se alimentar de incompleto.
Respire fundo
e entre na batida.
Siga seu coração
e tome as ruas.
Você precisa correr
com esta canção
até se encontrar
antes de se transformar
em alguém que já não conhece.
Este é seu palco, e este é seu espetáculo.
Vou vencê-la, vencê-la,
volto amanhã!
Desta vez, não.
Wick de La Rut
saiu para caminhar.
Sua mente bate
como uma bolinha de fliperama.
Há algo no ar
sussurrando, meu amigo.
Há algo na lua
que invoca uma mudança.
Meu amigo finalmente está a caminho de casa,
finalmente alcançou o ponto de virada.
Sente-se tão leve, tão magnífico,
que todo o resto é insignificante.
Vou vencê-la, vencê-la,
volto amanhã!
Desta vez, não.
Carol Yellow
se juntou à seu companheiro,
one day Heroes cantando Rebel Rebel.
Cansou-se de uma vida sangrando,
mandou seu emprego pro inferno e foi viver.
Cada dia em silêncio, servindo,
tão longe do que seu coração ainda grita.
Sim, madame; sim, chefe;
sim, Satã; sim, minha cruz.
Uma faísca na gasolina,
e a garota se libertou.
Vou vencê-la, vencê-la,
volto amanhã!
Desta vez, não.
— Ah, minha irmã,
esta cidade é um inferno!
Um moedor de carne onde bancos, polícia e padres nos devoram.
— Ah, meu amigo, estou cansado de me afogar.
Não sei quanto a você, mas eu vou embora, para as matas, longe desta cidade!
Eles tomaram estradas,
tanta vida nova,
tantos pensamentos novos,
tantas visões novas,
tantos caminhos novos
para viver e ser,
sem lutar só para sobreviver.
“Chega” foi a palavra
que clamou solução.
“Chega” foi a explosão
para a revolução.
Força de vontade,
direto à mudança,
pode tornar o impossível uma piada
e os sonhos, regra.
Vou vencê-la, vencê-la,
volto amanhã!
Desta vez, não.
Então diga, diga, diga
pra onde você quer ir,
beije o vento
e faça isso virar rock’n’roll.
Então diga, diga, diga
qual é o seu gongo do coração,
sua própria batida,
sua própria canção.
Então diga, diga, diga
que você sabe que é verdade:
você não precisa desse inferno
onde te enjaularam.
É hora de mudar,
sem mais perdas.
A vida é curta demais para ser desperdiçada
como ovelha dos patrões.
Na madrugada em que Heart’s Gong (Back Tomorrow!) começou a tomar forma, pensei no Chumbawamba — não no Tubthumper, mas naquela fase obscura, experimental, anarquista. No final dos anos 80, uma coletânea chamada A Vile Peace caiu em minhas mãos. Entre tantas bandas punks barulhentas, uma me prendeu: um folk experimental com letras anarquistas. Escrevi na hora. Comecei a me corresponder com o Boff, membro da banda.
Por ele, descobri o Class War — que mais tarde inspiraria a Juventude Libertária de São Paulo — e adquiri o EP Revolution (1984). Ali nasceu uma paixão eterna. Acompanhei todas as fases do Chumbawamba, mas foi com o split Enough is Enough, ao lado do Credit To The Nation, no início dos anos 90, que algo em mim se rasgou. Ali percebi, com clareza, que a música política radical podia ultrapassar os limites do punk sem medo de experimentar outras sonoridades — e isso pelo menos cinco anos antes do mundo os conhecer pelo Tubthumper.
Naquela noite, construí um beat old school, um baixo falante, synths que lembravam tanto o funk norte-americano quanto os coros monásticos do punk inglês. Era algo diferente — não só novo, mas necessário.
A letra nasceu como narrativa de fuga.
De Wick de La Rut, que sai não com grito, mas com caminhar silencioso — irremediável, irreversível.
E de Carol Yellow, cujo “não” é faísca em gasolina: depois de anos dizendo “sim, madame; sim, chefe; sim, cruz”, um dia manda tudo pro inferno e vai viver.
“So say, say, say,
What’s your heart’s gong,
Your own beat,
Your own song.”
O “gongo” do título não é instrumento — é toque primordial.
Não pede silêncio. Pede ação.
É o som que rasga o véu das rotinas e expõe o que estava escondido.
Não é meditação confortável. É insurreição íntima. Uma metanoia que começa no corpo e termina na rua, se for preciso.
Penso nas tradições que sabem disso há séculos: budismo, taoismo, rituais afro-indígenas — todas falam do som como deslocador de realidades.
Aqui, o gongo é convocação.
É o chamado que bate no peito quando finalmente paramos de obedecer.
Porque liberdade não é destino em cartaz.
É decisão que se toma no corpo.
É fugir não somente da cidade, mas da mentira de si mesmo.
É voltar ao próprio pulso antes que se metamorfoseie num estranho.
Viver o próprio ritmo — o tal heart’s gong — é insurgência prática.
Não é utopia. É disciplina cotidiana.
É acordar e escolher de novo.
É assumir a responsabilidade pela própria fuga.
No fundo, a canção repete o óbvio que a gente esquece até explodir:
a revolução começa quando se ouve — de verdade — o som que só a gente escuta.
E quando se escuta, não tem volta pro “amanhã”.
“Not this time” é o corte que reescreve a história.
É o instante em que o mundo perde a licença de dizer quem você é.
Fragmentos de uma Gnose Selvagem: Textos para o Primeiro Canto de Kaira Zuex - Capítulo 1
Six Soul Hits traz os seis primeiros raios do universo Kaira Zuex. Foi difícil escolher as faixas para este EP — afinal, o álbum completo que estou preparando tem 22 músicas, e estas já são resultado de uma seleção feita entre mais de três horas de composições gravadas.
Minha escola é o punk. Cresci num meio onde a mensagem sempre foi absurdamente mais importante do que a música em si. Letras com referências, encartes explicativos, textos que abriam portas — isso sempre fez parte do que eu entendo por arte. Por isso, decidi escrever estas linhas como introdução a esse meu primeiro trabalho sob o nome Kaira Zuex.
É bem provável que, na versão fanzine — que farei depois do lançamento —, elas ganhem alguns complementos. Mas acredito que já deem a você, que me encontrou aqui no Medium, uma boa ideia do contexto de onde esta obra brota.
Vamos lá?
OUÇA NO BANDCAMP
A Mulher Lobisomem
When the full moon beckons,
I taste the sacred feeling.
With the curse of the wolf,
I am the meaning.
To silence restless ghosts,
I am beyond sin and vanish in the mist of town.
I am the mad sin.
I am the mad sin.
With the curse of the wolf,
I am my medicine.
When madness claws at my mind,
I wander alone through shadowed rain.
The world’s a labyrinth of rabid rats,
And sometimes I slither like a venomous snake.
Hidden on the hills, a sorrow star
Waits to rise with the dawn.
I stand as home —
A beacon for hearts lost in torment.
I am alive among the dead,
Fleeing the rot that spreads like plague,
Encircled by walls of ignorance.
When the werewolf howls,
I am beyond sin!
Life’s worth more than losing my mind to forget
The whispers of sanity inside my head.
The mind may fracture and splinter — but I can
Bloom from the ashes
Among the dead.
I’m here — and out!🏳️⚧️
I move like a kiss.
A lady werewolf,
A transgender bliss,
I’m here — and out!
and I move like a kiss!
Rats survive in the dark,
But I have tasted forbidden fruit.
My eyes blaze red —
I am the disobedient call,
Delighting in hidden knowledge.
Rats pray to their demiurge laws —
That’s all they can do,
’Cause their beliefs cannot
Outshine the radiant light I am.
I’m the luminous moon of the whole.
Life’s worth more than losing my mind to forget
The whispers of sanity inside my head.
The mind may fracture and splinter — but I can
Bloom from the ashes
Among the dead.
I’m here — and out!🏳️⚧️
I move like a kiss.
A lady werewolf,
A transgender bliss,
I’m here — and out!
and I move like a kiss!
☆☆☆
Quando a lua cheia me chama,
saboreio o sentimento sagrado.
Com a maldição do lobo,
eu sou o próprio sentido.
Para silenciar fantasmas inquietos,
estou além do pecado e me fundo na névoa da cidade.
Sou o pecado louco.
Sou o pecado louco.
Com a maldição do lobo,
sou meu próprio remédio.
Quando a loucura arranha minha mente,
vago sozinha pela chuva sombria.
O mundo é um labirinto de ratos raivosos,
e às vezes me arrasto como uma cobra venenosa.
Escondida nas colinas, uma estrela de tristeza
espera nascer com a aurora.
Sou eu o lar —
um farol para corações perdidos no tormento.
Estou viva entre os mortos,
fugindo da podridão que se espalha como praga,
cercada por muralhas de ignorância.
Quando a lobisomem uiva,
estou além do pecado!
A vida vale mais do que perder a mente
para esquecer
os sussurros da sanidade dentro da minha cabeça.
A mente pode quebrar-se em mil cacos — mas eu consigo
florescer das cinzas
entre os mortos.
Estou aqui — e fora! 🏳️⚧️
Me movo como um beijo.
Uma mulher lobisomem,
uma alegria trans,
estou aqui — e fora!
e me movo como um beijo!
Ratos sobrevivem na escuridão,
mas eu provei o fruto proibido.
Meus olhos brilham em vermelho —
sou o chamado desobediente,
encantada com o saber oculto.
Ratos rezam às leis de seu demiurgo —
é tudo o que conseguem fazer,
pois suas crenças não podem
ofuscar a luz radiante que eu sou.
Sou a lua luminosa do todo.
A vida vale mais do que perder a mente
para esquecer
os sussurros da sanidade dentro da minha cabeça.
A mente pode quebrar-se em mil cacos — mas eu consigo
florescer das cinzas
entre os mortos.
Estou aqui — e fora! 🏳️⚧️
Me movo como um beijo.
Uma mulher lobisomem,
uma alegria trans,
estou aqui — e fora!
e me movo como um beijo!
Em 2023, dois álbuns nasceram do mesmo silêncio: A Nova História, com a Dance of Days, e Desgenero, sob o nome Nenê Alltro & O Mal de Caim. Não foram fechamentos definitivos, mas selos postos sobre duas longas odisseias — narrativas que, ao longo dos anos, se costuraram dentro de mim. Era tempo de enterrar sementes já colhidas para abrir espaço a outros universos que há muito me chamavam.
A Nova História veio ao mundo em 8 de dezembro daquele ano, impulsionado por uma turnê que percorreu o país em 2024. Desgenero, porém, só foi lançado em 31 de outubro de 2025. Não por hesitação, mas por um necessário processo de desapego — precisei soltá-lo antes de entregá-lo.
O que mais os une, além do entrelaçamento habitual entre minhas composições, é que foram os primeiros feitos inteiramente por mim, aqui na ilha. A Nova História surgiu como demo; Desgenero, já como obra final — sem testemunhas, sem relógios, sem eco externo. Esse isolamento criativo abriu um novo continente: uma zona liminar onde o som nasce do corpo, não da expectativa. Foi ali que algo maior começou a pulsar. Logo depois, Kaira Zuex ressurgiu — não como projeto, mas como transmutação inevitável.
Ao revisitar Desgenero na metade de 2025, mergulhei de novo nas ambiências góticas que o atravessam. Foi nesse retorno que uma vibração antiga — e ao mesmo tempo inédita — acordou. O gótico voltou não como estética, mas como atmosfera espiritual: o nevoeiro das montanhas, a solidão ritual, a noite como espelho do interior. Dessa ressonância nasceu Lady Werewolf, faixa que abre Six Soul Hits e serve de ponte entre dois ciclos que se fecham e um terceiro que se abre com uivos.
Comecei com um beat de 808. Só depois veio a bateria acústica. Lembro com nitidez o momento em que encontrei o baixo soulpunk que sustenta toda a faixa — soava como uma espinha dorsal viva. Em seguida, uma linha de pipe organ sombrio, quase monástico. Foi aí que a imagem surgiu: a mulher lobisomem. Experimentei uivos, quebras rítmicas, movimentos abruptos. O resultado não era apenas um tema. Era um estado de ser — a tradução sonora de uma vida inteira de metamorfoses.
A letra desmonta a loucura como ferramenta de segregação — esse mecanismo social tão antigo quanto eficaz, usado para silenciar quem ousa existir fora da norma. Ela mostra como o olhar alheio corrói o interior, tentando transformar em delírio aquilo que só quem sente sabe que é real. E afirma, com urgência, a necessidade de saber-se sã, mesmo quando o mundo insiste em te chamar de amaldiçoada.
Sempre achei curioso: me chamarem de pecado nunca me ofendeu. Pelo contrário — sempre ressoou como elogio.
Por isso digo: sou meu próprio medicamento.
A cura não vem de fora. Vem da coragem de manter-se fiel a si mesma num mundo que lucraria com tua renúncia.
No meu caso, o arquétipo da mulher lobisomem bebe seu próprio transgender bliss e funde-se à lua — não como metáfora, mas como pacto cósmico. Ainda assim, a ideia vai além da transgeneridade: é sobre qualquer verdade interna que precise uivar para não morrer. Não se trata apenas de disforia. Trata-se do pacto íntimo entre a alma e sua autenticidade.
Os ratos, para mim, representam o mundo pequeno: preso em labirintos morais, movido por medo e submissão. A mulher lobisomem, por sua vez, rompe paredes. Prova o fruto proibido do autoconhecimento. Seus olhos vermelhos não brilham de fúria — mas de lucidez radical.
Se há uma mensagem em Lady Werewolf, é esta:
não há maldição maior do que negar quem se é —
e não há poder maior do que abraçar a própria metamorfose.
Quando comecei a trabalhar nas composições desse novo universo, senti muito a energia do corvo que me acompanha desde as primeiras bandas e que, inclusive, se tornou símbolo em minha carreira.
Karasu (烏 / カラス) significa “corvo” em japonês — uma figura associada à travessia entre mundos. Na mitologia japonesa, da qual faço parte por ancestralidade, o corvo aparece como símbolo de transformação. Karasu é um nome que carrega escuridão, mas também sabedoria e movimento, sempre ligado a jornadas interiores e à capacidade de renascer através das sombras. Tudo a ver com minha jornada de vida.
Por um tempo fiquei apenas com essa referência mental no trabalho, mas, ao desenvolver as temáticas que comecei a abordar nas letras, lembrei-me do conceito grego do “tempo qualitativo”: o Kairós, com seu topetinho, equilibrando-se sobre a navalha — símbolo do tempo que se vive, mas não se agarra, e do momento preciso em que tudo simplesmente acontece.
Assim, mudei a grafia, inicialmente para Kairasu, fluindo depois para Kaira Zuex. Em minha visão, Kaira invoca o portal do momento sagrado, e Zuex é a manifestação.
Desta forma, essa nova dimensão ganhou uma referência. Prefiro explicar assim, para não reduzir a magnitude da energia em si — que é, afinal, impossível de nomear.
Conectada a essa dimensão artística, em uma das madrugadas de composição, pintei este logo. Visivelmente anárquico. É um “KZ”. Contudo, inicialmente eram dois corvos, apontando para cima e para baixo, como um yin e yang. Minha ideia era que o desenho dos corvos formasse um raio. Ao observar o desenho por bastante tempo, surgiu a pareidolia: vi um “Z”. O resto foi desenvolvimento artístico até chegar a esta versão final.
Eu sou a minha revolução!
A energia Kaira Zuex nasceu de uma necessidade minha de criar um universo novo e à parte de tudo que eu já havia vivido em meus cinquenta anos no planeta. Após minha transição de gênero, senti-me escrevendo uma nova história que, por mais que desse continuidade a toda uma saga de transformações e evoluções, também clamava por um espaço puro e imaculado, capaz de receber — sem prismas interpretativos condicionados por experiências anteriores — sua própria expressão artística.
Respeitei meu fluxo criativo e, ao mesmo tempo em que aprendi a compor e gravar tudo sozinha, produzi dois álbuns que concluíram as narrativas das sagas que registrei tanto na cena hardcore punk quanto no deathrock. Ao passo que essas histórias — das quais me orgulho profundamente — foram contempladas com minha total dedicação e o merecido respeito, senti enfim a leveza da entrega e o nascer de um novo impulso criativo, que, até então, eu não sabia aonde iria me levar, mas permiti fluir livremente.
Numa certa tarde, fiz um beat no djembê e gravei. Deixei em loop e criei um baixo contínuo. Sobre isso, construí a primeira linha de voz, mas senti que ainda não era aquilo. Então, retirei as partes que me soavam desconexas e, a partir da melodia vocal que permaneceu, criei uma flauta. Montei um loop de quatro minutos e deixei tocando em repetição enquanto cuidava do meu jardim, me conectava com a terra, com as plantas, com a energia da ilha isolada no seio da Mata Atlântica, para onde eu havia me mudado já há alguns anos.
Em meu universo, todo processo de criação é meditativo. Enquanto escutava aquela primeira composição, minha mente viajou por diversos momentos e passagens da minha vida — principalmente experiências relativas à identidade de gênero, porque era o que eu mais trabalhava internamente na época. A libertação, para mim, foi uma alegria há muito aguardada e guardada em silêncio. E lembrei que, aos olhares externos, não foram poucas as vezes em que o clamor do meu coração foi apontado, numa tentativa de silenciamento, como loucura.
Então, assumindo que a loucura aos olhos do mundo era, na verdade, minha libertação, me veio à mente: para eles devo ser mesmo um caboclo louco… então que seja! E, como a palavra caboclo carregava uma conotação masculina, completei com uma contraposição poética e passei a cantarolar: “Sou um caboclo louco, uma mulher de verdade!” Foi nesse instante — que lembro e guardo como tesouro — que senti, pela primeira vez, a energia do universo de Kaira Zuex.
Lembro que, na época, eu estava completando os estágios para a formação em monitoria ambiental e caminhava pela orla da Ilha do Cardoso. Era um silêncio absurdamente musical, que trazia melodias tanto do oceano quanto da mata. Ali, recordando a base, cantarolei uma nova melodia de voz — pela primeira vez me aventurando no espanhol — que se tornaria toda a poesia que deu luz àquela música, e que fiz questão de registrar no primeiro EP desse universo tão íntimo e especial da minha experiência terrena.
O processo foi longo e teve muitas fases. Foi uma jornada de transformação e desapego, porque enfrentei a dificuldade de dissolver sinapses solidificadas em conceitos de gêneros musicais, em “tem a ver” e “não tem a ver”, e todas essas coisas tolas que tomamos por verdades e que só aprisionam o coração. Conheci e estudei muitas coisas nesse período, e até achei que havia encontrado um caminho na cumbia — criei uma persona — mas logo percebi que o clamor dessa energia era por algo muito além disso.
Então, voltei ao ponto onde tudo era menos nomeável, soltei os controles e simplesmente deixei fluir. Assim, vencendo minha própria teimosia e meus apegos, reservei-me à condição de mera observadora do fluxo criativo e pude compreender que Kaira Zuex é algo além de uma energia ou de um universo criativo paralelo: é uma condição dimensional da minha própria existência. E, livre do medo oriundo da interpretação humana, aprendi a experienciá-la sem julgar, apenas aceitando-a como parte de mim.
Sendo assim, registro aqui, com o EP “Six Soul Hits”, os primeiros marcos dessa supernova. Sua existência compartilhada é a minha satisfação. Faço questão de que tudo nesse universo flua sem marketings, sem estratégias de lançamento e sem grandes planejamentos. Kaira Zuex é uma energia, então, se for para chegar a algum lugar além de seu aeon primordial, que atraia naturalmente energias equivalentes ou, simplesmente, que seja bela sendo o amor que nasceu para irradiar.