Taxi driver: uma história sobre você
No último domingo, eu e meu namorado nos propomos a assistir um filme qualquer e observá-lo de maneira sistemática e consciente. O filme escolhido foi Taxi driver, um (talvez) clássico dos anos 70. Robert De Niro protagoniza a história de um homem que sofre com insônia e niilismo. (Só Deus pode me julgar por assimilar o personagem ao meu namorado. Sim, sim, por causa da pinta na bochecha direita, obviamente…).
Logo nas primeiras cenas do roteiro, conhecemos Travis. Um cara que enfrenta problemas para dormir e, por isso, decide trabalhar como taxista no turno da noite na cidade de Nova York. Observar a cidade e suas máculas como expectador das histórias alheias, sem dúvidas acentua suas inquietações e insatisfação com a vida. Assim como nós, Travis é espectador de outras histórias que passam por seu táxi - afinal ele é só o taxista e voluntariamente se recolhe de qualquer protagonismo evitando ao máximo interagir com seus passageiros.
Fora do trabalho, o rapaz escreve sobre seu emprego e o desenrolar das horas no trabalho. Neste momento notei algo interessante, uma pérola, eu diria. Travis teve pouca instrução e isso fica claro em vários momentos do filmes, como quando interage com o candidato à presidência o Palantine. No entanto, o fato de escrever observações, até bastantes profundas sobre seu cotidiano, salientam de forma discreta a sua aspiração por ascender. Migrar do papel de figurante para o de protagonista de um enredo próprio. O motivo da insônia e niilismo de Travis é um só: desejo de ser.
Em dado momento do filme, Travis se apaixona por Batsy e vê nela a oportunidade de ser um cara diferente daquele caladão que dirige um táxi. Ele cria em si mesmo um personagem que tem um teor a mais de sofisticação e usa desta arma para impressionar a moça. Ele dá tudo de si para ser um cara à altura da mulher que deseja. Infelizmente seus esforços não foram o bastante e Travis comete um deslize que a afasta definitivamente. Esta quebra de expectativa o joga de volta para a vida sem propósito que levava, só que agora, mais inconformado. É desta forma que Travis decide mudar radicalmente seu estilo de vida. Neste momento do filme sua ação dramática se salienta e ele imerge totalmente no objetivo de protagonizar sua própria história.
Sua decadência emocional é explícita. Dieta, treino de tiro e horas na frente da televisão são as atividades que ocupam seu dia. Quando faz seu trabalho, Travis agora busca brechas que o permitam viver seu protagonismo. E esta brecha é encontrada em um incidente passado com uma garota que entrou em seu carro para fugir de um homem que parecia incomodá-la. É assim que Travis passa a observar e se aproxima de Iris numa abordagem que nos coloca em dúvida sobre sua sanidade. Ele encontra, finalmente, sua chance de ser alguém na vida de outra pessoa. de viver uma drama, uma história na qual ele seja o protagonista. O espectador é provocado com a sensação angustiante de não saber o que se passa na mente de Travis que nitidamente vive um momento decisivo, uma crise, em primeira instância. Afinal de contas, passamos mais de 40 minutos acompanhando a vida de um estranho que aos poucos se revela com nossas próprias ânsias e frustrações. Quantas vezes não achamos a vida toda um saco e desejamos que algo incrível aconteça? quantas vezes nos omitimos ao direito de viver nossas vidas ao ponto de ficarmos emocional e psicologicamente desgastados? Nas últimas cenas, o filme finalmente alcança o ápice e nos põe em reflexão sobre o quanto estamos dispostos a apostar para ter nas mãos as rédeas de nossas próprias vidas?
Por: @hippiepelada








