27 de novembro de 2015
Where do we go from here - Ruelle
Para onde vamos a partir daqui? Para onde vamos a partir daqui? Como vamos voar sem asas? Como você respira sem sonhos? Para onde vamos a partir daqui?
Crystal
Despertei procurando por ele, mas não o senti do meu lado. Apoiei-me em meus cotovelos e olhei em volta, eu estava sozinha e toda a sala era um silêncio total. Ainda estava com a mesma roupa da noite passada, portanto decidi que era hora de subir e tomar um banho, eu não estava com ressaca nem nada do tipo, mas eu queria me livrar do álcool no meu corpo e do cheiro que se prendia em mim. Passei as mãos pelos meus olhos, grudentos de sono e dobrei a manta que me cobria.
Subi depressa esperando não encontrar ninguém e fui direto para o chuveiro, com sorte ninguém teria me encontrado na sala apagada. Mesmo com o descuidado da minha família no meu aniversário, eu podia perdoar isto por conta dos últimos dias.
Saí do meu quarto e quase de imediato, encontrei Trina.
- Ah, bom dia, Crystal! - cumprimentou ela forçando um sorriso.
- Senhorita Fell! - coloquei uma mecha para trás da orelha - Está tudo bem?
- Está sim. - ela assentiu se aproximando - Estou saindo para ir ver uns amigos, você sabe, para conseguirmos nossos aliados.
- Claro. - lembrei-me daquilo de solavanco - Você quer... Uma companhia?
- Seria ótimo. - ela tocou meu braço de forma consoladora - Mas creio que alguém esteja querendo te ver.
- O que? - Dominic.
- Sua amiga, Alyssa. - respondeu ela - Ontem a noite ela procurou por você, mas seu irmão disse que você tinha saído com um garoto.
Ruborizei diante do comentário.
- Obrigada, vou falar com ela. - agradeci - Vá encontrar seus amigos, por favor.
Ela acenou com a cabeça e passou por mim. Me senti uma idiota por esperar que fosse o Dominic, muito provavelmente ele tinha fugido de mim, dos sentimentos que eu tinha mostrado por ele. Ótimo.
Respirei fundo e desci as escadas novamente, eu precisava comer algo.
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Treinar com armas de verdade era muito melhor do que com bastões, e Alyssa era tão boa quanto eu, então tinha um oponente forte e preparado. Eu e a Alyssa fomos treinadas juntas, sabíamos bem os pontos fracos uma da outra, a parte ruim foi quando ela resolveu mudar para uma escola nova e integral, acabamos perdendo nosso hábito.
Quando éramos pequenas, treinávamos com pequenas adagas e socos-ingleses, eu sempre estive envolvida com armas, desde nova, por isso eu tinha intimidade com elas e não as temia, afinal minha arma era uma das mais temidas e fazia um belo estrago, eu precisava extravasar meus sentimentos às vezes. A arma de Alyssa era uma kodachi, e ela era tão boa!
- Como foi passar o dia com o Will babando em você? - indaguei.
- Não fale assim dele, Crystal. - brincou ela avançando - Ele foi um doce comigo.
- É claro que foi. - ri, batendo meu machado em sua espada, me protegendo.
- Mas e você que sumiu noite à dentro com o Dominic?
- Não aconteceu nada, foi só uma festa. - sorri avançando, assim como ela - Ele me trouxe em casa depois... E só.
- Foi a uma festa com um perseguidor? - ela abaixou em um giro enquanto e saltava fugindo da lâmina - E não qualquer um, o seu perseguidor.
- Ele não é meu. - afirmei como se fosse óbvio.
Alyssa riu enquanto continuávamos nossos bates e rebates. O golpe final veio de mim.
- Muito bom! - Alyssa elogiou.
Sorri abaixando minha arma.
- Você por acaso teria visto o Vincent hoje? - indaguei de repente, minha vontade era socar a mim mesma.
- O minion número 2. - ela balançou a cabeça e pegou uma garrafa d’água - Não, eu não o vi, e sugiro que se quiser saber do Dominic vá direto até ele ou ligue.
- Eu não... Quero saber do Dominic.
- Eu te vi dormindo no sofá, Crystal. - ela cruzou os braços - Eu não sei o que de fato aconteceu entre vocês e nem vou te obrigar a me contar, mas se algo ficou... Confuso, fale com ele.
Apenas a encarei com cautela.
- Mas eu não vou ser a mãezona conselheira se é o que você está pensando. - reforçou ela fechando a garrafa novamente - Só estou dizendo.
Assenti ainda em silêncio.
- Vamos correr um pouco? - indagou ela prendendo o cabelo.
- Passo. - disse enfim - Por que não chama o Will?
Ela concordou saindo dali, e me deixando sozinha em meus pensamentos. Ela estava certa.
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Lindy
Ouvi passos vindos sem pressa pelo corredor. Preparei-me para o pior, Jackson poderia ter mandado qualquer pessoa para me torturar ou mexer com a minha cabeça, eu não duvidava de mais nada vindo dele. Ele era um homem doente e eu só queria ficar longe dele, ir embora dali.
Uma sombra me assustou, eu não a conhecia. A mulher, não muito mais velha do que eu, tinha a pele mais pálida que eu já tinha visto em toda a minha vida, cabelos longos em ondas castanhas, quase louros, seu vestido preto contrastava fortemente contra a sua cor natural, e meu deus, que vestido lindo era.
- Ho, ho! - ela sorriu de um jeito atrevido - Veja que Globlin adorável o Jack arranjou.
Revirei os olhos diante da ironia em sua voz.
- Ele cortou sua língua também? - ela riu - Não me surpreenderia.
- Estou guardando minha língua para momentos específicos.
Ela sorriu diante do meu comentário.
- Eu gostei de você. - ela passou os dedos pelo queixo, suas enormes unhas negras fizeram meu coração saltar, ela poderia arrancar meu coração perfurando meu peito com aquelas garras - Não é uma mosca morta como a maioria das pessoas daqui, eu juro por Deus que eu tenho vontade de arrancar todas as tripas do menino Halder toda vez que ele abre a boca. Ele é obcecado por você.
- Quem é você?! - a encarei com o cenho franzido - Jackson te mandou aqui?
- Ora que falta de educação a minha, me chamo Giamon. - ela sorriu com seus lábios rosa vibrantes - Sou a Maquinista do pequeno Max.
- Isso devia significar alguma coisa pra mim?
Seu sorriso sumiu, mas ela não deu um passo sequer em minha direção, ela não estava ali para me machucar, pelo menos não pertencia a seus planos.
- Jackson não me mandou aqui, Goblin curioso. - ela apertou os olhos com desdém - Ele está tramando coisas muito melhores, como a execução dos traidores que participaram da debandada de ontem à noite. Realmente, foram idiotas achando que Jackson não estava de olho neles, aquela Rosamund, nunca me enganou. Eu sinto o fedor de perdedores de longe, e ela parecia o próprio esgoto.
- Eu soube da fuga. - congelei, eu não ia revelar que conseguia ouvir de uma distância considerável - Jackson veio me dar uma lição de moral sobre não confiar nas pessoas próximas de mim.
- Pois não confie mesmo. - sua expressão parecia ter se vertido para ódio cego - Eles sempre nos traem.
Engoli em seco enquanto ela me olhava de cima a baixo.
- Você é bem bonita para um Goblin. - ela sorriu e finalmente se aproximou, eu estava sentada no chão com as correntes ainda me prendendo - Ouvi que Fell’s eram quentes.
Encarei-a, em pé diante de mim, curvada em minha direção. Ela riu diante do meu rosto confuso, ela estava ali para dar em cima de mim?
- Goblin tolinha! - ela afastou uma mecha do meu cabelo de meu rosto - Jackson me ensinou a dar apelidos, mas confesso que fiquei melhor do que ele, somos irmãos de criação, mas não imaginava que ele seguiria de fato o pai. Jackson é incrivelmente péssimo Criador, não espalhe. Ryan tinha mais vigor e determinação, uma pena o filho ser tão burro, infelizmente aquele palerma é a única família que tenho. Você acha comum ter um pai pirado? - ela fez um sinal de loucura próximo à sua têmpora - E uma mãe incendiária? Ela tentou pôr fogo em mim enquanto eu dormia. Meu pai não era um astro como o de Jackson, digo Archer, é o primeiro nome dele.
- E por que está me contando isso? - eu ficava cada vez mais confusa com o que estava acontecendo.
- É uma vida solitária, sabe, Fell. - ela sorriu tristemente o que me deu uma pontada de dor - Quando Jackson me falou de você, fiquei curiosa para conhecê-la, parecia uma pessoa boazinha, mas vejo seus traços de pesar, decepção e raiva, bem lá no fundo. Você é apenas o começo de algo muito maior, aproveite enquanto tem isso.
Mantive-me quieta.
- Da próxima vez que nos encontrarmos não vai ser em condições tão favoráveis assim, mas espero que você se lembre deste lado. Todo “lobo mau” tem uma segunda face.
- Afinal está a favor ou contra ele?
- A favor, é claro. - ela não apresentou uma expressão sequer de emoção - Ele é meu irmão.
Ela se foi com a mesma leveza e descaso com que chegou.
Peguei-me pensando no que ela havia dito. “Você é apenas o começo de algo muito maior”. O que ela queria dizer com isso? Eu era apenas uma Marcada qualquer, sem importância, que Jackson queria apenas eliminar. O meu algo maior era a vida além daquelas paredes, o que eu tinha lá fora? Eu não sabia ao certo mensurar o quanto ela achava que eu era importante de alguma forma. Ela dissera que o pai era um pirado e a mãe, uma incendiária, entendia como era ter uma família atípica, uma mãe tola e um pai abusivo.
Deixei meus ombros fraquejarem e me deitei sentindo o gelo do chão e do lugar, que ainda me fazia tremer, mesmo que menos do que no começo. O frio tinha se tornado parte de mim e não havia nada que eu pudesse fazer. O teto dali era como o do cômodo em que eu estivera antes, e era uma imagem até bonita se fosse desconsiderado que era uma prisão demoníaca.
Crystal
Estava na sala de estar, depois de um dia inquieto, não bebendo desta vez. Apenas pensando, com o celular em mãos, se devia ou não seguir o conselho de Alyssa e ligar para Dominic ou esperar que ele desse o primeiro passo, visto que ele era quem fora embora e me deixara sem tempo para falar sobre nossa noite.
Assustei-me com a chegada de Nate, ele tinha em mão uma pasta azul cheia de folhas. Ele largou ela ao meu lado.
- O que é isso? - quis saber.
- Abra.
O fiz por curiosidade dando de cara com uma lista de nomes, já completando a primeira folha, e assim se sucedia na seguinte, ambas completas, porém havendo muitas outras em branco.
- Que nomes são estes, Nate? - franzi o cenho.
- São os nossos aliados. - explicou ele se sentando ao meu lado - Temos 30.
- Poucos. - fechei a pasta e a larguei ao meu lado.
- Não terminamos ainda, Crystal. - continuou ele - Amanhã vamos falar com os Anciãos.
- Os traidores? - cruzei os braços - É arriscado demais.
- Tudo que estamos fazendo é arriscado demais, Crystal. - disse ele convicto - Não sabemos se podemos confiar nestas pessoas, mal a conhecemos, qualquer um pode nos delatar para o Criador e seremos massacrados antes mesmo de marcharmos até Auborne, mas a questão não é essa, estamos falando da Lindy. Ela faria o mesmo por nós.
- Eu sei que tudo que mais deseja é trazê-la de volta, eu também. - apertei sua mão, tentando lhe passar segurança - Aguentamos até aqui, estamos perto.
- Sim, estamos. - ele assentiu.
Abaixei o olhar e soltei sua mão, batendo as costas no sofá.
- Onde esteve ontem? - indagou ele.
- Vocês não se lembram, mas ontem foi meu aniversário, Nate.
Nate fechou os olhos, com intenção de se desculpar de alguma forma, ele tinha mesmo esquecido.
- Não se sinta mal por isso, ninguém lembrou. - falei arrastado - Eu pretendia passar o dia bebendo, mas Dominic apareceu e quis me levar para sair, rodamos pela cidade e de noite fomos a uma festa de uma amiga dele.
Nate estava sério.
- Sei que está preocupado comigo. - disse - Sei que não quer me ver magoada depois do que houve, e você não está errado, mas o Dominic é bom pra mim, não suportei a ideia de estar tão perto dele no começo, mas eu descobri que ele é mais do que um Perseguidor, Nate. Ele é uma pessoa normal como nós, com problemas, ressentimentos, rebeldias... Ele não é um monstro. Eu estava tão errada, todos nós estávamos. Vincent também é uma pessoa tão boa, os dois nos ajudaram e estão do nosso lado, é difícil acreditar nisso após o ocorrido com a Lindy, mas sinto que as pessoas que eles eram antes não existem mais, e se existem, acharam um jeito de serem melhores. Eu e o Dominic não somos como você imagina, eu não sou louca por ele Nate, eu gosto dele como gosto de você e do Will, como família.
- Não te julgo, mas também não acredito. - ele balançou a cabeça - O jeito que você fala dele, é como Lindy e eu, a diferença é que eu cansei de fingir que não é verdade, sim, eu estou apaixonado por ela, e não, não vou contar a ela. Lindy deve estar esperando para voltar para o Vincent, quem ela ama de verdade, é ele quem ela deseja ver acima de tudo. Eu não vou ser egoísta com ela nem com o Vincent, eles devem ficar juntos e eu não vou me meter nisso. Não minta para o seu coração, Crystal, ou vai perder sua chance. A chance de uma vida. Não seja como eu.
Senti tristeza de verdade ao ouvir as palavras de Nate, seus olhos cheios de dor, eu quase conseguia ouvir o som do seu coração se partindo. Eu já tinha visto aquele Nate “quebrado”, mas nunca me acostumei com a dor dele. Não demorou para que ele me deixasse ali sozinha, nem o impedi, deu o espaço que ele precisava.
Girei o telefone entre os meus dedos e apoiei os cotovelos em minhas pernas, queria discar os números, queria ouvir a voz dele, mas um peso nos ombros me impedia de tomar este passo. Fechei os olhos e abaixou o rosto, tocando o aparelho com minha testa.
Até decidir e discar de uma vez, deixando chamar, mas ele não atendeu. Resolvi deixar uma mensagem de voz por fim.
- Dominic, sou eu. Crystal. Você não atende o telefone então vou deixar uma mensagem de voz pra quem sabe você ouvir, ou não, você pode me ignorar e desaparecer, mas eu preciso fazer isso por mim. Eu passei o dia pensando na possibilidade de você me atender e no que falaria, mas eu liguei e só chamou. Sei que você tem os seus motivos para fugir de mim e do que nós nos tornamos, seja lá o que for, mas eu preciso de um sinal, um sinal de que você em algum momento do seu dia pensou em mim, se eu tenho estado nos seus pensamentos ou se eu não passo de uma distração do resto do mundo para promover alguma espécie de satisfação momentânea ou sei lá, eu só... Não posso sentar e esperar por qualquer coisa que me prove qualquer coisa. Me ligue quando ouvir isso.
Desliguei.











