A verdade sobre a casa ao lado.
– Querida, vá de uma vez – dizia a mãe de Camila, quase que num berro.
– Já disse que estou indo! – respondeu grosseiramente.
E então a mãe apareceu na sala. Os dois irmãos estavam sentados no sofá.
– Já pedi mais de mil vezes, leve esta cesta para D. Maria. É aqui ao lado, você não levará nem cinco minutos. Vamos – continuou a mulher, já zangada.
– Ora, está com medo do Edgar, o morto-vivo! Só pode! – riu o irmão.
Camila se levantou cheia de marra, fechando a cara com um bico muitíssimo grande.
– Não ria de sua irmã, nem de seu vizinho. Vá com ela na casa do Edgar e da Maria e deixem esta cesta. É dela. Esqueceu aqui em casa semana passada… Ah! E agradeçam pessoalmente ao Sr. Edgar, por nos ter mandados esses cubinhos de cana. – Abria a porta enquanto falava – E mais uma coisa. Sem gracinhas, os dois!
Os gêmeos tomaram da mão da mãe a pequena cestinha e caminharam deveras chateados em direção do vizinho.
– Não gosto desses trabalhinhos que ela dá – resmungou a Camila.
– Eu muito menos… – disse o irmão, entediado, enquanto caminhavam para a porta.
– D. Maria…? – disseram ao mesmo tempo. – Viemos… – continuaram, mas se interromperam quando adentravam já a casa, a porta estava aberta.
– Viemos em tratado de paz – retorquiu o menino risonho.
A menina lhe deu uma cotovelada que doeu muitíssimo.
– D. Maria? Está aí? – continuou a menina, já preocupada.
– Acho que não tem ninguém… Vamos deixar a mercadoria e partir. – Deu as costas.
– Ei! Medroso, volte já aqui!… Acho que ouvi um barulho. Talvez a mãe da D. Maria esteja por aí, ela não pode sair de casa.
– Está claro. A mãe dela é velhinha e…
– Olhe – disse a menina, correndo de encontro à porta do quarto da velha.
Os dois correram em quase perfeita sincronia, mas o que as duas crianças viram surpreendeu-as, e as assustaram.
– Oh! Meu Deus! – gritou a menina, sem se conter.
– Pare! – berrou o menino. – Vamos embora, Camila, vamos! – E os dois desataram a correr sem parar nunca e por nada. – Edgar é um assassino! Eu bem sabia!
Do lado de fora se ouvia a risada estridente do Edgar, o morto-vivo.
(por: fornit-some-fornus)