O homem racional: idealismo incansável da boa e velha filosofia.
Sim, nós filósofos temos culpa. Está culpa que por gerações foi nosso orgulho enraizada numa tradição racionalista e depois espiritualizada sedimentou tijolo por tijolo, bloco por bloco um edifício de “homens ideias” tão alto que ninguém poderia chegar ao 5º andar.
Engorduramos a carne, engessamos os ossos e os músculos costuramos com destreza com um exércitos de conceitos intermináveis ainda sim... inúteis! De cada um se tinha um grito, de cada outro um alarde: Eis o homem! Vinde contemplai!
O boneco instável de barro puxado de um lado pela vontade, do outro pelo dever. Hora julgado livre, hora remido de sua liberdade.
Cogito: Então doutor qual o problema desse animal bípede sem penas?
Dr.: Hum! Acho que tudo não passa de um problema de linguagem.
Este homem, contraparte de si próprio, olhando para si ainda ouve o eco ricocheteando dentro das cavernas de sua mente: Só sei que de mim mesmo nada sei! E talvez essa seja a angustia que no fim ainda sustenta o ideal de seres humanos que embala os passos de nossa espécie. Queremos e alguém que julgamos capaz de algum feito retorico diferenciado uma resposta: Quem eu sou? O que eu faço de mim? Afinal, a quem diga que sem uma estrutura solida não conseguiríamos manter a nossa humanidade. Pois é pesada demais para o barro sustentar.
Atravessamos gerações, descobertas, construímos alicerces fortes e aparentemente indestrutíveis. Só aparentemente... dinamitamos os alicerces, refundamos as bases, trocamos os slogans, reafirmamos o labirinto de nossa individualidade! Cartazes desfilavam nas ruas sob ânimos agitados: Você é pragmático ou positivo? Você é livre ou escravo? Você é de deus ou do diabo? Correria das ruas! O mundo descobriu a comunicação ultra veloz, descobriu como visitar o mundo pela janela! Assim como as crianças saiam voado cobertas de pó magico das fadas em direção da terra do nunca, guiados por uma eterna criança! Voamos nós para dentro de nossas janelas de 5.5 ou 72 polegadas! Imprimimos no mundo um novo andar no edifício! Aquilo tudo não basta! Temos que ser felizes, temos que ser gostosos, temos que ter tudo que nossos olhos nos mostrarem! E aqui estamos nós!
Deus morreu! Nietzsche morreu! E por que ainda não nos sentimos muito bem? Por que ainda agonizamos por dentro com conflitos e paradoxos? Somos a geração do smart, do compatc, das 23 milhões de caixas de RIVOTRIL vendidas anualmente. Mas nem por isso paramos, nem por isso nos tornamos melhores do que nossos avós. Estamos aqui agonizando como deus agonizou nas mãos dos positivistas, como Nietzsche agonizou numa cama louco. Não nos tornamos melhores que eles. Só nos tornamos alguma coisa deformada do que somos nós mesmos. Sim, não vamos além do que realmente somos, podemos nos deformar emocionalmente, podemos ser quebrados, desmontados e reformados, entretanto dificilmente iremos para além do que somos humanos... talvez não haja nenhum ÜBERMENSCH ali esperando por nós na esquina, ou algum pai eterno nas nuvens. Só posso garantir que o único grito que rompe com o silencio do trono dos céus é nosso próprio desespero de fugir de quem somos.
Em virtude disso, além de todas as etiquetas, rótulos, conceitos, placas ou códigos de barra que tenham sido impressos na humanidade para à definir uma única coisa resiste o próprio indivíduo. Independente se isso ou aquilo teve resultado com tal e tal público, se Deus é o fim de todas as nossas preces, desejos e esperanças. Obstante ao vazio confuso que nos cerca e desgasta ainda irá restar no meio do palco esse indivíduo que está em contato com tudo isso plenamente. Principalmente quando a vida é tão intensa que ate parece que os nervos tomaram o lugar da pele, onde tudo parece ainda mais sensível e doloroso em meio a toda esse edifício idealizado que somos instigados a subir teremos uma hora ou outra abrir os olhos e contemplar a vertigem do horizonte, onde o humano é a verdadeira substancia a ser trabalhada.