Mas o de vocês é igual ao que fazemos aqui em São Paulo? Ela perguntou logo quando chegou em casa e eu disse que estava fazendo cuscuz. Não, o da gente é só o floco de milho cozido com sal no vapor. Que sem graça! respondeu. Sem graça igual a você, pensei. O que dá gosto pro cuscuz é o que você mistura junto, falei fingidamente simpático. Ofereci uma dose de gim e ela me disse que não bebia aquilo. Olhei para a chave na porta, queria ter uma desculpa pra sair. Olhei pra cuscuzeira suada e notei que parecia ela deitada depois de treparmos. Peito grande, cintura fina, sem quadril e bunda murcha. Por dentro também é igual. É um cuscuz pernambucano. Pessoa sem expressão, sem vontades, sem grito, só sussurro. Falta manteiga, leite, ovo ou uma charque pra acompanhar. Por que continuo saindo com ela há tanto tempo? Por que nunca aprendi a dar um fim nas coisas? Queria fumar ou pelo menos sair pra comprar cigarros.
Comprei essa cuscuzeira no mesmo dia em que a conheci. A anterior furou bem na parte onde coloca a água. Era a que levei da casa da minha vó quando ela morreu. Peguei antes que minhas tias fizessem a limpa, quase saindo no tapa para dividir os utensílios da velha por igual. Uma ficou com o jogo de porcelana, a outra com a cristaleira, tia Júlia com o bar, as tias mais novas levaram o que podiam. A cuscuzeira tinha um apelo emocional. Me lembrava as noites de conversa mole jantando com ela na mesa da cozinha, sempre com cuscuz, pão, manteiga, voz mansa e uma garrafa de café fraco para acompanhar.
No final de semana após a passagem da praga das Sete Tias consumir tudo o que havia de valor, fui ajudar a carregar o caminhão que levaria o restante dos móveis para o abrigo da paróquia. A única lembrança de vovó que continuava naquela casa, além do vulto de saudade em cada cômodo, foi um pijama fininho de seda já bem gasto e com alguns furos. Era sua roupa preferida para as noites de calor. Me agarrei ali num canto com aquele pedaço de pano e ela me abraçou, falou comigo e pediu para eu me acalmar dizendo que ia ficar tudo bem. Deitado em seu colo senti mais uma vez a mão pesada da velha me fazendo cafuné. Desmontei. Chorei de soluçar. Pijama é coisa séria. Ele conhece seus sonhos, sua ficha médica, suas ressacas, sabe o que lhe tira o sono e quem lhe dá tesão. Pijama sabe mais de você do que quem dorme ao teu lado. Eu queria ser pijama por um dia para saber dos sonhos de minha vó, de minha mãe, de minha irmã, de Ana Clara, pra saber se sonha comigo tanto quanto eu sonho com ela. Queria ser para saber até dos sonhos de papai, mesmo sabendo que ele só sonha com puta. Nos sonhos dele, só deve ter suruba, orgia, ménage, boquete, trepada, cachaça, pó. Deve sonhar com mulheres magras, esqueléticas como as modelos de passarela, porque eu sei que ele não gosta de nem uma gordurinha. Minha mãe é magra. A ex-mulher dele é magra. Minha madrasta, magra. A mulher que ele pegou no dia que me levou no puteiro, tão magra que a carne da bunda não recheava uma tapioca.
Meu pai gosta muito de puteiros. Vive inventando briga com a mulher pra se enfiar em um. Não come ninguém, tá brocha, mas vai lá só pelo esporte, só porque não gosta de aposentadoria, é o que sempre diz. Mais do que puteiro, ele gosta mesmo é de bar. Adora como uma religião, beira a idolatria. Mesmo com cirrose não descola a barriga inchada da mesa. Na verdade, meu pai é uma carteira de Plaza. Ainda que tenha parado de fumar. Odeia cigarro, mas compra uma e coloca no bolso da camisa só de faz de conta. Ele é a liberdade do cowboy velho da TV, ele é o clichê que um dia disse pra minha mãe que ia comprar um maço e sumiu por 15 anos.