⟨ ❝ G I U L I E T T A L U C C H E S E ❞
É de conhecimento comum que a vinda de italianos à América criaria um choque de culturas, sentimentos nacionalistas e até mesmo na culinária – nesse ponto, os Estados Unidos foram bem influenciados. Com os Lucchese, não foi diferente, mas eles transformaram New York – a cidade que chamariam de lar durante o século XX e o subsequente – em seu parque de diversões pessoal, fosse por meio da violência, fosse pelos negócios prósperos que empreenderam. Giulietta, nascida nesse mundo cravado de ódio, sangue e veneno, não poderia ter se tornado diferente do que se transformaria, aos vinte anos. A única filha mulher de Gaetano Lucchese nasceu em dois de setembro de mil novecentos e trinta e seis, em Pallermo, na Itália, fruto de uma noite descabida que o, então subchefe da família, teve com uma de suas numerosas primas. Chegou ao mundo gritando tão agudamente que as mulheres que ajudaram Antonella a passar pelo trabalho de parto não aguentavam mais de dois minutos por perto de Giulietta, e a mulher sempre disse que sua filha seria uma mulher forte, senão a mais forte que chegaria a conhecer. Lucchese nunca realmente se interessou em dirigir a palavra a Antonella de novo – um caso de apenas uma noite era o que era, não iria complicar a situação, tampouco podia renegar a criança que concebera, afinal, poderia ser um criminoso, mas era um criminoso honrado. Dois anos depois, Antonella viera a falecer, já nos Estados Unidos, delegando ao seu amante um peso deveras desconfortável de se carregar, mas que seu pai aceitou, fosse pela honra, fosse porque os olhos e a ternura da filha o cativaram no momento em que o abraçou, quando a visitou pela última vez antes de Antonella morrer.
A mulher de Tommy, outrora Gaetano Lucchese, não gostou de ter em sua casa uma agregada, uma bastarda, e o homem fez arranjos para que Giulietta morasse com seu padrinho, a pessoa em quem mais confiava, a única em que relegaria a vida de um de seus filhos, tornando-a mais uma de seus inúmeros afilhados. Era jovem demais para perceber com certeza, mas tantas mudanças no que concernia seu lar a deixaram tonta, nem que tivesse sido por alguns segundos. Tommaso Gagliano foi o escolhido para ministrar a vida da pequena, e, apesar de sempre estar ocupado com seus negócios de Padrinho, achava algum tempo para dar atenção à espevitada italianinha que insistia em correr pelos corredores, brincando sozinha em uma casa que estava repleta de homens sérios e criminosos convictos, mas que jamais pensaram em fazer algum mal à menina. Tommaso a chamava de Lietta, e ela, de pai, por mais que Lucchese fosse seu biológico, era Tommaso quem a estava criando, e crescer sem alguém a quem considerar como um pai ou como uma mãe era difícil, até mesmo para uma criança de pouco mais de seis anos, especialmente durante o período da Segunda Guerra Mundial. Não chegou a realmente sentir os impactos nas ruas, visto que Tommaso, como medida preventiva, mantinha a menina dentro de casa, tendo aulas de balé e línguas (em especial a materna), mas sentia a tensão nos associados e consiglieres que visitavam o padrinho dia e noite.
Aos treze anos, a situação melhorou para ela, relativamente. Ainda vivia presa dentro de casa, na maior parte do tempo, mas seu pai providenciara capangas para acompanha-la as aulas de balé, portanto podia andar por alguns minutos pela cidade que aprendera a amar sem que se sentisse culpada por estar se pondo em risco e comprometendo a saúde já debilitada dele. Em uma noite em especial, quando estava voltando das aulas ministradas por Mademoiselle Merchant, Giulietta percebeu que estava tudo diferente, fosse a temperatura nada natural para aquela época do ano, fosse porque podia praticamente sentir o cheiro de morte no ar. Lembrava-se de ter deixado David e Johnny discutirem se Frank Sinatra era ou não o melhor cantor de todos os tempos para ser levada pela curiosidade. Algo a estava puxando para aquele beco, e Giulietta não era capaz de se opor àquilo, não sendo a criança que era, pelo menos. A imagem que viu, entretanto, não poderia ter sido esquecida tão facilmente, mas, no momento seguinte, Giulietta apenas se encontrou parada de frente a um beco vazio, com Johnny e David mortos aos seus pés. Não eram os melhores amigos de Giulietta, mas vê-los daquela forma era aterrador, e deixaria qualquer criança destroçada. Não podia achar comparação que a deixasse mais amedrontada, sequer sabia como chegara a casa de seu padrinho viva, com as famílias em um período de tanta animosidade, mas sobreviveu. Os pesadelos, entretanto, assombraram-na desde então, e ela não sabia porque sempre acordava no momento em que algo cravava suas veias, como se fosse uma agulha de injeção, doloroso, fugaz. Depois do episódio, implorou para seu padrinho a ensinar algo, qualquer coisa que fosse útil, para que não tivesse mais lapsos de memória tão grandes e que pudesse ajudar seus associados.
Aos dezesseis, já havia largado a escola de balé há tempos, e não se arrependia de tê-lo feito, pois o tempo de sobra a garantiu conhecimentos melhores do que o que poderia saber dançando como uma completa alienada. Sabia que estava entrando em algo perigoso, que seria caçada pelo restante dos criminosos, mas confiava, ao menos internamente, que fosse sobreviver, mas se obrigou a pedir para o padrinho a inserir naquele mundo. Seu segundo nome era Valentina, afinal, e ela gostaria de pensar que era valente, mesmo depois de tudo pelo que passou. Quando Tommaso se aposentou, seu pai biológico assumiu o comando, não que ele fosse realmente se importar pela filha, depois de anos tão frios quanto aqueles, mas quando ele não se opôs, ela apenas continuou a fazer o que pedira ao seu padrinho, a mesma coisa que o homem aceitou, quando a menina tinha pouco mais do que treze anos. Em uma noite em específico, tinha acabado de sair de uma prática de tiros com um dos associados que a haviam visto crescer, e foi abordada assim que chegou em casa, por Tommaso, com um convidado que ele desejava que conhecesse. Moreno, olhos verdes, alto, imponência, Giulietta teve de se manter ereta para negar que estivesse acuada pelo estranho, que se apresentou como Louis. Algo não lhe era estranho com o moreno, mas a italiana não conseguiu distinguir exatamente o quê, nem o motivo de sentir um frio na espinha sempre que ele lhe dirigia a palavra. As memórias da noite em que Johnny e David morreram voltavam com mais força a sua mente, a cada visita de Louis, mas ela não conseguia ligar uma coisa a outra.
Meses depois, Giulietta foi sequestrada pelo mesmo homem que estava na casa, naquela noite, na mesma noite em que a aparência engomada e intocada de Louis foi o suficiente para desencadear suas piores memórias. Era ele o assassino. Não teve tempo de fugir, ele apenas a nocauteou e Giulietta acordou em um lugar estranho, longe de sua amada New York. Tommaso estava debilitado demais, tendo viajado para a Flórida durante seus últimos dias de vida, portanto nem sequer chegara a saber que a afilhada tinha sumido, mas seu pai, Gaetano, não moveu um dedo para a encontrar. Por quatro anos, serviu como Fonte para Louis, uma virgem por perto para que pudesse se alimentar em tempos tão desoladores, mantida prisioneira em um quarto de luxo da propriedade do Roussel em New Orleans. Por quatro anos, ela aprendeu a se contentar com as migalhas de informações que Louis a entregava sua origem, montando um quebra-cabeças incompleto em sua cabeça. Ela tentou fugir, diversas vezes, tentou fazer com que ele a matasse, já que não era covarde o suficiente para tirar a sua própria vida, mas, ao findar desses quatro anos, no mesmo dia em que Giulietta completaria vinte anos, ela o seduziu suficientemente bem com as palavras, expressões e maneirismos para que ele se deitasse com ela, para que se tornasse inútil a ele. Ele a soltaria, então. Não foi isso o que aconteceu.
Louis a proveu o Abraço, e Giulietta nunca havia sentido tanta dor em sua vida, ou então não-vida, como passaria a ter que denominar, desde aquele fatídico dia. A angústia combinada com a dor e a incerteza a afligiam mais do que tudo, mais do que ter todo o seu sangue sugado do corpo, até, justamente pelos lábios que, horas atrás, a acariciavam. Era a madrugada de dois de setembro de mil novecentos e cinquenta e sete, e ela teria completado vinte primaveras, como seu padrinho costumava dizer. Ela o odiou, fosse porque jamais poderia ver a luz do sol, deliciar-se com o calor sutil que podia sentir, ver e abraçar, fosse porque ele a privara de uma escolha que não era dele para ser tomada. Ele a explicou que não havia uma escolha, realmente, para ela, que era dele o arbítrio, sempre foi. Louis não a liberou de seu olhar cuidadoso, tentando transformá-la em uma cria respeitável aos olhos dos Ventrue, por dez longos anos, nos quais Giulietta viu, de camarote, o bom nome de sua família ruir sob os cuidados de seu pai biológico, percebendo, então, que ele jamais realmente se importou com ela. Era óbvio, tão óbvio que chegava a dar a sua besta interior – como Louis chamava a sua sede por vitae humana, seu sexto sentido que pouco se importava para com as regras e compostura, muito cara ao vampiro – uma sensação doce de vitória. Tudo o que ela precisava fazer era mata-lo, mas seu mestre a proibiu durante esses dez anos, e ela não poderia ir de encontro aos comandos dele, algo não deixava, e aquilo a irritava, mais do que estar presa ao Roussel durante séculos, desde então.
Em sua primeira caçada, ele tentou ensiná-la, mas era teimosa demais, arisca demais para tolerar mais de duas palavras saídas da boca do Roussel sem que tivesse vontade de estourar a cabeça com uma espingarda. Seu padrinho tinha uma, e ela estava certa de que ainda se encontrava lá, mas sua submissão a impedia. Fraca demais, nova demais. Ela jamais sairia das garras de seu mestre, jamais se libertaria dos fios que ele prendera nela, manipulando-a como quem manipularia uma marionete, mas, depois de dez anos sofridos, enquanto Giulietta apreendeu a boa parte das disposições do seu clã, os Ventrue, ele finalmente a liberou por algumas noites. Não sabia dizer se era de seu interesse liberá-la por esse período de tempo, sabendo o que ela faria, ou porque ela passara a imitar seus trejeitos, quando ele passava a convencê-la com palavras. De toda forma, ela finalmente pôde se vingar do pai por tamanha discrepância no tratamento dos filhos, aparecendo para o homem como um fantasma, em seu leito de morte – só se arrependia de não ter convencido Louis a deixa-la fazer aquilo mais cedo, ele já tinha vivido demais. Nos dias seguintes ao enterro de seu pai, Giulietta tomou o próximo chefe dos Lucchese e o manipulou, para que, por trás dele, fosse ela quem agisse, já que estava presa por Louis, ao menos pelos próximos duzentos e noventa anos, já que não nutria esperanças tolas de que ele a liberasse antes. Desde então, sempre que um chefe era morto, a Lucchese era aquela quem estava por trás do assassinato, e também da ascensão de outro. O controle das outras famílias em New York tornou-se prático, mas sempre manteve um olhar mais atento aos Lucchese, afinal eram a sua família, e ela era uma italiana, no fim de tudo. Família era um dos pilares importantes da sociedade, para ela.
Voltou para Louis, alguns dias depois do que arranjara, certificando-se de que ele não percebesse mudança alguma em sua personalidade, para que não desconfiasse de nada, para que confiasse plenamente nela. As palavras tornaram-se sua vocação, nos anos seguintes, unidas à sede vitalícia e quase sempre desencadeada pela presença de seres humanos perto de onde estava, mas a todo momento tinha que se convencer de que era melhor do que isso, que iria vomitar todo o sangue que bebesse caso se alimentasse de pessoas aleatórias. Era uma caçadora exigente, afinal.
Giulietta já foi uma menina dócil, hiperativa e carismática, mas, aparentemente, tudo o que era bom em si se extinguiu quando Louis pôs os olhos nela, quando sentiu seu sangue. O temperamento italiano, entretanto, não se dissipou com o passar do tempo, apesar de Giulietta tentar se controlar ao máximo possível, seja com suas presas – pobres militares, geralmente soldados ou cabos para que o burburinho não chegue a camadas estratosféricas –, seja com as decisões que toma acerca das famílias mafiosas de New York, ou as que toma com relação a Louis – essas, sempre são as erradas, porque o Roussel costuma estar à frente de sua cria por mais de uma jogada, em um xadrez particular que só os dois entendem. A frieza, entretanto, foi apreendida enquanto em sua vida vampírica, e Giulietta tenta equilibrar os dois lados, contraditórios, que vivem em uma guerra constante em sua mente; sua besta interior e sua própria humanidade, praticamente esquecida depois que a mulher matou o próprio pai em um acesso de fúria calculado por anos. Mostra-se como uma herdeira mimada, a priori, mas a realidade é que Giulietta consegue ser muito mais perigosa do que isso, basta apenas que aquele que tocar em questões sensíveis a ela entrar no mesmo recinto. Impaciente, manipulativa e elegante, apesar de toda a sua herança mafiosa.
A pouca idade, tanto física quanto a obtida depois do Abraço, não lhe permite um controle total de sua besta, e, muitas vezes, Giulietta se vê em situações de risco, onde ela tem que pensar rapidamente o que irá fazer, aceitando as consequências insolúveis de suas escolhas. Tenta ser ao máximo calculista e fria com relação aos outros portadores da maldição, mas realmente não consegue segurar a língua afiada, quando se trata de Louis, ou algum assunto que tenha opiniões divergentes. É, provavelmente, uma das únicas pessoas que conseguem dizer ‘não’ a ele e sair quase ilesa do processo. Adora fazer da vida de seu Mestre um pequeno inferno, para que ele se arrependa todas as noites de sua não-vida do momento em que escolheu transforma-la.
Giulietta é uma contradição ambulante. No mesmo momento em que está assoprando suas feridas, ela mesma as está causando, e esse fato singular a diverte, seja porque ela tornou-se levemente sádica com a idade, seja porque, desde pequena, fora criada com pessoas de índole duvidosa. Apesar de tudo, é uma pessoa prática, mesmo que fácil de se deixar levar por sentimentos relacionados ao coração e orgulhosa, além de tudo. Ainda não se desapegou dos traços e da sua vida humana, apesar de já estar há quase sessenta anos vivenciando todos os horrores da humanidade sob uma ótica vampírica.