programada pra não parar. porque se eu parar, o gelo volta, o frio sobe, o corpo lembra. e lembrar dói mais do que viver.
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programada pra não parar. porque se eu parar, o gelo volta, o frio sobe, o corpo lembra. e lembrar dói mais do que viver.
todos somos vilões cansados procurando um escape que nunca chega
existe outro tipo de desaparecimento. ele acontece numa terça-feira e depois em outra, e depois em outra.
perdida na vontade de saciar todos os meus desejos, sigo em busca de respostas para perguntas que nunca foram feitas. trancafiada nos meus próprios erros, presa às minhas próprias necessidades que ninguém nunca enxergou. respiro com a ajuda dos mesmos aparelhos que antes tiravam o meu ar. esvazio-me de vida um pouco mais a cada dia, tentando encontrar sentido no que já não tem nome.
sou controlada por bulas de remédios que me dopam o suficiente pra que eu consiga existir, pra que eu me sinta digna de algo, de qualquer coisa que ainda pareça real, verdadeiro, sincero.
essa sou eu, uma lembrança passageira, feita pra doer e depois desaparecer, como tudo o que nunca veio pra ficar.
amar é bonito e é brutal. é nascimento e é fim.
há um vácuo em mim, como se o espaço inteiro coubesse dentro do peito. procuro no compasso de cada respiro alguma distração, um maço pra fumar, qualquer coisa que me faça esquecer por alguns minutos. busco o torpor, o meio caminho entre dormir e sumir, onde tudo parece mais fácil e nada dói tanto.
No fundo, eu temo o dia em que a culpa termine. Temo ficar limpa demais por dentro e, com isso, perder também a prova de que algo me atravessou.
Fiquei quieta. Ninguém desconfia de um silêncio.