Hablamos con... David Lima
Volvemos con otra entrevista y esta vez hablamos con nuestro querido amigo brasileño David Lima, ¡una de las personas más multidisciplinares que conocemos! Teníamos curiosidad por preguntarle sobre sus estudios, su espléndido país y las relaciones internacionales con Europa.
Una entrevista que recomendamos leer (en portugués) para todos los que estén interesados en Brasil, quizás para mudarse ahí...
Você é ator e poeta, por quê decidiu estudar relações internacionais?
Me formei em artes cênicas em 2002, aos 21 anos de idade, e desde então trabalhei em diversos lugares: de pequenos trabalhos com remuneração irrisória, até experiências internacionais bem remuneradas. Com o tempo observei que amo o teatro e as artes em geral, mas que este estilo de vida financeira instável não me agradava. Claro que como artista podemos nos desenvolver a ponto de chegarmos a um nível em que isto não seja uma realidade. Entretanto fui ficando cansado de algumas atitudes que existem no meio artístico, tanto em relação a dinheiro como entre as pessoas. Então decidi pensar em outras possibilidades de trabalho em minha vida. Sempre gostei de política, línguas, economia e achei que por conta disto estudar relações internacionais seria algo bom para mim e que também me faria feliz profissionalmente. Hoje posso dizer que o David ator é melhor porque é um cidadão mais esclarecido e este curso tem parte nisto. E sabe o quê? Quero trabalhar na área mas cheguei à conclusão que as duas coisas são compatíveis e indispensáveis para minha plenitude. Sim, serei um internacionalista e ator, porque a vida é multi, certo?
O que entendeu do mundo através dos seus estudos universitários?
Cheguei à conclusão que morrerei sendo de esquerda! (risos) Que os ideários marxistas são a resposta que este mundo falido precisa. Que a desigualdade não é algo de hoje e que a força necessária para mudar esta situação é enorme, mas aos poucos chegaremos lá. As transformações globais estão hoje em ritmo acelerado e muito disto se deve à comunicação e transportes acessíveis, o que faz com que estejamos de fato conectados. Vejo o nascimento de uma consciência global dos problemas dos seres humanos e não apenas de etnias ou países. Entretanto quando o esforço de modernidade é forte, sempre há uma reação conservadora à espreita (estamos vendo isto em diversos países desenvolvidos, o que é assustador). A história nos ensina os erros do passado que não devemos cometer outra vez. O retrocesso é possível, por isso é preciso estar atento e forte!
...todo e qualquer cidadão do mundo! Uma pessoa que diz não se interessar por política está dizendo em outras palavras que não se interessa pela vida. A política rege a vida e não se limita à partidos e eleições, vai mais além e começa em nosso coração! Nesta questão recorro ao teatro de Bertolt Brecht e seu poema: O Analfabeto Político (recomendo a leitura!) Viu como RI e teatro tem tudo a ver? (risos).
Como são atualmente as relações entre Brasil e Europa?
Desde a eleição de Lula o Brasil passou a buscar uma relação mais próxima com os países do Sul, o que em Relações Internacionais chamamos de relação Sul-Sul. Sendo assim, a relação com a Europa apesar de boa é apenas estável, sem grandes expectativas de ambos lados. A única coisa que talvez altere o cenário é o acordo comercial que o Mercosul – liderado pelo Brasil – está tentando consolidar com a UE até o fim de 2013. Os brasileiros tem uma imagem positiva dos europeus, principalmente de espanhóis, portugueses e italianos (também pudera, nossa história se mistura) e ao que parece a Europa não colhe frutos da empatia destes povos, melhor dizendo, ambos lados não se esforçam muito para isto – o que é lamentável. O Brasil possui uma ótima relação com Portugal, onde nossos artistas e cultura são valorizados e há um carinho mútuo entre os povos. Acho que Portugal deveria apresentar o Brasil de verdade aos europeus, pois como um todo a Europa ainda nos vê como uma República de Bananas. É preciso superar este clichê.
O que você acha sobre o rápido desenvolvimento dos últimos anos no Brasil?
O desenvolvimento que vem acontecendo desde o início da década de 90 mudou a realidade do país. A economia tornou-se estável, temos uma moeda em que podemos confiar (nos anos 80 foram 3 a 4 tipos de moedas diferentes, imagine a loucura!), o país está inserido no mundo global, as empresas brasileiras estão se modernizando e a questão social vem sendo enfrentada pelo governo de esquerda que ganhou as eleições em 2002 e desde então nunca mais saiu do poder. O mundo ficou eufórico com o Brasil e nós, que já adoramos euforias e festas, também. Pudera, no período tivemos queda do desemprego, crescimento econômico, descoberta de mais recursos naturais, fomos escolhidos para sediar os grandes eventos do mundo (Copa e Olimpíadas) e etc... Isto foi bom e ruim: bom porque nos deu autoconfiança de buscarmos um modelo próprio de desenvolvimento e ruim porque de alguma forma nos torna complacentes com tantos problemas ainda sem solução. Em 2012 e 2013 a economia arrefeceu, o crescimento estancou e a euforia virou cautela, o que é muito bom. Precisamos administrar tanta notícia boa e transformar expectativa em realidade. Para sermos um país desenvolvido e livre das mazelas sociais que temos hoje, vai demorar e exige muito investimento em educação, que ainda é vergonhosa (principalmente escolas públicas municipais e estaduais), mas o caminho parece promissor.
A emigração europeia ao Brasil tem aumentado nos últimos tempos, como efeito da crise econômica. Qual é o perfil deste emigrante?
O europeu que chega ao Brasil hoje é jovem (20 a 30 anos), com formação superior e muito qualificado. São principalmente oriundos de Portugal e Espanha, países mais atingidos pela crise (depois da Grécia), e os mais próximos culturalmente de nós. O país vive pleno emprego (a taxa de desemprego está em torno de 5%) e há demanda por estes profissionais, que são rapidamente absorvidos no mercado (principalmente engenheiros). A população em geral é muito receptiva com os estrangeiros. Costumo brincar e dizer que enquanto nos países desenvolvidos há xenofobia, aqui grassa a xenofilia (amor pelos estrangeiros). Se isto não for sinônimo de subserviência, eu acho ótimo. Como disse anteriormente, o mundo hoje está conectado e esta ideia de povos, países e fronteiras parece uma grande ficção. Acho que as pessoas deveriam ser livres para buscarem sua felicidade, seja onde for. O capitalismo não preza pelo mercado livre? Porque não são também livres os profissionais que sustentam este capitalismo? Dá o que pensar!
Como vê o Brasil em dez anos?
Espero ver meu país livre da criminalidade, da miséria, de criança dormindo nas ruas, de gente sendo assassinada por motivos banais. Espero ver as crianças numa escola pública de qualidade, com professores valorizados, produzindo conhecimento, transformando este país numa verdadeira democracia racial onde todos tenham a oportunidade de serem felizes e desenvolver suas potencialidades. Acho que o texto é utópico e filosófico demais, né? Mas bem, foi o que me veio à cabeça. Um país justo e bom para todos seus filhos, é o meu desejo.
...miscigenação, de mistura, de alquimia cultural, de calor e de vida. Um país com um povo sofrido, mas sobretudo cheio de esperança e alegria.
Uma palavra portuguesa que você odeia e uma que adora.
Odeio a palavra “desigualdade”, amo a palavra “saudade”.