Reflexo
A face refletida no espelho embaçado demonstra um sorriso de desdém mascarando uma expressão de dor.
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Reflexo
A face refletida no espelho embaçado demonstra um sorriso de desdém mascarando uma expressão de dor.
Ela escolheu ser perfeita, não humana. E apenas uma pessoa muito humana poderia amar você com todos esses defeitos...
Andrea D’Brabant (Húbris)
Ela não era do tipo que gostava de interagir, mas era sempre simpática e divertida quando se dirigiam a ela. Sempre chegava alguns minutos atrasada e não se importava onde se sentar. Dificilmente olhava para os lados e evitava trabalhos em grupo sempre que podia. Não era timidez. Não era um estilo, apesar de sempre estar vestida de preto. Mas parecia ter o controle de tudo, desde o momento da intriga pelo que era, até conseguir ser totalmente esquecida. Ela devia achar que era mais fácil assim.
Certo dia, ela estava estranhamente inquieta: coçava os braços incessantemente e olhava para um ponto fixo pela janela. Era como se esperasse por algo ou quisesse ir ao encontro de alguém, mas não pudesse. Fiquei com aquilo na cabeça, mas não sei dizer o motivo de ela prender a minha atenção. No intervalo, ela saiu lentamente e, como sempre, deixou o caderno aberto sobre a mesa. Não havia nada escrito, nenhum rabisco, nada. Decidi beber água no bebedouro que fica no fim do corredor e ela passou ao meu lado com as mãos no bolso. A segui com o olhar enquanto caminhava cabisbaixa.
Havia algo na sua respiração, algo extremamente familiar que não pude ignorar. Ela respirava como se quisesse chorar ou como se estivesse chorando bem baixinho, mas sua expressão era a mesma de sempre: séria e levemente cansada. Aquilo me doeu tanto, eu sabia como era chegar naquele ponto. Voltei para a sala e lá estava ela, coçando os braços com os olhos fechados. De alguma forma, ela percebeu que eu estava olhando e me encarou dando um leve sorriso. Retribui. Pensei em perguntar como estava, mas eu já sabia. Será que ela se sentia assim sempre e por isso era tão calada? Queria poder fazer alguma coisa. Olhei para seus braços e estavam com marcas avermelhadas de tanto se coçar.
Instintivamente, procurei pela minha pomada antialérgica na bolsa e me sentei ao seu lado. Puxei seu braço direito e passei a pomada até ser completamente absorvida. Ela tinha uma pele muito macia e bem quente. Passei no outro braço e ela nem piscava olhando para mim.
— É para coceira. Se continuar se coçando assim vai se machucar toda.
Terminei e passei o excesso que ficou nas minhas mãos em uma mancha em seu rosto, causada por picada de mosquito. Subitamente recobrei a consciência do que estava fazendo e levantei envergonhada por ter simplesmente chegado e feito o que fiz. A aula recomeçou e não tive coragem de olhar para ela, mas parecia estar mais calma. Fiquei aliviada por ao menos conseguir amenizar um pouco da sua agonia, mas também constrangida pela minha atitude impensada e, de certo modo, inconveniente.
A manhã acabou e eu estava esperando o ônibus para voltar para casa. Estava olhando para a estrada quando alguém tocou no meu ombro. Era ela. Pensei em perguntar se a pomada tinha ajudado, mas ela foi mais rápida e me estendeu uma rosa tão vermelha que suas bordas eram quase negras. Recebi admirada por sua beleza e sorri.
— Obrigada por cuidar de mim.
Disse e foi embora. Fiquei olhando ela percorrer seu caminho segurando a rosa e tentando entender o que estava sentindo sobre tudo aquilo. Por que estava tão feliz por ter recebido aquela rosa? Por que não queria que ela tivesse saído daquela forma? Desde quando eu passei a observá-la tanto e por qual motivo? Talvez por termos muito em comum, mas... Era mais do que isso. Naquele momento, percebi que bastava muito pouco para salvar alguém. Eu usei uma pomada. Ela usou uma rosa...
Você está acostumada a se esconder atrás dos seus sorrisos. Metodicamente me afogava em falsas promessas, querendo que eu continuasse sendo a mesma. Respira fundo, engole a dor, jamais derramaria uma única lágrima diante de mim. Violentada pelo seu silêncio, eu me sinto suja, degradada, despedaçada por um sistema que se justifica em frias palavras. Há muito de mim nas sombras que não deixam você dormir, nessa tormenta que escolheu seguir.
Andrea D’Brabant
Tenho evitado as interações sociais. Não que eu tenha a expectativa de me poupar das atitudes previsíveis de alguns insistentes vaidosos e desequilibrados, mas sim, procurado evitar que minha ira me desgaste em alguma manifestação exagerada daquilo que fui acumulando com meu silêncio. Sempre fui transparente a respeito da minha arrogância e orgulho. Hoje sou uma oradora silenciosa, não são suas palavras aleatórias e desconexas em frágeis intenções que prenderão minha atenção, conheço bem todas essas bifurcações. E caso opte por me ignorar, estará fazendo dois favores...
Andrea D'Brabant (Húbris)
Se eu pudesse sair de mim apenas por alguns instantes, gostaria de conversar francamente comigo mesma. O primeiro passo que dei em direção a resignação foi compreender que todo mundo tem exatamente aquilo que merece. O melodrama soa como o chilique de uma criança que quer vencer seus projenitores pelo cansaço, assim como orações não são nada além de barganhas insistentes. Qual o sentido em incomodar com intervenções tão pouco relevantes? É a garantia do último suspiro antes de sucumbir?
Andrea D'Brabant (Samhain)
Baixinha... Talvez por seus olhos estarem à altura dos meus lábios, goste tanto de ler atenciosamente cada um dos seus movimentos. Tímida, até tenta disfarçar, mas qualquer um percebe seu desejo. Se ela soubesse que eu também quero sempre beijá-la... Minha pequena...
Andrea D’Brabant
Eu achava que conhecia bem os seus olhos, até conseguia me ver bela refletida em seu olhar. Seus lábios eram o portal para o meu paraíso e, receosa por minhas memórias fragilizadas pelos traumas do meu passado, eternizei todo detalhe do que sentia em minhas poesias que, hoje, jazem sob as bitucas de cigarro. Hoje, ao acordar, olhei para o espelho e fiquei surpresa ao fitar meus olhos pela primeira vez depois de tanto tempo. Percebi que não era o seu olhar que me encantava, mas sim o meu, refletido no seu. Era ali que estava todo o amor que não encontrei em você. Era ali que estavam as promessas, os sonhos, a coragem. Era ali que estavam a paixão, o desejo. Estava sempre ali… Nos meus olhos e não nos seus…
Andrea D’Brabant (Húbris)