Há quanto tempo não paro para escrever, de certo, muitas vezes buscamos fugir dos nossos próprios sentimentos ou ainda, por vezes, a vida parece estar tão confusa que expressar em palavras todos os pensamentos que transbordam nossa mente parece ser algo impossível.
Mas existem momentos em que a alma precisa falar, escrever talvez seja uma forma, para mim, de colocar ou tentar colocar os pensamentos em ordem. É como ler algo que outra pessoa escreveu, afastar-se do eu lírico, interpretar o texto e a vida de outra pessoa, distante de mim mesmo, e, assim, quem sabe, consiga me dar bons conselhos.
Aliás sou ótimo com isso, aconselhar e tentar fazer com que as pessoas vejam o mundo de uma forma mais positiva, sempre a dizer que tudo ficará bem no final. Sou um otimista, no entanto, cheguei a conclusão que sou ótimo em ser otimista com próximo e melhor ainda em ser pessimista comigo mesmo. Será que eu não deveria me tratar um pouco melhor ou ao menos ser um pouco mais gentil comigo mesmo, dar a mim a esperança de um final feliz?
O texto a seguir pode parecer um conjunto de pensamentos desconexos que talvez só façam sentido na minha cabeça, são tantas reflexões que se entrelaçam em minha mente que fica difícil decidir o ponto de partida. Mas deixemos surgir este ponto, tomando como base uma citação do físico e cosmólogo britânico Stephen Hawking e também um conceito extremante explorado na indústria cinematográfica atual, o multiverso.
De acordo com Hawking "A ciência prevê que muitos tipos diferentes de universo serão criados espontaneamente a partir do nada. É questão de acaso em qual deles estamos.”. Cientificamente falando e considerando a realidade e não a ficção vista nos filmes, não estamos falando sobre a existência de universos paralelos que coexistem, mas em algo mais profundo, nossas próprias escolhas.
Como dito por Cecília Meireles "Somos livres, e este é o inferno”. A cada dia, a cada momento, a cada segundo, cada tomada de decisão, cada escolha, cada caminho que decidimos trilhar, nasce um novo universo, uma nova linha do tempo.
Uma decisão quase imperceptível abre um universo e fecha outro, é a base da Teoria do Caos e do conceito do efeito borboleta, que diz que pequenas ações podem gerar grandes consequências ao longo do tempo, como o bater de asas de uma borboleta em um lugar, que por mais que pareça ínfimo pode causar drásticas consequências afinal.
São pessoas, viagens, paixões, histórias, lugares, vidas que passamos a viver e vidas que deixamos de viver, são versões de nós que criamos a todo instante, bem como versões que poderiam ter existido mas que ficaram para trás, tudo por conta de grandes ou mesmo pequenas escolhas.
Como uma tela em branco ou um livro com páginas vazias, nossas escolhas escrevem silenciosamente o futuro que estamos prestes a viver e, assim, ao poucos vamos desenhando e escrevendo os espaços em branco, os enredos da nossa história, da mesma forma que impedimos que outros livros sejam escritos, outros quadros sejam pintados, interrompendo e rompendo o surgimento de uma linha temporal, onde a história correria diferente àquela que escolhemos viver, como um filme que nunca vamos assistir.
E, no que diz respeito ao cinema, apesar de ser um amante da sétima arte e por muito ter visto a vida da mesma forma como via nas telas, quando se amadurece descobre-se que a realidade é mais fria, dura e crua que uma narrativa cinematográfica. Não há heróis e vilões, reviravoltas mirabolantes, comédias forçadas e, na maior parte das vezes, os finais felizes estão mais distantes do que podemos alcançar.
No entanto, como a máxima que diz que a vida imita a arte, há de se encontrar semelhanças entre as duas. Reconheçamos que a arte não é feita apenas de vitórias, histórias românticas e finais felizes, comédias que arrancam risos fáceis, efeitos especiais e heróis que sempre salvam o mundo no final de cada filme.
Assim como na vida, no cinema existe o drama, a tristeza, o conflito, não apenas o encanto e a magia; faz-se necessário também as rachaduras, as tempestades, as tragédias, filmes estes que nos tocam, emocionam, nos levam à reflexão e à identificação de quem somos e de como a vida se desenha fora das telas, cheia de imperfeições, mas real.
Sim é preciso a comédia, o heroísmo, as vitórias, porque também fazem parte da vida, mas não existe vida sem tragédias para serem contadas e, ainda que triste, tanto no cinema, quanto na realidade, a vida não deixa de ter sua beleza.
A vida real é feita de decisões e consequências que somos obrigados a carregar como fardos das nossas próprias escolhas. O que nos resta apenas é torcer para tomar as decisões certas e principalmente que nossas escolhas não machuquem o próximo. Mas como humanos que somos, erramos, e como humanos que somos também podemos usar nossos erros para nos tornar pessoas melhores.
E é assim, no meio de todas essas escolhas tomadas diariamente e nas histórias que criamos para nós mesmos, que hoje estou convicto que não é necessário morrer para reviver novamente.
Apesar de ter a doutrina espírita como base religiosa, ou forma de ver a vida, apesar de acreditar em reencarnação, aprendi por experiência própria que é possível em uma mesma encarnação viver tantas vidas e ser vários sem deixar de ser quem realmente somos, criando, quem sabe um multiverso, onde em um lugar só coexistiram diversas versões de nós mesmos.
Mas, independente de quem fomos ou de quem seremos, o que mais importa é o que carregamos na alma e na nossa essência. O tempo e as decisões nos transformam sem pedir permissão, descobrimos então que somos processo e não forma e, assim, chegamos talvez ao motivo de estarmos aqui e mais, talvez o sentido da vida, evoluir.
Entre erros e acertos, decisões, escolhas, caminhos tomados, cada um deles traz consigo um aprendizado, que tenhamos a paciência e abracemos o aprendizado, que vejamos nossos erros e sejamos melhores que fomos ontem. A liberdade, bem usada, não é um inferno, como disse Clarisse, é uma dádiva, uma oportunidade a cada nascer do sol, de ser melhores com próximo e, principalmente com nós mesmos.
É clichê dizer, mas é indiscutível, decisões decidem destinos "Luciana Pellegrini de Almeida", sejamos, assim, maduros, estejamos convictos em cada micro escolha que fizermos, que criam por si só novos mundos e novas histórias, e talvez, bem talvez, possamos construir o rumo de nossas histórias, sejamos donos da nossa liberdade e criemos nossa própria linha do tempo, uma que seja resultado de escolhas certas e nos leve à um final de paz.
Texto escrito por: Gabriel Moreira G. D. e Silva