Pelo vidro da porta eu consigo ver ele sentado no chão, encostado na parede, chorando um choro agonizante e gritando tão alto que é possível ouvir atravéz da sala acolchoada. O desespero dele é tanto que eu consigo ver a camisa de força se afrouxando com cada puxão que ele dá, não seria a primeira vez que teriam que aperta-la de novo, e não seria a primeira vez que ele deslocaria o ombro fazendo isso.
Essa cena horrenda é demais para mim, poucos segundos são suficiente pra me fazer virar o rosto horrorizada.
"Nós sabemos que não é fácil, mas precisamos de toda ajuda possível" diz o detetive para mim enquanto segura um bloco de notas numa mão e uma caneta na outra. O médico do lado dele me encara com um olhar crítico, como se eu fosse a culpada por essa situação.
Eu explico novamente que eu não vejo meu irmão tem mais ou menos dois anos, desde que me mudei para outra cidade por causa do meu emprego, não que eles aceitem essa minha versão de qualquer forma.
"A senhorita tem que entender que o Sr.John foi visto muito bem até dois dias atrás, a senhorita sabe pelo menos de algo que pode ter causado um trauma tão grande?"
Eu me limito a negar com a cabeça, deixando explícita minha tristeza.
O detetive, com uma expressão insatisfeita fecha o bloco de notas fazendo vento na minha face, é o guarda no bolso. Eu não resisto a dar uma última olhada em meu irmão antes de sair daquele lugar, o sentimento de impotência e culpa me preenchem por um momento, eu sempre fui uma pessoa racional, eu sei que eu não tenho culpa de algo tão horrível a ponto dele perder sua sanidade ter acontecido com ele, mas ainda assim os pensamentos de "se eu estivesse com ele" me preenchem de culpa. Eu sempre fui a que protetora dela, desde nossa infância, em situações adversas, eu sempre estive do lado dele quando ele precisou, ele sempre me chamava, sempre me contava tudo... E de todas as vezes, por que justo nessa eu não estava perto? Justo nessa eu não fui chamada...
Eu caminho pela porta da frente enquanto tento tirar esses pensamentos de minha cabeça e pensar direito por uma vez em muito tempo. Está ficando tarde... Por mais que eu deteste a ideia, eu não tenho outro lugar pra ficar senão a casa dele. Eu sei que minha presença não vai ser bem aceita lá, mas pelo menos elas não vão me recusar.
Eu toco a campainha, e assim que a porta se abre eu consigo ver em poucos segundos a expressão da esposa dele partindo de uma esperança invejável quando ela abre a porta firmemente, pra um desânimo digno de pena quando ela vê que é apenas eu.
- Olá Margareth. - eu digo com o tom mais condenscendente que eu consigo forçar para ela.
- Olá Ana... Não é uma boa hora, e meu marido não está.
- Eu estou ciente, eu vim a cidade só por causa dele, a polícia me ligou... Única parente viva, sabe?
- Sei... - Ela diz conforme a voz dela soa mais triste que o habitual.
Eu não a culpo por isso, afinal é uma perda enorme.
- Margareth, está ficando tarde, se importa se eu ficar na casa de meu irmão até amanhã? Eu juro que eu acordo cedo pra pegar o primeiro trem e sair daqui.
- Não diria que é uma boa hora, não tem algum hotel que você possa ficar?
Eu me permito ir entrando. Nunca foi segredo que Margareth e eu não nos damos bem, e sem meu irmão por perto, eu não me sinto na obrigação de forçar uma mentira..
"Eu não vou incomodar" digo eu enquanto me desfaço do meu casaco e Margareth aceitando de cabeça baixa como sempre, voltou a cozinha pra cortar a carne, nunca gostei dela, mas admito que a comida dela sempre foi das melhores.
Olhando em volta eu vejo a casa de sempre, pequena porém aconchegante, a mesma velha tv de tubo com a estática fazendo mais som que os auto falantes. A decoração me incomoda um pouco pelas cores e o estilo decó que parece que todos adotaram nos últimos anos. Das cortinas estampadas, passando pelo relógio de parede, até o sofá azul que eu sei que é aonde eu vou dormir.
Encarando esse cenário de cores vibrantes eu não posso deixar de pensar que uma presença mais vívida faz falta pra ornar com esse ambiente, essa presença no caso seria meu irmão... Ou...
"Onde está Milly? No quarto dela? Me deu saudade da minha sobrinha favorita" - Disse eu tentando amenizar o clima pesado que estava naquela casa.
Um corte mais forte na tábua de carne causa um silêncio na casa por alguns segundos, e em seguida eu ouço a voz de Margareth da cozinha, dizendo "Ela está na casa de uma coleguinha.".
- Você deixou ela dormir fora num momento como esse?
- Eu não queria ela perto de mim enquanto eu tô com tudo isso na cabeça, ela ficava fazendo perguntas, e eu não acho que ela precisa saber da verdade por enquanto... Quem sabe... Quem... Quem sabe ele melhore... Ela não precisa desse estresse - da sala eu consigo ouvir o choro invadindo a voz dela, talvez eu tenha passado dos limites com as minhas perguntas, eu vou até a cozinha para pedir desculpas e tentar consolar ela.
Ao passar pela porta eu me assusto com um grito desesperado que diz "FIQUE AI, NÃO SE APROXIME", Eu vejo Margareth levantando uma faca na minha direção, e eu lado no mesmo lugar, levantando ambas as mãos como quem tenta provar que está sem más intenções.
- NÃO VENHA AQUI! VOLTE PRA SALA.
Eu recuo lentamente, mas ao invés de ir pra sala eu vou até o quarto da Milly. Algo me preocupa, talvez um sentimento ruim qualquer, ou eu só estou sendo paranóica... Por mais que eu seja forte pra esse tipo de coisa e não transpareça muito, a cena do meu irmão em choque não sai da minha cabeça, talvez isso esteja me afetando... Em todo caso eu, com passos leves, vou até o quarto de minha sobrinha e, está tudo completamente bagunçado, não me surpreende, uma garota de 7 anos não é o ser mais organizado do mundo, Milly principalmente sempre foi bagunceira.
Adentrado o quarto eu começo a observar ao redor, tirando os brinquedos espalhados, algo não está certo... As cobertas dela estão estiradas entre o chão e a cama, como se ela tivesse sido srrancada, o carpete tem marcas estranhas, e as paredes tem desenhos que variam de casinhas com sois, coisas que ela desenhava normalmente, até símbolos que eu nunca havia visto. Eu me aproximo de um dos símbolos pra ver se eu consigo identificar, e conforme eu vou chegando mais parte...
"Você não deveria entrar aqui"
Eu me viro assustada e encontro Margareth parada na porta com a faca ensanguentada na mão.
"Eu já vou sair, eu vim apenas ver se ela ainda era bagunceira, hahaha"
Eu falo tentando forçar uma leve,a na voz que nem o ar naquele momento dispõe. Margareth me encara com olhos vazios por alguns segundos, é quase como se ela estivesse morta, e em uma piscada eles voltam ao normal e ela simplesmente diz "o jantar vai estar pronto logo, vai querer comer?"
Eu me limito a ascenar com a cabeça enquanto vou andando atrás dela com as pernas tremendo, a tensão no ar tinha sido tamanha a ponto de que até o meus pulmões se sentiam pesados.
O resto da estadia foi quieta. Eu não me senti a vontade pra falar mais nada, eu só queria que o tempo passasse e eu pudesse sair logo dali. Margareth também não estava muito pra conversa, não a culpo, o máximo que ela se dispôs a falar foi uma pergunta sobre o sabor da comida, a qual eu respondi com "deliciosa, como sempre", o que realmente estava, apesar de ela mal ter tocado na comida. 90% do prato dela estava intacto.
Eu me ofereci pra lavar a louça, ela aceitou acenando a cabeça, a atmosfera de silêncio e tensão estavam começando a me afetar de uma forma horrível... Deus que me perdoe mas em alguns momentos eu cheguei a cogitar a hipótese de que os trejeitos estranhos de Margareth tenham feito aquilo com meu irmão. Um pensamento de acusação muito grave pra uma pessoa como ela que estava tão "de luto" quanto eu. Ainda assim eu me sentia inquieta, enquanto lavava a louça, não resisti a pegar uma das facas e esconder comigo por debaixo das roupas, não que fosse fazer grande diferença, mas eu me senti mais segura com aquele objeto.
O silêncio ainda reinava absoluto, quando eu fiz menção de querer dormir. Pelo menos dormindo eu não teria que encarar meus pensamentos sobre meu irmão, sobre ela, sobre tudo... Eu só queria ver a luz do sol novamente. Eu sentia que aquilo seria o que me libertária de um pesadelo interminável que se passava dentro da minha mente.
Coloquei a faca embaixo do travesseiro sem ela ver, e tentei dormir da melhor forma que eu pude naquele sofá de couro azul.
Meus olhos se abrem abruptamente como num susto, eu ouço um som na casa, como algo caindo. Foi rápido, agora tudo que eu ouço é o barulho incessante do relógio de parede. Eu ouço sons ao longe como se eu pudesse ouvir uma faca afiada corta do atraves de carne fresca, e começo a me levantar tirando a faca debaixo do travesseiro. Eu me esgueiro pela casa, seguindo os sons que eu ouço, no geral eu estou preocupada com Margareth, talvez um ladrão ou um assassino tenha entrado, eu passo pelo quarto dela e bato na porta de leve pra não chamar atenção de seja lá quem estiver na casa, nenhuma resposta me é dada, preocupada, eu abro a porta, e... Margareth não está no quarto. Mas o que se encontra lá é um cenário digno de histórias de terror, as paredes e o teto cobertos de desenhos e símbolos, todos idênticos a aquele que eu vi no quarto de Milly, os móveis também rabiscados e engravados com faca. O único ponto do quarto que estava limpo dos símbolos, se destacando do resto, era a cama do casal, que em uma metade se encontrava limpa e arrumada, com um travesseiro perfeitamente afogado e uma fronha nova. E a outra metade estava com o colchão rasgado como se alguém tivesse esfaqueado ele diversas vezes, o travesseiro jogado no chão e as cobertas também largadas entre a cama e o chão, como se tivessem arrastado alguém pra fora da cama. Eu ouço passos vindo das escadas do porão, alguém descendo... Eu pego minha faca, única dona que eu tenho e vou indo para lá também, eu não sei exatamente o que me move, mas parece uma força além dos meus pensamentos, a lógica que me moveu durante a vida toda me diz para voltar e sair desse local, porém um impulso me coloca na direção do que eu sei que não vai ser um final feliz pra minha noite.
Os corredores parecem me engolir conforme eu vou andando, o silêncio é útil e cruel como um anjo vingativo adornado pela ira de Deus, eu sinto que se não fosse por ele eu já teria sido encontrada, mas ele também me deixa um pouco mais insana com cada minuto que eu passo com ele.
Chego na porta do porão, entre aberta pra minha surpresa, em todas as visitas que eu fiz a essa casa eu nunca vi ninguém entrando aqui, e nunca vi a porta sequer aberta. Nunca guardaram nada aqui, nunca usaram pra nada. Era uma piada recorrente na família sobre como aquilo era um desperdício. Eu empurro a porta que abre sem fazer um som sequer, eu desço as escadas da forma mais silenciosa que eu posso com meus passos tremendo, minha mão segurando a faca também treme apontando-a para frente como uma espada de esgrima de uma forma ridícula.
Conforme eu me aproximo os sons de carne sendo cortada se cessam, e dão lugar ao som nítido de mastigação, eu curvo minha cabeça pra tentar ver algo mais abaixo na escada, e a minha visão não poderia ser mais perturbadora...
As paredes, o chão, o teto... Estavam cobertas com o mesmo símbolo, uma cor vermelha forte que escorria de cada desenho formando um cenário horrendo e que fedia com o cheiro pútrido de sangue. Ajoelhada em cima de um dos símbolos, este desenhado de forma maior no fundo da sala, virada pra parede, estava Margareth com ambas as mãos levadas ao rosto. E na parede na frente dela, estava Milly, com ambas as mãos acorrentadas, suspendendo ela do chão, ela estava completamente nua, seus seios juvenis cobertos em sangue e seu rosto pálido destacava seus olhos ainda abertos, do abdômen para baixo tudo que se encontravam eram víceras entranhas que escorriam de dentro da garota para as mãos da mãe.
Eu não estava preparada pra tamanha cena, eu vomitei inesperadamente, meu estômago revirou muito rápido, o som claramente chamou a atenção de Margareth que, quando eu voltei minha atenção para ela, estava correndo em minha direção, de quatro como alguma espécie de animal, seu vestido de bolinhas encharcado de sangue da própria filha fazia um som nojento conforme ela se movimentava, eu apontei a faca para ela conforme ela pulou em minha direção, eu fechei meus olhos e virei minha cabeça instintivamente como se quisesse ser levada para fora dali... E...
Tudo acabou, Tão rápido quanto a sucessão de acontecimentos tomaram lugar em minha mente, eu vi o mundo se tornar um local frio e horrível diante dos meus olhos, eu estava consciente quando meu corpo foi jogado em um dos glyphos no chão, e eu ainda estou consciente até agora...
O grito de horror das pessoas que correm pelas ruas não me surpreende nenhum pouco, diante do terror constante que elas se encontram, tendo que nos ver perambular por ai.
Minha respiração é pesada, e meus pés doem, é uma sensação horrível, eu tenho plena noção dos meus arredores e tenho todos os sentidos sob meu corpo, porém nenhum controle, eu consigo observar minhas mãos, agora retorcidas e vermelhas com o sangue dos inocentes que eu matei, sendo usadas como patas e armas, eu consigo sentir a dor delas por ter que usar minha pele fina contra o chão áspero e consigo ver as dilacerações que vieram em decorrência disso. Eu consigo ver e ouvir o desespero de cada uma das vítimas que esse ser que agora divide meu corpo comigo me obrigou a matar e eu consigo sentir a carne deles passando pela minha garganta cada vez que eu sou obrigado a comer uma parte de alguém e a cada poça que se passa na rua eu sou obrigado a encarar a face vermelha que aponta todos os pecados que eu fui obrigada a cometer, junto com os olhos sem vida que habitam meu rosto.
É uma solidão vazia e sem sentido, apenas observar enquanto a matança ocorre e o mundo se desfaz ao meu redor, sem controle de onde eu vou ou o que eu faço, porém sendo fadada ao castigo de vivenciar... Eu me deixo levar pela melancolia enquanto meu corpo retorcido e desnudo se arrasta pelas ruas com a calma de quem venceu uma guerra, a criatura vira levemente a minha cabeça, de modo a ver um dos últimos seres humanos ser devorado, bem na minha frente. A cidade agora está tomada, com a visão periférica é possível ver que todos os
Eu continuo me deixando levar, sem controle, e a criatura passa das estradas asfaltadas para uma estrada de terra... E o desespero que havia me abandonado no momento que eu aceitei a derrota da humanidade retorna abruptamente, quando ao longe, pelos olhos da criatura que agora habita meu corpo, eu consigo ver o manicômio no qual meu irmão se encontra.
Sempre foi difícil algo me atingir, mas o simples pensamento do que aquela criatura queria que eu fizesse foi suficiente para eu me desesperar.
Meu corpo, como uma casca vazia, adentra as portas do hospital, e se dirige lentamente até o quarto de meu irmão. Eu grito e luto o máximo que posso, e eu percebo naquele momento que eu estou vivenciando o verdadeiro inferno, se passando dentro de meu próprio corpo, a agonia que eu sinto por querer gritar e não ter uma voz, querer fugir mas não ter pernas, querer lutar mas não ter corpo, é uma das piores torturas que alguém poderia ser submetido.
Sem escolha, eu apenas sou obrigado a ver atravéz de meus olhos possuídos, conforme a criatura se caminha pelos corredores do manicômio, completamente destruído, com algumas daquelas runas pintadas nas paredes e sangue por todos os corredores.
Ela chega diretamente ao quarto do meu irmão, e se apoia na porta como um cão, para que eu possa ter uma olhada da cela adentro... Me dói ver ele assim...
Parece que nada se passou dentro daquela cela acolchoada, os mesmos gritos de um mês atrás, o mesmo choro, o ombro claramente deslocado, onde ninguém pôde vir ajeitar pra ele... Eu sinto pena do meu irmão, e o desespero aumenta quando eu volto a mim e lembro que não sou mais eu observando através do vidro.
Minha voz não se faz ouvir, conforme a criatura volta pro chão e eu consigo sentir um sorriso em meus lábios incontrolados, a porta é aberta com pura força bruta da qual eu nunca dispus, e em alguns segundos, eu consigo ouvir os gritos de terror de meu irmão com força total, sua voz rouca e falha de tanto gritar, mas ainda com a mesma força nos pulmões, mesmo cansados. Sua face vermelha do choro... Esse tipo de coisa não transparece pelo vidro, eu sinto muito meu irmão, eu não queria ter que ver você assim...
Eu me aproximo, o desespero aumenta, eu não quero isso, EU NÃO QUERO ISSO, POR FAVOR, NÃO ME OBRIGUE. Meu irmão olha para mim ainda em desespero, e entre gritos ele consegue dizer uma única frase em tom normal: "Ana, você voltou, vamos sair daqui.".
E eu choro incontroladamente enquanto dentro de meu próprio corpo eu imploro a Deus pela morte antes que o ato que estou prestes a cumprir seja feito. Eu vejo a expressão de desespero do meu irmão mudar para uma alegria genuína conforme ele me vê, a sanidade dele não permite ver a aparência decrepta, nua e retorcida que meu corpo se encontra. Meus olhos sem vida encaram um sorriso sincero que ele me dá, e com as poucas forças nas pernas que ele tem, ele se empurra no chão em direção a mim.
A criatura não ataca de vez, ela encara ele, chorando aos meus pés de felicidade e alívio, os gritos finalmente cessaram, ela me deixa aproveitar essa felicidade por poucos minutos, antes de mover o que um dia já foi minha mão até ele, e me obrigar a ouvir os gritos de terror retornando conforme eu sinto minhas próprias mãos segurando lentamente o rosto do meu irmão, que por um breve momento me encarando, finalmente percebe que não sou mais eu e volta a chorar desesperadamente em terror puro.
Eu choro de volta, de dentro de mim. Minhas mãos apertam e eu consigo ver a expressão de dor dele me encarando, eu sinto meus dedos percorrendo a cabeça dele conforme ele implora para eu parar.
Eu não aguento mais isso, eu imploro pela morte, eu imploro por qualquer tipo de fuga daquela realidade, eu não quero mais ter que viver.
Meus dedos perfuram a cabeça de meu irmão e o barulho de sua pele sendo perfurada e o sangue esguichando cortam a sala atravéz dos gritos dele, e sem mais pausas para encarar o terror nos olhos dele, a cabeça é trazida até minha boca, e eu sou obrigada a sentir, cada detalhe daquele ritual maldito, o crânio e os cabelos de meu irmão sendo partidos por minha mandíbula alongada e mutada, os últimos gritos de terror dele antes de sua vida o abandonar por completo. Eu sinto sua carne descer lentamente pela minha garganta enquanto eu choro em desespero dentro de mim mesma, obrigada a vivenciar uma realidade pior do que o inferno que eu temi durante toda minha vida. Eu sinto ânsia de vômito, porém meu corpo não pertence mais a mim, e simplesmente continua comendo, com requintes de crueldade, como se a criatura que se apoderou de meu corpo estivesse gostando de me mostrar como eu estava comendo o cadáver de meu próprio irmão.
Uma última mordida... E a carcaça dele foi deixada de lado...
Meu corpo parado em frente aos restos mortais do meu falecido irmão, sua camisa de força rasgada, o topo de seu crânio aberto, seu estômago aberto...
O gosto de sua carne ainda em minha boca... Uma voz, grave e rouca, um pouco distorcida como se mais de uma voz falasse ao mesmo tempo, porém audível suficiente, é ouvida por mim.
"Agora você pode morrer, vá ao inferno, e leve a palavra a todos de lá, que o sofrimento que os espera fora do inferno é bem pior."
E como um piscar de olhos, eu me vi livre daquela realidade, e pude finalmente encontrar um lugar melhor, onde eu poderia respirar... No verdadeiro inferno.