Último Desafio - Giovanna, Distrito 10. Desafio 9, parte 2
Eu caminhava pela floresta já cansada. Andei durante o dia todo sem uma pausa. Já era noite e pensei que finalmente poderia descansar. Só pensei.
De repente o hino da capital começa a tocar e então alguns dizeres aparecem no céu. “Sorteio dos mortos" E então a foto de Kate aparece. Sinto um aperto no coração.
Pare! Você vai vencer não chorar! Eu vou vencer não chorar.
O céu escurece mais e ouve-se os trovões. “Ah não! Chuva agora não!" Não queria dormir na chuva, ficaria mais frio e me daria mais fome. Eu não tenho nada para comer. Por fim a chuva não vem, mas algo pior acontece.
Uma pedra relativamente grande cai perto de meu pé. A observo bem. Fumaça sai dela. O que é isso?! Logo outra pedra cai. E outra, e outra. Quando percebo pedras flamejantes chovem por toda arena. Isso não são pedras, são… Meteoros. Meteoros? Sério?!
Primeiro Kate, agora os meteoros. Além da fome e cansaço. A chuva fica cada vez mais forte e sou atingida por algumas pequenas pedras. Devo correr. Correr sem rumo novamente, na última vez encontrei Kate. Pode acontecer algo bom de novo.
Sinto meu ombro queimar. Droga! Um meteoro me atingiu. Só sinto a queimadura no começo, mas depois vira uma dor insuportável. Nunca senti tanta dor, e aos poucos vou perdendo as minhas forças. Tudo o que eu quero é chorar. Chorar e balançar para frente e para trás encolhida num canto enquanto essa chuva não acaba. Meu mundo está caindo, mas não posso deixar isso acontecer. A dor insuportável parece que nunca vai acabar. Parece que vai me vencer. E isso tudo é culpa minha. Talvez se eu não tivesse dado todo aquele show antes de chegar aqui eu estaria nos braços de Annabeth agora, me protegendo. Talvez se eu tivesse encontrado Nicolle no banho de sangue ela estaria viva e Kate também. E então nada disso estaria acontecendo. Seríamos três garotas vivas. Agora somos duas garotas mortas, enquanto uma caminha para perto das outras.
Mas que droga, Giovanna! Deixa de ser fracote!
- Eu não consigo. Desculpa. Mas por que é tão difícil cumprir uma promessa? - Sussurro para mim mesma.
E a dor não para. Continuo correndo, desviando das árvores, até que algo extraordinário acontece. A dor para. Olho para meu ombro há um ferimento enorme, mas não sinto nada. Será que acabou? A chuva continua acontecendo. Olho para os lados, algumas árvores pegam fogo. Apoio o braço na árvore a minha frente, em seguida a cabeça. Minha respiração está ofegante, mas nada de lágrimas. Sinto o fogo em contato com meu braço bom. Minha árvore pega fogo. Distancio-me dela e ouço um barulho, algo como um galho quebrando. Ele cai. Bem em cima do braço machucado.
A dor é sufocante. Um simples movimento, e sinto que meu braço vai cair. E agora? Volto a correr. Corro muito rápido e tento fingir que não sinto esta dor. O simples toque do vento já me faz mal. Continuo correndo. Minhas pernas doem, mas tenho que aguentar. A vontade de chorar não passa, mas as lagrimas não chegam.
Fugir não é boa ideia. Está chovendo em toda arena, e não seria tão fácil assim. Enquanto corro encontro um meteoro enorme. Acho que ele equivale ao quíntuplo de mim, em todos os sentidos.
E agora, sua idiota?! É tudo culpa sua! Dá seu jeito!
O meteoro é gigantesco e está fazendo com que todas as árvores a sua volta peguem fogo. Até contornar tudo é possível que alguém me encontre. E é tudo culpa minha.
Quando mudo minha direção para contornar o meteoro, algo milagroso acontece. A chuva para, as chamas se vão e o caminho fica livre novamente. A capital só quer brincar conosco, como sempre fez e sempre fará. Tudo bem vamos jogar seu jogo.
x
Em cima de uma árvore descanso. Estaria dormindo se toda essa fome permitisse. É pior que a fome dos últimos dias, bem pior. E o que me faz ficar mais brava é o fato de eu não conseguir cumprir uma promessa. Toda vez é a mesma coisa, eu enfraqueço e prometo ser forte e esquecer tudo, e nada disso acontece. Sempre vai ter algo pronto para me derrubar, sempre. Seria mais fácil permanecer no chão.
E agora? Cadê a garota que matou a carreirista? Cadê a garota determinada a vencer essa guerra? Se eu tivesse ao menos uma coisa que me motivasse a seguir em frente, mas é como se eu estivesse morta. É como na música.
E ninguém vai te salvar agora.
Okay. Parece que não estou mais sozinha.
Ouço um barulho como um apito, cada vez mais perto de mim. Eu conheço esse barulho. É o barulho dos paraquedas com dádivas. Parece que sobreviver não foi má ideia.
Abro ansiosamente a caixa de metal presa a um pequeno paraquedas. Eu nem tive de levantar, ela simplesmente pousou em meu colo. Há um recado dentro:
“Boa sorte, anjo.”
Uma única palavra se forma em meus lábios: Cássia. Como ela conseguiu? Quem apostaria na pirralha loira?
- Quem liga?! - Solto uma risada.
Dentro da caixa de metal há um pote. Ele está meio quente. Abro-o com cuidado, não quero quebrá-lo ou deixá-lo cair. Imediatamente sinto o maravilhoso cheiro de comida. É sopa e ela está quentinha.
- Graças a Deus. - Digo olhando para cima e sorrindo, mas então lembro que o céu oferecido pela Capital é artificial.
Meu sorriso se desmancha. Volto minha atenção para a sopa. Pego a colher no fundo da caixa de metal e provo a sopa. Está deliciosa. Nunca comi uma sopa assim antes, é melhor que tudo o que já me serviram no Distrito dez. É perfeito.
À medida que vou digerindo a sopa, sinto a quentura passando por cada órgão e meu corpo vai esquentando. Seria realmente muito bom se eu tivesse um cobertor ou algo do tipo, mas não tenho. Aliás… Do que estou reclamando?! Eu tenho comida! Comida quente! Eu consegui! Eu não só sobrevivi como também conquistei o publico! Isso é maravilhoso!
Finalmente encontrei o que eu precisava para me motivar. Agora tenho certeza que vai valer a pena seguir em frente.
x
Ergo a cabeça um tanto confusa. O que está havendo? Que barulho foi esse?! Olho para baixo em procura de algo. De acordo com minha visão é um amontoado de galhos. Aquilo pode ser qualquer coisa, desde rastros de um animal qualquer até uma armadilha feita por um inimigo. Torço para que seja a primeira opção.
Desço para conferir, mantendo uma distancia segura. Não toco em nada, apenas observo. Ouço mais barulho de galhos misturado com algumas folhas, algo como alguém pesado pisando. Imediatamente me agarro à árvore e subo o mais rapidamente que posso, retornando ao galho em que dormi junto à sobra de minha sopa e meu precioso estojo de facas. Piso com o calcanhar, preparada para sentar, e sinto algo incômodo em minha bota. Tiro-a e encontro uma pedra. Como não notei uma pedra deste tamanho em meu sapato antes? Isso é... Perfeito.
Pego a pedra e deixo a bota de lado. Miro bem em direção a possível armadilha e atiro a pedra. Observo bem um dos galhos se mexendo e se cravando no chão enquanto a pedra voa longe. Decido descer e procurar por meu inimigo.
Ando envolta da armadilha procurando provas e não encontro nada. Dou a volta na árvore e nada novamente. Ouço outro barulho de galhos se quebrando. Seja quem for, está montando várias armadilhas pelas redondezas.
Tudo bem Giovanna. É hora de mostrar quem você se tornou. Não tenha medo, acredite em si mesma.
- Quem está aí? - Falo alto o suficiente para que me escutem. – Eu disse: QUEM ESTÁ AÍ? – Grito desta vez.
- Seu assassino. – É uma voz masculina, familiar.
Bright? Não, ele está do outro lado do rio com Annabeth e Ruby. E ele nunca me machucaria, ele me salvou na noite da festa, quando Lola tentou me embebedar.
- Precisa de mais dicas, criança? – A mesma voz. Parece que só tenho um a matar.
- Não preciso de dicas. – Digo com a voz firme. – Sabendo ou não quem é, de hoje você não passa.
- Você quis dizer o contrario, certo criança?
Sinto suas mãos em meu pescoço. É um garoto bem mais velho e forte do que eu.
- Me solta! – Consigo gritar.
- Fácil assim? Já está perdendo o ar? – Sua voz é irônica. – Ótimo, assim me poupa tempo.
E agora, Giovanna?! Eu disse que era inútil! Você vai...
Antes que meu subconsciente termine a frase dou meu primeiro golpe da luta. Um chute traseiro nas partes baixas do garoto. Imediatamente suas mãos largam meu pescoço e vão até o lugar machucado. Recupero o ar o mais rápido que posso e continuo a lutar.
Uso alguns poucos segundos de vantagem para conferir se ele tem alguma arma. Não sei se vi direito, mas parece que não. Dou outro chute, desta vez na barriga. Ele estava prestes a se levantar. Enquanto ele se contorce de olhos fechados dou outro chute, agora na cabeça.
Beleza, tenho alguma vantagem. Levo minha mão direita a cintura para pegar uma faca, e só então me dou conta de que deixei o estojo na árvore. Droga! Quando me preparo para subir na árvore suas mãos grandes e brutas me puxam para baixo. Ele me empurra contra a árvore com força. O impacto faz com que eu perca um pouco de ar. Começo a me debater, não vou desistir assim tão fácil.
- Me – Pauso para respirar. – Solte!
Ele me segura e me joga novamente contra a árvore, e novamente perco o ar.
- Não. – Ele está brincando comigo.
Ele pensa que é fácil, que logo cairei dura aqui mesmo e ele seguirá em frente, mas não é bem assim. Respiro fundo, tentando me acalmar. Encaro-o nos olhos. Eu conheço esses olhos. São os olhos do mesmo cara que riu de mim quando corri chorando no baile, quando sua namorada armou para mim, Lola. Ele é Leo O’connor, carreirista do distrito um. Isso explica seu enorme ego. Será que ele sabe que eu matei sua namoradinha? Vamos descobrir...
- Bem Leo – Limpo a garganta. – Você me achou, parabéns. Agora já pode se vingar.
- Vingar Lola. – Ele aperta meus ombros com força e sinto a pressão contra meu ombro machucado. – E terminar o trabalho incompleto dela.
- Boa sorte. – Sorrio para uma árvore distante. – Por que minha ajuda vem vindo.
Leo olha para trás para checar minha ajuda. Carreiristas são tão tolos! Viro de costas e subo na árvore. Avisto uma faca na beirada do estojo, quase caindo. A pego.
Desço com a faca e encaro Leo de longe com um sorriso maníaco. Ele olha a faca e sua raiva apenas aumenta. Confiro a faca de rabo de olho de vejo uma mancha de sangue seco. Foi a faca que usei em Lola. Sorrio.
Corro em direção a Leo e ele a minha. Pulo encima do carreirista com toda a força, o derrubando. Tento acertar seu pescoço e acabar logo com isso, mas erro. Grito de frustração. Nesse meio tempo Leo vira o jogo e tenta me enforcar... De novo. Tento chutá-lo, mas minhas pernas foram presas. Enquanto isso o ar vai escapando de meu pulmão. Tento acertá-lo com a faca pela lateral do corpo, sem sucesso. Distraio-me um pouco com a careta demoníaca de Leo e quando volto a mim mesma percebo que a faca não está mais aqui. Olho para trás e a vejo cravada no chão. Leo tenta pegá-la, ele está quase lá. O que eu faço agora?!
Sinto a mesma corrente elétrica que senti quando Carter jogou o machado em Ruby. Faço algum tipo de rosnado e mordo Leo como nunca mordi alguém antes. O ar que antes escapava, agora é puxado de volta. Continuo mordendo com toda força até sentir o gosto de sangue.
- Me solta cachorra! – Grita Leo.
Pobre Leo. Há um ferimento enorme em seu pescoço, da onde jorra sangue. Ele coloca uma mão no local e com a outra tenta me socar. Chego para trás e levanto. Ele levanta junto e tenta outro soco, nada. Tenta me nocautear, nada. Solto uma risada, mas a mesma logo termina, pois sinto um soco na barriga. Levanto a cabeça e olho com ódio. Dou outro grito e pulo novamente em Leo, sem força o bastante para fazê-lo cair. Prendo minhas pernas na altura de suas costelas e ataco seu pescoço. Ele tenta me tirar dali, me da socos e cabeçadas, mas não sairei tão fácil assim. Continuo mordendo, mudando a altura do pescoço, fazendo várias novas feridas. Afasto-me e dou uma olha no pescoço de minha vítima. É uma visão horrorosa.
Mergulho dessa vez com tudo e acerto em cheio. Sinto um jato de sangue em minha boca e cuspo tudo de volta no rosto de Leo. O jato não para, me sujando por inteira. De repente não sinto mais os socos e só ouço gritos. Mudo de direção e ataco o outro lado do pescoço de Leo. Foi uma decisão meio inútil, pois assim que viro a cabeça ele cai com tudo, me levando junto.
- O que você – Sua voz vacila. – Pirralha nojenta?!
Consigo ver o pânico e o desespero nos olhos de Leo O’connor, o carreirista que disse que era meu assassino.
- Sabe, eu não vou sentir tanto a sua falta. – Repito as mesmas palavras ditas a Lola em sua morte.
Levanto e pego a faca, todo esse desespero nos olhos dele me fazem mal. Ao voltar não há desespero, não há nada além de um corpo. Olho para suas feridas e o gosto de carne podre retoma minha boca. Olho para baixo: minha camisa está manchada de sangue. Limpo a boca com o casaco e este ganha uma nova mancha.
Parabéns Giovanna, é a sua terceira morte.
Olhos para os lados, me sentindo superior a qualquer coisa. Eu matei dois carreiristas, eu sou superior. Dou as costas para minha terceira carapaça de animal morto e subo a árvore, de volta ao meu cantinho. Guardo a arma do crime de volta no estojo e pego o que sobrou da sopa. Essa luta me deixou com fome. Abro o pote e minha mão treme ao levar a colher de sopa até a boca. Não sinto o gosto da sopa, só sangue. Isso é nojento! Estou fedendo a sangue! Okay, preciso de um banho.
Prendo o estojo de facas a minha cintura e escondo a sopa no galho mais alto da árvore com algumas folhas. Desço. Eu sei que tem um rio por aqui... Eu passei por ele durante a chuva de meteoros, só preciso reencontrá-lo...
Depois de alguns minutos procurando finalmente encontro o rio. Dou uma boa observada no local, para ter certeza de que não tenho inimigos. Mergulho a mão no rio para medir a temperatura. Está boa. Tiro as roupas, ficando apenas com as roupas intimas. Mergulho no rio. Lavo-me bem, tentando retirar todos os vestígios de sangue e sujeira possíveis. Logo depois levo minhas roupas até perderem totalmente o cheiro de sangue, ou quase. Meu ombro ainda dói, quando mergulho e ele entra em contato com a água. Eu só queria Nicolle aqui, para cuidar de mim como quando caí no Centro de Treinamento.










