Helena Katherine Steve, Distrito 11. Desafio 9, parte 2
Katherine literalmente considerava a situação anterior como algo deplorável e inútil: Collen e Helena andavam com certa calma, cada uma em seu respectivo lado do rio, se mantendo longe da água e ao mesmo tempo, sempre no alcance do olhar uma da outra. Conversavam no mesmo tom á horas – baixo e pacífico, cuidadoso o suficiente para que qualquer perigo próximo fosse ouvido.
Quem dera ela houvesse perigo.
Os únicos sons vinham da água corrente do rio fatal e da conversa ridícula das duas. O único e último sangue que passara por suas mãos fora o de um esquilo que ela e Helena haviam caçado mais cedo.
Quem dera ela o sangue fosse ao menos humano.
Katherine repudiava completamente, e ainda mais que antes, o estado mental de Helena: De acordo com a linha de pensamento de Katherine, Helena achava que o mundo girava apenas em torno da alegria e diversão que surgiram assim que encontrara Collen, chegando as vezes a esquecer que um lago mortal corria logo ao lado. Tão estúpida. Se Katherine conseguisse encarar a situação com qualquer sentimento se não o nojo, e algo mais, talvez conseguisse criar coragem para aparecer antes da lua dar ás caras.
Ou era assim que entendia a mente da outra enquanto á explorava. Helena não sentia nada daquilo. Na verdade, mantinha ainda mais atenção que o normal no mundo ao redor. Tudo estava calmo á mais de um dia, é óbvio que estava gostando, mas sabia que aquilo definitivamente era algo que se deve considerar quando se está nos jogos vorazes tão bem quanto qualquer outro.
Se estivesse no controle, Katherine estaria dando o show que a capital queria. Estaria conquistando a glória tão sonhada que apenas a Helena ignorante demonstrava não desejar.
Quem dera Katherine ter um corpo só seu.
―Eu vou ter. ― Sussurrou para si mesma enquanto procurava um lugar mais confortável no chão de terra do bosque ainda vazio, agora, enquanto o céu começava a escurecer. Helena estava presa em seu próprio mundo dentro da mente das duas e por um motivo óbvio de achar que logo Katherine voltaria á ser parte de si mesma, havia resolvido não aparecer por hora. Katherine estava gostando daquilo, mas em sua mente, Helena não aparecia por medo ou algo do tipo.
Estava gostando ainda mais por estar no momento em que estava. Queria ver com os "próprios olhos", se é que isso é possível ou correto de se dizer nas condições em que se encontrava, o show no céu: “Quem morreu hoje?”, era o que se perguntariam pessoas comuns, "Quais inimigos perdi?", era o que ela se perguntava.
A noite serena e o ar fresco poderiam estar agradando á todos na arena, menos á ela. Sabia que a bonança não duraria muito e tinha de reconhecer que talvez sua morte se aproximava: Era questão de lógica. Nenhuma quietação durava tanto tempo. Dentro ou fora da arena.
Katherine odiava o otimismo e a capacidade de achar que tudo vai ficar bem, ignorando a realidade, que apenas Helena possuía. Talvez aquele fosse o fator na personalidade da outra que Katherine mais odiava.
Quem dera ela ter uma mente só com os seus pensamentos. Quem dera ela conseguir criar uma barreira entre seu intelecto e o de Helena. Ou ao menos, quem dera ela ter lembranças forjadas por seu psicológico, sem nem ao menos saber da existência da outra, ou saber, mas não lembrar que as duas são uma. Quem dera ela ser como Steve era em menos de 48 horas antes: Ingênua, sem saber que vivia aprisionada num corpo não só seu.
Se ao menos um inimigo aparecesse. Nem que se ferisse… Queria ter um pouco de ação, digamos assim. Segundo seu raciocínio, não era pedir demais.
Quem dera ela Helena não existisse. Talvez já tivesse até vencido os jogos aquela altura do "campeonato", se estivesse sozinha.
Quem dera ela pudesse dar um jeito de chegar á outra margem do torrente e matar Collen. A ideia da cabeça sem vida da menor rolando á seus pés e do corpo sangrando em suas mãos já era o suficiente para ter certeza de que Helena sumiria se isso acontecesse."
Mas então, por algum motivo que ela desconhecia, a cada vez que imaginava tal cena, uma emoção nova aparecia: Um dó que ela preferia encarar como pena de sujar as próprias mãos com a carne suja da pequena. Uma dor que ela preferiu entender como ansiedade. O ato de re-pensar se deveria mesmo fazer aquilo, algo que optou por tentar substituir pelo feito de pensar em diversas maneiras de fazê-lo. Essa última ação lhe dava um aperto no coração até então incógnito, algo que tentava ignorar.
Sensações novas lhe eram mostradas á cada vez que retomava o controle em outras ocasiões: Certa angustia numa das vezes que Collen notou sua presença e começou a falar sobre como ninguém nunca á amaria e sobre como queria Helena de volta, pois Katherine nunca seria metade do que Helena era. Isso antes, era irritação por simplesmente ter de ouvir a voz da menor produzindo quaisquer sons que não fossem gritos. Imaginar seus gritos, agora, lhe dava uma tortura silenciosa e pessoal.
"Traga Helena de volta." lembrou-se da voz de Collen.
"Você nunca vai ser como ela." Falou esta em outra situação. E ainda:
"Você nunca vai ter amor na vida. Se não morrer aqui, vai morrer sozinha."
Em silêncio, enquanto se lembrava das "acusações", agradeceu por Collen estar cochilando no outro lado do lago, e não vendo Katherine ali. Á mostra. No comando.
Havia se passado apenas um dia após o "sumiço" de Steve. Assim que o hino da Capital começou, Katherine se pegou num ato que preferiu dar como involuntário: Chamar Collen para que esta acordasse, com certa ternura fraternal na voz. Mair tarde odiou-se por tê-lo dito. Quem sabe Collen não tivesse se dado conta do que começara á acontecer depois do anúncio dos mortos daquele dia (Apenas uma tal de Rosalie Watson que Katherine não considerou importante) até ser tarde demais.
Enfim, voltando um pouco ao momento em que a voz de Claudius Templesmith soou ribombando pela arena logo depois que o rosto de Rosalie sumiu do céu, dizendo algo que inicialmente a garota pensou ter entendido errado, mesmo sabendo que o que ouvira havia sido claro e óbvio: Sorteio dos mortos. Sua reação logo depois que a foto da garota que se lembrava ser do 12, a tal de Kate que havia morrido dias antes, pode ser resumida em uma palavra: Surpresa. Então agora era isso? Fariam uma surpresinha homenageando aqueles que foram fracos o suficiente para não sobreviver? Teve vontade de rir. Isso é claro, até o momento em que notou que a tal homenagem era algo maior que o esperado.
―COLLEN! ― Se ouviu gritar, mesmo já sabendo com certo alívio que a pequena havia se adiantado e antes mesmo que o fogo tocasse o chão já estava á correr. Katherine poderia ter demorado menos se estivesse em seu estado de consciência normal – e com isso, quero me referir ao estado em que se encontrava ao tomar o controle de Helena pela primeira vez após a entrada na cidade de pedra: Rápida, sem medos, sem dor, tendo a certeza de que poderia fazer tudo e que não seria um simples bestante á lhe parar. Agora, além de seu jeito ter mudado um pouco, a situação também era diferente: Não era um simples bestante que lhe afrontava: O céu estava em chamas. Fogo, basicamente. Fogo por todo lado. Bolas de fogo que reconheceu – sem se lembrar do porque de saber aquilo – serem meteoros. Era como uma chuva de gotas vermelhas e flamejantes devastando tu que viam pela frente. Terra ou cimento. Árvores ou prédios. Montanhas ou rios. Tudo refletia a fumaça que subia após os meteoros encontrarem o alvo sem nem notar qual era o alvo certo. Olhou em volta e não teve tempo de gritar, sabendo que um grito gastaria mais ar do que poderia se dar ao luxo de desperdiçar. E só de pensar em ar sentiu este se esvaindo de seus pulmões. Começou á tossir, pois a única coisa que parecia inalar eram as partículas sólidas e finamente divididas, suspensas no gás que subia do chão que queimava. Se virou, tendo a sensatez de se lembrar que o rio não era uma opção racional de salvação. E então, começou a correr, abafando um berro no fundo da garganta assim que compreendeu que a queimação que passou a sentir na panturrilha fora, na verdade, causada por um pedaço de madeira que havia voado de uma árvore assim que esta se chocou com um dos meteoros. Na correria, não havia nem ao menos prestado atenção no momento em que tal galho havia lhe acertado.
E então pensou em meio á corrida, como se lembrava do tio de Helena ensinar anos antes: Ter a calma o suficiente de pensar no que fazer em vez de se concentrar em suas passadas mostra que sua consciência ainda está apta á sobreviver.
Sabia que era inútil e clichê demais desejar isso, mas sem falar nada, pediu poder ser novamente a Katherine de antes.
As árvores passavam quase como um vulto cada vez mais vibrante em tons que variavam do laranja e vermelho até um azul e verde que de vez em quando ousavam aparecer em meio ao fogo. Tudo estava queimando. "Queimando, arruinando, tostando, destruindo..." podia quase ouvir Helena voltando á consciência em sua mente, sem ainda ter entendido o que acontecia, apenas procurando inutilmente palavras sinônimas á aquela que havia visto fragmentar a mente de Katherine.
Katherine não se permitiria ser fraca á ponto de precisar de Helena para sobreviver, seria? "Não." E no momento, o pensamento era realmente seu.
Correu. Correu. Correu pelo o que pareceram séculos, só enfim observando o quanto havia percorrido na caminhada calma de horas antes. E o psicológico interno, tanto dela quanto de Helena, notou que Helena estava precisando de ajuda. Talvez não Helena, exatamente, mas o corpo de ambas. A necessidade de sobrevivência era maior que as outras rodeando-nas. E era Katherine quem precisava suprir tal necessidade. Katherine conseguiu sorrir em meio aos estouros do que pareciam ser bombas vindas do céu.
Então enfim, a ação que tanto queria estava ali. Reprimiu num canto bem pequeno de sua mente o fato de que a ação já não parecia tão atraente ao começar. Se desviou de uma árvore que tombou, passando o fogo de suas folhas para as árvores ao lado. Um incêndio maior começava e o único lugar que parecia á salvo disso tudo era, é claro, a cidade. Pensou consigo mesma tentando fazer o caminho ao longo do rio mentalmente, distinguindo um pouco tarde que não era este o caminho que percorria. Não estava seguindo o rumo da água, estava fugindo dela, ao se permitir olhar para trás, viu que o lago já estava bem longe dali ás suas costas e que agora, apenas a imensidão quente era o que aparecia atrás. Ao pensar no calor, começou a sentir também o suor escorrendo por sua testa, seus braços e suas pernas. Era idiota demais tentar se livrar do ardor tirando parte das roupas, e sabia disso, mas foi idiota pois sabia que se não tivesse sido, talvez morresse queimada. Retirou a jaqueta e jogou-a longe, ignorando que ela agora alimentava as chamas junto á madeira que até então não era seca o suficiente nem para uma fogueira.
Ela estava numa daquelas situações em que só notamos o que acontece quando pensamos nisso, e em que são tantas coisas acontecendo que tudo parece acontecer rápido demais e ao mesmo tempo, em câmera lenta.
Pensou no fogo ao seu redor, cada vez construindo uma barreira maior em torno de si, e então sentiu medo de acabar morrendo sem ter chance de lutar, pois não se pode lutar com algo natural e catastrófico como aquilo.
Pensou em Collen e pensou se a veria novamente.
Pensou em suas armas e em como elas eram inúteis no desastre que lhe rodeava.
Pensou em Helena e no que ela faria agora. Pensou que não faria dada, obviamente, pois Helena era fraca e estaria numa situação ainda pior que Katherine se estivesse em seu lugar – não que literalmente, ela não estivesse.
Pensou se sobreviveria, e a vontade de viver virou algo desesperador. Tão desesperador que confundiu seus pensamentos e sua visão: Não viu quando a grama foi substituída pelo cimento á seus pés e quando esse cimento da calçada teve uma pequena descida que levava á rua.
Não viu a descida e tropeçou.
Tropeçou e não gritou, pois ainda sabia em meio á tudo, que o ar era precioso demais para ser gasto.
Não gritou e com isso, acabou repreendendo o meio de anunciar a dor dentro de seu corpo.
E neste ato de silêncio achou que fosse morrer assim que sua cabeça atingiu o cimento duro e já não tão frio. O cimento estava quente. Quente até demais, mesmo para um cimento normal num dia normal em que meteoros caem do céu. Olhou para o lado á tempo de ver que ainda estava consciente o suficiente para notar a bola de fogo que havia pousado sem nenhuma leveza á seu lado e que agora, tinha suas chamas queimando a pele da mão de Katherine. Labaredas voaram até seu braço enquanto o cimento esquentava cada vez mais o rosto da tributo que jazia parado. Lágrimas rolavam de seus olhos e ela ainda tinha a capacidade de sangrar. Seu cabelo estava úmido com o líquido vermelho e ela apenas pensava em como gostaria de ter morrido no banho de sangue pela faca de outro tributo naquela arena, pois sabia que aquela morte seria em demasiado mais dolorosa.
Morte? Se questionou se deveria morrer ali.
"Talvez eu possa tentar algo mais digno." Era o único pensamento claro em seu raciocínio agora lento. Sua mão queimava, literalmente. Não era como o efeito que a água ácida do rio causara e que parecia fazer com que seu sangue queimasse.
Não sabia se a água ou o fogo doíam mais. Talvez causassem o mesmo estrago em termos físicos. Viu mais meteoros caírem em torno de si e ao sentir algum tipo de aura de calor se aproximando de seus pés, se arrastou para frente fugindo do meteoro que logo pousara um pouco depois da divisa entre cidade e floresta. Se arrastou mais usando apenas os pés e a mão ainda intacta, e usou apenas isso junto da força de vontade que ainda conseguia ter em meio á confusão de seus pensamentos. Não sabia se era a inútil e fraca da Helena ou a irresponsável e inconsequente da Katherine quem comandava. Viu que havia um prédio logo á frente e de acordo com sua aproximação, ele parecia mais longe. Na realidade, era sua mente quem estava mais longe. Mais longe da consciência e da lógica. Se arrastou mais e sentiu uma elevação abaixo de seu corpo quando subiu na calçada do outro lado da rua. Ao perceber que havia atravessado a rua deu um sorriso fraco. Quanto tempo havia se passado? Não eram os séculos que passara correndo, nem os segundos que passara para notar o começo da chuva. Eram minutos, simplesmente. Só não conseguia identificar quantos. Nunca fora realmente boa em reconhecer e diferenciar coisas relacionadas á tempo e á espaço. Ou achou que nunca fora, pois á cada milésimo que se passava e a cada centímetro mais perto do prédio, tudo parecia mais longe, mais lento e mais vago. Agradeceu ao nada por nada exatamente. Talvez por estar viva. Assim que conseguiu passar todo seu corpo para dentro da porta da construção, tossiu e apenas sentiu um gosto metalizado do sangue enchendo sua boca. Tentou se mover mais o máximo que consegui foi virar a cabeça. O fez e se arrependeu instantaneamente.
Sentia algumas queimaduras em seu corpo ardendo como se alguém tivesse tacado álcool por cima e sentiu que logo perderia a consciência. Tinha certeza que seus olhos não ficariam abertos por muito tempo. Na verdade, até desejou que estes tivessem se fechado antes que olhasse para a floresta atrás de si. Sabia que a criatura que havia visto não era humana. Não podia ser...
Os meteoros que caíam do céu pareciam se desviar do bestante e ele era alto demais para ser normal. Ele, sim. Usava algum tipo de terno elegante e ao mesmo tempo, fora dos padrões da Capital. Se a criatura tivesse olhos, Katherine podia dizer com toda certeza que ele a observava.
É, sem olhos. Sem boca. Sem nariz. Sem cabelo. Seu rosto se resumia á uma pele tão pálida quanto gelo, contrastando com o preto da roupa. A garota se perguntou se não estava tendo alucinações. Talvez estivesse, pois de momento em momento podia jurar que das costas do monstro apareciam algum tipo de tentáculos que se estendiam atrás deste. O que ele estava esperando para atacar? Katherine era uma presa fácil...
―Fácil demais... ― Conseguiu sussurrar para si mesma. Novamente pensou em como se sentia estranha. Em questões ou dias normais, ela já teria se levantado, com dor ou não, e atacado o monstro mesmo sabendo que talvez este não pudesse morrer. Ela teria feito isso, Katherine. Pensou se não era Helena, mas chegou á conclusão que não era, não. Não podia ser Helena. Se fosse, já teria os sentimentos da outra dentro de si. E então, considerou a ideia de estar, lentamente, voltando á ser parte da outra. ―Não. Não, não... ― Murmurou com o pouco fôlego que ainda tinha. Não voltaria á ser Helena. Drama mode on, to sem criatividade pq sim. :c Os movimentos foram quase que robóticos: Se levantou mesmo sabendo que poderia morrer á qualquer momento, ali mesmo. Segurou o tridente ainda mais firme. Adentrou ainda mais no prédio, como se isso por um acaso pudesse retardar o bestante. Esperou.
1, 2, 3, 4. Contou mentalmente os segundos se passando, esperando o que quer que estivesse para acontecer.
1, 2, 3, 4. Minutos se passavam. A chuva de meteoros não acabaria nunca?
1, 2, 3, 4. Olhou pela janela, ainda no primeiro andar, vendo o monstro na beira da floresta. Ele não podia sair de lá ou o quê?
1, 2, 3, 4. O caos começava á terminar no céu, deixando nuvens voltarem á aparecer. Na terra, tudo continuava como estava. Em chamas.
1, 2, 3, 4. Pensou em Collen, querendo mais que nunca saber se ela estava viva. Talvez não estivesse. Era tão pequena... Não soube se ficava triste ou desesperada com a ideia. Queria simplesmente sumir dali.
1, 2, 3, 4. Olhou pela janela uma segunda vez e o monstro não estava mais lá. Onde estava, então?
1, 2, 3, 4. Estava abaixada logo ao lado da entrada do prédio, com a cabeça pouco abaixo e á lateral da janela. Não ouviu passos, apenas viu o momento em que o homem entrou. Tinha no mínimo, 2 metros e meio de altura. Talvez mais. Talvez mais.
1, 2, 3, 4. Imaginou que se tivesse boca, a criatura estaria sorrindo em tom de escárnio. "Estou morta.", teve tempo de pensar. O monstro se aproximou e ela teve certeza que o golpe qualquer que fosse usar não o mataria, mas sabia que iria tentar, por mais fraca e inútil que estivesse atualmente. Pode quase sentir os dedos longos e frios do bestante se aproximando de seu rosto de acordo com sua chegada. Conseguiu criar, mentalmente, fragmentos de como seria sua morte. Se arrastou para cima, ficando em pé, ainda com as costas coladas na parede. O monstro parecia não se importar. Talvez soubesse que a garota não tinha chances.
1, 2... Começou. Ele foi até ela, com a maior naturalidade. Ela tentou soltar algum tipo de grito pedindo socorro, mas sabia que qualquer um naquele lado da arena só gostaria de vê-la morta, se é que se importavam com sua existência. Lançou o tridente contra a barriga do monstro, assim que este já estava á seu alcance, mas nenhum estrago conseguiu causar. Quando puxou a arma de volta, a boca da garota se abria com surpresa; medo; pânico. Apenas um buraco vazio jazia onde havia atingido. O bestante não parecia sequer ter notado.
Pensou se conseguiria furá-lo do mesmo modo tantas vezes até que este virasse pó. Não. Estaria morta antes de conseguir.
Pensou se tentar matá-lo da mesma maneira que fez com o vampiro podia servir de alguma utilidade. Talvez, mas até ter tempo de pegar os fósforos na mochila, já não poderia ver o que se passava ao redor e seu coração já teria parado de bater.
Mas enfim, conseguiu raciocinar melhor. Quem precisa de fogo quando o mundo em si já é uma arena quente de destruição? Não precisava de fogo, não. Precisava de sacrifício. Precisava, para vencer, talvez de sua própria morte. Mas estava disposta á morrer, se fosse por isso. Se fosse lutando.
Continuou á furar o monstro enquanto se movia da maneira mais lenta possível até a porta. Quase podia ver o divertimento da criatura. Assim que sentiu as costas livres, se virou e correu de maneira insana. Sabia que não venceria. Se perdesse, perderia. Se vencesse, perderia. Não importava. Mas preferia perder vencendo, se fosse possível.
Viu o fogo que tomava conta das árvores mais próximo e teve quase certeza que o monstro á seguia de longe. Errado. Ele á seguia mais de perto que nunca. Se teletransportara e parara logo á frente de Katherine, fazendo com que esta parasse bruscamente. O monstro aproximou a mão em um ponto qualquer da cintura da garota e seus dedos mortais apertaram á mesma. Ela sentiu enquanto ele á levantava do chão. Não sabia como iria morrer. Sabia que não presenciaria a própria morte, por mais que quisesse. Afinal, estaria morta.
A garota viu as chamas arderem altas logo atrás do monstro, e mesmo que seu corpo todo estivesse fraco, concentrou as últimas forças nas próprias pernas, chutando com toda força a barriga do bestante, que cambaleou e por um milésimo de segundo, quase sobreviveu.
Mas não sobreviveu. Continuou em pé, porém agora seu corpo queimava. Pele branca queimando. Terno negro queimando. Fumaça subindo. Um cheiro podre tomando conta do local.
Katherine havia caído no chão assim que ele foi para trás - automaticamente, soltando-na. E continuava caída ali, parada. Deitada no cimento enquanto, agradecendo pelo fogo não se alastrar na pedra da cidade.
Não, não estava morta, e não morreria. Não hoje. Conseguiu sorrir e tentou pensar, mas só teve tempo de fechar os olhos.