DESAFIO 3 - Treinamento grupal e individual; Elleanor Jones (Distrito 5)
-Chase Gregory!- a representante do nosso distrito anunciou.
Eu olhei pra Chase, ele estava assustado, mas deu passos confiantes em direção ao palco. Quando me viu abriu um sorriso afetado, era incrível como ele ainda conseguia sorrir numa situação dessas. De repente a cena mudou, Chase corria pela arena seca como deserto pra tentar alcançar uma mochila amarelada, quando finalmente a alcançou, alguém veio por trás e passou uma faca por sua garganta. Segundos depois ele já estava no chão, os olhos escuros ainda abertos, o pescoço banhado de sangue.
Eu acordei. Estava banhada de suor, fazia meses desde que o pesadelo da morte de Chase não me atormentava como nesta noite. Eu já vira a mesma cena repetidas vezes, sem que nenhum detalhe se modificasse. Exceto por hoje. Desta vez algo mudara, o rosto do tributo que matara Chase não me era desconhecido. Era o meu rosto. Isso nunca havia acontecido antes, e eu só esperava que quando aquilo se tornasse realidade e fosse necessário eu tivesse a coragem para fazer algo como rasgar a garganta de alguém.
-Bom dia flor do dia! - Kia anunciou ao entrar no meu quarto. Hoje ela estava com um vestido verde cheio de penas, parecia um papagaio. – Venha tomar café porque hoje é dia de treinamento!Precisamos chegar ao centro de treinamento cedo, apresse-se!
-Já vou. - respondi enquanto me levantava para tomar um banho no chuveiro sofisticado da capital, Kia saiu do quarto e gritou um “Não demore!” animado para mim. Realmente não demorei muito e quando saí avistei uma muda de roupas na beira da minha cama. Imaginei que fossem as roupas para o treinamento. Havia uma calça preta que pareceu muito pequena, mas o tecido se esticava e se modelava ao corpo, a blusa era uma espécie de regata também escura, porém com linhas azuis nas mangas, nas costas o símbolo do meu distrito estava bordado em cinza e na frente havia o número 5. Me vesti e fui tomar o café da manhã.
Estava sem fome novamente, nervosa por causa do treinamento e como sempre a mesa estava silenciosa, até que Falcon se pronunciou:
-Bom, espero que vocês duas estejam bem alimentadas e dispostas porque hoje é o primeiro dia de treinamento. Sugiro que tentem aprender o máximo que puderem com os instrutores, não mostrem suas habilidades ainda, terão mais 3 dias para isso, e em um deles a demonstração dessas habilidades será obrigatória.Vejo que já acabaram de comer então vamos logo. –ele disse e se levantou.
-Vocês ouviram meninas, vamos logo. – Kia disse batendo palminhas, aquilo me irritava mais do que tudo.
Ela nos levou para o elevador e ficou falando o tempo inteiro, ignorei cada palavra que ela disse, estava mais preocupada com o fato de que não fazia ideia do que fazer no treinamento.
Fomos para o subsolo do nosso prédio, era cinza, grande e deprimente, me lembrava um presídio e os corredores pelos quais Falcon nos guiava pareciam não ter fim. Cerca de dez minutos depois chegamos ao centro de treinamento. O lugar parecia ter todo tipo de armas, ele era divido em áreas, cada uma tinha uma pessoa que presumi serem instrutores. Uma mulher de estatura mediana tinha uma prancheta nas mãos e parecia anotar alguma coisa, quando eu e Alyssa nos alinhamos a fila de tributos ela anunciou.
-Certo, vejo que todos estão aqui. Sou Atala a supervisora de vocês. Antes de começarmos algumas regras precisam ser esclarecidas: Vocês podem treinar em todas as estações, cada uma terá um instrutor para ajuda-los no que precisarem. Nenhum tipo de conflito será tolerado, mas o treinamento conjunto é permitido. Todas as armas podem ser usadas exceto contra outros tributos. Espero que aproveitem o tempo que terão aqui.
Ela deu as costas para nós e foi para um canto mais afastado, os tributos se dissiparam em todas as estações de treinamento e eu fiquei lá parada como uma árvore, não sabia pra onde ir então resolvi ir para o único lugar em que não havia nenhum outro tributo. O local ensinava camuflagem e depois de cinco minutos se tornou óbvio pra mim que eu não tinha o menor talento pra coisa, agradeci ao instrutor pelas dicas e resolvi ir para outro lugar.
Falcon dissera para tentar aprender o máximo de pudéssemos, então fui até uma área em que havia bonecos estufados com alvos desenhados no peito, alguns tributos atiravam facas, outros flechas e uns simplesmente treinavam com lanças enormes. Minha mira era boa e eu sabia como atirar com arco e flecha, mas nunca havia tentado algo tão pesado como uma lança. Resolvi tentar e aquela foi provavelmente a decisão mais idiota que já tomei na vida. Agarrei a lança e arremessei em um boneco, a lança passou direto e aterrissou no chão ao lado. Todos os outros tributos começaram a rir da minha tentativa fracassada, me senti um lixo. Um dos tributos femininos pegou um lança e arremessou, ela acertou o alvo em cheio olhou para mim e deu de ombros como se dissesse “O que posso fazer, alguns sabem outros não.” Daí pra frente tudo piorou, cada uma das minhas tentativas era motivo de mais risada e deboche, mesmo que eu acertasse o alvo. Se isso acontecesse em outras circunstâncias eu provavelmente ignoraria, mas a raiva começou a crescer dentro de mim. Eles não podiam se julgar melhores do que eu só por causa de um erro estúpido. Eles não faziam ideia do que eu era capaz.
Com raiva fui para outro lugar e senti alguém esbarrar no meu ombro no meio do caminho, era a garota loira que acertou a lança no alvo. Ela olhou pra mim e deu um sorrisinho. Respirei fundo com medo de fazer algo estúpido. Eu podia não demonstrar, mas me irritava com muita facilidade, como era muito quieta e não tinha muito contato com outras pessoas não era comum me ver irritada. Mas aquela garota estava conseguindo me dar nos nervos. Ela largou as facas que usava pra treinar e foi para a estação de combate corpo a corpo esbarrando novamente em mim. Agora eu tinha certeza de que faria algo estúpido. Minhas mãos estavam tremendo de raiva, decidi ir para lá também.
Uma instrutora morena, alta e atlética estava ensinando alguns golpes para ela. Assim que ela terminou eu anunciei:
-Minha vez.
-Certo. Aqui é um lugar para treino, portanto é necessário utilizar equipamentos de proteção. – ela disse e me entregou duas luvas, uma espécie de colete e algo para proteger minha cabeça. Sua expressão era de tédio e desprezo como se não quisesse estar ali e aquilo fosse um completo sacrifício.
-Combate corpo a corpo pode ser algo que vai te ajudar muito dentro da arena. - A instrutora começou. Eu a cortei antes que ela pudesse começar a próxima frase.
-Eu não quero a introdução. Vamos para a prática. – disse já me posicionando para a luta, estava na hora de por a prova o que meu pai havia me ensinado. Não entedia o porque, mas queria provar pra eles que eu podia ser boa em alguma coisa.
-Se é assim que você quer. - a morena parecia não gostar de ser interrompida ou desafiada, porque se movimentou para me dar um soco que por pouco não acertou minha mandíbula.
A luta começou, eu não era muito boa na parte ofensiva, mas sabia me defender. Levantei os braços próximos ao meu rosto, o que deixou as minhas costelas desprotegidas, a instrutora me chutou, mas não com força o bastante para machucar, afinal o colete me protegia. Parti para a ofensiva e dei um soco no estomago da mulher, ela nem gemeu e logo já desferia socos que eu defendia, um deles finalmente me acertou no queixo. Quando eu ia revidar ela anunciou.
-Já chega. Acho que você já teve prática o suficiente por hoje.
-Mas nós ainda nem começamos! – retruquei.
-Já disse que foi o suficiente. Se você não notou tenho mais 23 tributos para ensinar.
Pelo visto ela não havia gostado nada de mim. Com raiva retirei os equipamentos que estava usando e fui treinar com arco e flecha. Falcon havia dito para não mostrarmos tudo que tínhamos hoje. Mas eu já estava cansada do tratamento que estava recebendo por lá e pensei que se não mostrasse que era boa em pelo menos uma coisa os tributos me comeriam viva na arena. Na verdade aquilo aconteceria de qualquer maneira, mas eu preferia que não fosse assim tão fácil.
Peguei um arco e comecei a atirar. Mirei na cabeça dos alvos. Acertei todas as 5 tentativas. Isso nunca havia acontecido antes. Acho que a raiva me ajuda a focar em algo destrutivo, como atirar uma flecha na cabeça de alguém. Nenhum tributo olhava pra mim. Maravilha quando consigo fazer algo certo ninguém vê.
Ainda tinha algumas horas no centro de treinamento então acabei passando em quase todas as estações para tentar aprender algo útil. No fim do dia já sabia como fazer 5 tipos diferentes de nós ,reconhecer plantas venenosas e um pouco mais sobre camuflagem. Os tributos simplesmente optaram por me ignorar, fingiram que eu não existia. Com se eu fosse um insetinho incômodo. Provavelmente era paranoia minha, mas eu sentia que eles me subestimavam, e quando chegasse a hora eu esperava poder provar que eles estavam errados. Ouvi um apito alto e agudo, era Atala.
-O tempo de vocês acabou. Vejo vocês aqui amanhã as oito da manhã em ponto. Não se atrasem.
Graças a Deus. Eu não aguentava mais aquele lugar. Só de saber que teria que passar mais 3 dias lá já tinha vontade de vomitar. Não. Não podia pensar assim. Isso me deixava mais irritada. Eu precisava daquele lugar. Precisava ser forte. Saí da sala atrás dos outros tributos, Kia e Falcon me esperavam do lado de fora.
-Então como foi? – ele perguntou.
-Um inferno. – respondi. Falcon soltou uma risada.
-Não se preocupe, fica pior. - ele disse e piscou pra mim. Geralmente eu coraria por causa disso, mas não hoje. Estava estressada demais, então simplesmente revirei os olhos e saí andando deixando Kia, Falcon e Alyssa pra trás.
-O que aconteceu? – ele veio até mim e perguntou.
-O que aconteceu?O que aconteceu é que por causa de um deslize eu sou a nova piada dos tributos. - havia chegado ao elevador e apertava freneticamente o botão ao lado dele. - Eu não vou deixar isso acontecer de novo.
Falcon franziu as sobrancelhas pra mim. A porta do elevador abriu, eu entrei e disparei:
-Quer saber?Cansei de ser essa menininha fraca e indefesa que todos pensam que sou. Não vou mais agir assim, não tenho mais nada a perder, e vou fazer de tudo pra vencer essa coisa. Isso é uma promessa.
A porta do elevador se fechou. Deixei Falcon pra trás ficando sozinha lá dentro. Meu coração batia forte, eu estava com raiva. Muita raiva. E minhas emoções estavam descontroladas, minhas mãos começaram a tremer. Aquilo não era um bom sinal e eu sabia disso, da última vez que eu fiquei assim algo ruim aconteceu, e quando digo ruim, quero dizer realmente ruim. Do tipo eu acordando em uma floresta, sem lembrança nenhuma do que havia acontecido. Eu sumi por dois dias, meu pai não fazia ideia de onde eu estava e chegou a pensar que eu havia morrido. “Não. Isso não vai acontecer de novo, eu não vou deixar.” Pensei tentado clarear a mente dos pensamentos obscuros que a rodeavam. O que não adiantou. Minha visão estava escurecendo, Ouvi uma voz na minha cabeça como da última vez. Ela disse: Parece que estou de volta. Depois disso eu apaguei.
Quando dei por mim estava caída no chão. Mas não era o chão do elevador. Era o chão do centro de treinamento. A instrutora do combate corpo a corpo me encarava de cima.
-Levante-se. – ela disse ríspida.
Me levantei com dificuldade, minha cabeça latejava.
- O que aconteceu?- perguntei.
-Você tentou matar um tributo antes da hora, e eu tive que apagar você. Seu mentor já vem retira-la da sala de treinamento.
-Mas o que?Por quê?
-Porque você desrespeitou as regras, vem desrespeitando há dois dias. Acho que atirar facas em todas as superfícies possíveis, roubar a arma de um dos tributos e tentar me socar não foi o suficiente.
-Dois dias?O que você quer dizer com dois dias?
-Quero dizer que desde o segundo dia de treinamento você vem agindo assim. Mas você ainda não está na arena garota. Está no centro de treinamento, tenha um pouco de bom senso.
-Eu assumo daqui. – ouvi uma voz masculina dizer, era Falcon. Ele agarrou meu cotovelo. – Vamos.
Falcon praticamente me arrastou pra fora da sala. Quando chegamos ao elevador ele começou a gritar.
-Você está ficando maluca?Venho tolerado suas atitudes estúpidas há dois dias, mas isso já foi longe demais. Se você tem um desejo de morte espere até chegar à arena. Não tente ser morta pelas game makers antes mesmo dos jogos começarem!
-Falcon, eu não faço ideia do que você está falando.
-Pare de ser sarcástica Elleanor. - ele disse com o maxilar tensionado. Ele estava com raiva.
-Não. Estou falando sério. – respirei fundo – A última coisa que me lembro é de ter entrado no elevador. No primeiro dia de treinamento.
- O que?Você está brincando?Isso não tem graça. – ele disse com as sobrancelhas franzidas.
-Não, não estou!Estou falando sério! – berrei, estava a ponto de chorar. E acho que Falcon percebeu isso, pois sua expressão se amenizou.
-Quer dizer que você não se lembra de nada?Não se lembra de ter dito que não precisava de mim e de meus conselhos estúpidos?De ter feito Kia chorar por ter caçoado de suas roupas?Nem de ter agido como uma completa maluca no centro de treinamento?
-Meu Deus não!Isso não pode ter acontecido de novo. - agora eu estava tremendo, e suando de medo.
- O que aconteceu de novo?Elleanor, acho melhor você começar a se explicar logo.
Então contei a ele. Contei que isso já havia acontecido 5 vezes comigo desde a morte de Chase. Era como se eu saísse de mim. Eu nunca conseguia me lembrar de nada, mas as pessoas sempre diziam que eu agia diferente, debochada, psicótica. Como uma louca. Eu não era eu mesma, e não sabia o porque disso. Era como se houvesse duas de mim, e sempre que eu ficava com muita raiva ou minhas emoções eram muito alteradas eu desaparecesse e outra versão de mim tomasse conta do meu corpo. Era por isso que eu era quieta e evitava contato humano. Sabia que isso despertava o tipo de emoções fortes que me faziam perder o controle.
-Deus. Como isso é possível?- ele perguntou confuso.
-E-eu não sei. Papai achava que eu havia desenvolvido algum transtorno, mas há um ano isso não acontecia. Pensei que simplesmente tivesse desaparecido.
-Esse tipo de coisa não desaparece assim. Els, isso pode ser perigoso.
-Eu sei. Mas eu não controlo isso. Simplesmente acontece.
-Preciso pensar sobre isso. Vamos. Você precisa dormir, conversamos mais amanhã depois do seu treinamento individual.
-Treinamento individual?Ah não já é amanhã?
-Sim, e espero que você esteja preparada e quando digo você quero dizer a verdadeira você. Quero se alter ego maluco fora disso. – ele disse e entrou no elevador. Eu fui atrás.
Não sabia como iria fazer para evitar que a outra Elleanor aparecesse. Acho que evitar o contato humano era o melhor que podia fazer. Portanto quando cheguei ao meu quarto me enrosquei em minha cama e fiquei lá até o amanhecer. Quem veio me acordar dessa vez foi Falcon. A manhã passou como um borrão e logo eu estava no corredor do centro de treinamento esperando pelo treinamento individual.
Era a pior coisa do mundo. Eu sentia que não podia olhar em direção a ninguém sem que eles vissem a Elleanor louca e não a mim. O tempo se arrastava na sala, alguns tributos conversavam e logo o distrito 4 já havia acabado seu treinamento. O Distrito 5 foi chamado. Alyssa foi primeiro. A ansiedade estava me matando. O que deveria fazer quando chegasse lá? Menos de 15 minutos depois ela estava de volta, meu nome foi chamado. Andei até a porta olhando fixamente pra frente evitando os outros tributos.
[Aqui é onde ficaria a parte do treinamento individual]












