Ela me olhou, mas não me disse que escrevia. Ela saiu comigo, mas não me mostrou suas linhas. Ela me beijou, e só depois me disse da existência de seu caderninho. Um caderno de capa normal, mas com conteúdo profundamente pessoal. Seu caderninho de escritos... Eu conhecia o gosto do seu beijo, mas não conhecia seus versos. Eu já havia aberto seu sutiã, mas ainda não tínhamos intimidade o suficiente para abrir seu caderninho. Eu conhecia seu corpo, mas não suas linhas. Depois de alguns meses, depois de muitos encontros, ela resolveu dar um passo importante para o relacionamento, decidiu me mostrar seu caderninho misterioso. Ela abriu com as mão seguras de si, esmalte descascando e um anel no dedo anelar. Percebi que todas as poesias possuíam data e eram escritas com caneta colorida. Ela fez questão de me contar o contexto de cada escrito, que havia feito naquele dia e o que estava sentindo quando escreveu. Quando começou a ler seu caderninho para mim, era como se estivéssemos tendo nossa primeira relação. Como se eu pudesse mergulhar em sua imensidão. Foi lendo devagar, com a voz rouca e um sorriso de timidez. Cada linha era como se eu lhe tirasse uma peça de roupa. E depois de ler a primeira poesia, conseguia ver sua nudez. A nudez por trás de seus olhos, a nudez de sua alma. Me apaixonei por esta alma nua que estava na minha frente! Suas palavras faziam parte da boca que a pronunciara! Eu dei um beijo nela com vontade, como se fosse o primeiro. Eu fiz o que poucas pessoas conseguem fazer, despi seu coração, e me apaixonei ainda mais pelo que vi. Dê valor a quem mostra para você as coisas que escreve, despir a alma é mais íntimo que despir o corpo.