dia 01 — o retorno, parte 2.
A noite começa a chegar, a brisa que vem do mar está mais fria e as folhas dos coqueiros farfalham com os ventos fortes. É por volta de 18h30 e você escuta um carro se aproximando da entrada. Tia Celina chegou.
Apesar da maioria ter trocado o Tia por Dona, ainda é natural para alguns chamá-la assim, ao menos em pensamentos. Ela pede licença enquanto anda entre vocês, como se aquela casa não fosse dela também. Você repara que ela trouxe uma caixa transparente com jogos americanos, guardanapos e um jarro de flor. Com ajuda de Augusto, que estava ali perto da entrada, eles retiram alguns potes e panelas do porta-malas do carro. Um “Tá na mesaaaa!” gritado por Sofia te leva até o quintal. O jantar está posto na mesa grande e você procura pelo seu nome entre as etiquetas, o nome de cada um dos Batutinhas foi escrito à mão. Há um prato a mais na ponta da mesa que Tia Celina correu para retirar, antes de voltar para o lugar. “É, boa noite, queridos…Podem se sentar.” Celina disse com uma voz amena enquanto desamassava a saia jeans pela terceira vez, um tanto desconcertada, os olhos dela pareciam não conseguir focar em nenhum de vocês.
A comida estava pré-pronta, por isso a preparação fora tão rápida, e você observa o cardápio: arroz branco, frango assado, salada verde e um cozido de peixe com camarões.
Celina pede licença para dar algumas palavrinhas antes. “Fico muito, mas muito agradecida de ver vocês outra vez. Meu Deus, parece que foi ontem que todos estavam aqui…todos vocês desse tamanho.” Fez um gesto se inclinando, apontando o chão, para representar a baixa estatura que tinham. “Estou tão feliz em revê-los!” Ela aperta a mão de Nara e de Letícia que estão ao seu lado na mesa.
“Achei que nunca mais veria essa casa tão cheia…A vida é engraçada, né? O Guga mesmo longe, depois de cinco anos, conseguiu trazer vocês de volta. Obrigada por terem sido amigos do meu filho, de verdade. Sabiam que eu vi ele organizando tudo isso aqui? Sempre com aquele sorriso faceiro que vocês conhecem, mesmo sentindo tantas dores. Ah, Gustavo ama—ele amava muito vocês…” Ela parou por um segundo, arrumando a posição de um garfo que já estava em ordem, tudo para disfarçar o deslize de mencionar o filho ainda no presente.
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Celina sorriu e levou a mão ao peito, sentia o coração se aquecer com todos aqueles olhares queridos e com as falas de agradecimento. Gustavo soube escolher bem os amigos, disso ela tinha certeza. "Não quero falar muito para a comida não esfriar, vamos, podem se servir!” O frango está branco, o arroz mole demais e o tempero do peixe bem salgado. Tia Celina nunca fora muito boa na cozinha…“Estão gostando da comida? Podem ser sinceros!” Um sorriso ansioso encara todos vocês, buscando a aprovação.
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O jantar se seguiu entre alguns momentos de silêncio embaraçoso e outros de risadas que suavizavam o clima. As gírias e brincadeiras do grupo a fizeram rir como não fazia a tempos. Ela limpa os lábios com o guardanapo e se dirige à vocês outra vez: “Ah, queridos, muito obrigada por esse jantar, de verdade. Deixei uma sobremesa de manga na geladeira. Não posso me demorar muito, prometi à Dona Rosa Marina que voltaria para ver a novela das nove com ela.” Balançou a cabeça, como se só lembrasse daquilo agora.
“Eu queria ler por vocês, mas…”A voz fraquejou e você finalmente reparou no envelope que ela retirava no bolso da saia jeans, os dedos trêmulos passaram pelo papel entreaberto. “Desculpem, eu não consigo…” Com as mãos trêmulas, quase deixando a carta cair, ela olhou na direção de Rosa. “Rosinha, minha querida, você pode ler para todos? Assim que eu sair…” A carta foi passando de mão em mão até chegar nas mãos dela.
E desse jeito meio apressado e desajeitado, Tia Celina se despede com um aceno rápido, deixando as louças e as lágrimas para trás. Vocês escutam o barulho do motor do carro dando a partida e finalmente a carta pode ser lida.
CARTA 001: CLIQUE AQUI PARA LER









