Dilip Kumar Roy encontra-se com o Maharshi
Dilip Kumar Roy era conhecido em toda a Índia como um cantor famoso, além do que ele próprio compôs músicas e escreveu poemas, especialmente canções devocionais e poemas para Sri Krishna. Durante muitos anos, ele foi um residente do Ashram de Sri Aurobindo em Pondicherry. Mais tarde, foi o superior do Hari Krishna Mandir em Poona, onde, auxiliado pelo seu principal discípulo, Indira Devi, ele actuou como um guru para muitos devotos de Krishna. Este relato da sua visita ao Maharshi foi retirado por seu próprio convite, do seu livro 'The Flute Calls Still'.
Foi em 1945, creio. Eu ainda vivia como residente no Ashram de Sri Aurobindo, embora tivesse um sentimento crescente de isolamento e começado a sentir-me desajustado. A minha tristeza e sensação de abandono aprofundaram-se com o tempo até que a pouca paz que eu tinha me deixou completamente e me senti como um navio encalhado. Mas não preciso entrar nas razões de tudo isto; mergulho directamente no que permanece em mim como uma das experiências mais inesquecíveis que já tive. Isso é verdade, pois foi um marco na minha vida.
Depois de ter estado durante semanas dominado por uma profunda tristeza, escrevi diretamente a Sri Aurobindo. Ele respondeu imediatamente dando-me a permissão necessária, o que eu reconheci profundamente.
Apanhei o combóio para Tiruvannamalai onde vivia Ramana Maharshi. Mas, à medida que o combóio rolava, senti um mal-estar profundo e crescente... Como poderia eu ganhar a paz necessária aos pés de alguém que não era o meu Guru quando não a consegui alcançar aos pés do meu venerado Guru, Sri Aurobindo, cuja sabedoria e grandeza meu coração jamais alguma vez havia questionado.
Bem, desci na estação num estado de espírito confuso...
Mas já era tarde demais, pois já estava no portão do Ramanashram. Como poderia eu retornar agora, depois de ter atravessado o Rubicão? Além disso, fui conduzido por um impulso irresistível de conhecer pessoalmente o grande Yogi que - ao contrário do meu próprio preceptor, Sri Aurobindo - estava disponível para todos em todas as horas. E, acima de tudo, queria testar o Maharshi por mim mesmo e ver se ele, com a sua compaixão mágica, me poderia tirar do abismo profundo em que eu havia entrado.
Mas ele fez isso, e contra os meus piores prognósticos, de um modo que eu não poderia explicar como sendo uma imaginação de auto-sugestão. Quero dizer - se houvesse alguma auto-sugestão, isso só poderia ser contra e não a favor de eu receber as benesses. Mas, como os caminhos do Senhor não são os nossos, ganhei uma experiência que eu nunca poderia ter sonhado. Então escute com a respiração suspensa.
Ainda consigo recapturar a emoção da experiência apocalíptica que veio até mim para afastar, como que por encanto, a tristeza obstinada que se tinha instalado no meu peito como um íncubo. Mas, infelizmente, as palavras parecem tão pálidas e banais no momento em que se quer descrever uma experiência espiritual autêntica que é vívida, palpitante e intensa. Ainda assim, devo tentar.
Entrei um pouco, timidamente, num salão grande e despido, onde o Maharshi se reclinava de manhã e à tardinha entre os seus devotos e os visitantes que apareciam. Acessível para todos, o grande santo sentava-se num divã olhando de frente para absolutamente nada. Foi-me dito que ele vivia assim o tempo todo, em sahaja samadhi, que é um estado super-consciente constante. Fiquei realmente fascinado com o que vi, mas nem tentarei retratar com palavras o quão maravilhado eu estava (e porquê) pelo que os meus olhos viram. Pois afinal o que é que eu vi? Apenas um homem magro e meio nu, sentado em silêncio, olhando com olhos vidrados para a janela. No entanto, havia algo nele que me falou - uma beleza indefinível de atitude e uma plenitude que não pode ser retratada com palavras. Escrevi depois um poema [1] sobre ele que pode dar uma idéia melhor, mas não devo desviar-me da minha história.
Toquei seus pés e, sem dizer uma palavra, sentei-me perto dele no chão e meditei, meu coração sem palpitação encontrava-se numa estranha exaltação que se aprofundava mais e mais numa paz inefável impossível de descrever. Minha melancolia e inquietações, dúvidas e interrogações, tudo desapareceu como névoa ao nascer do sol, até eu sentir que estava sendo embalado na crista de uma paz perfeita num vasto oceano de felicidade e luz. Tenho que usar superlativos, pois estou a tentar descrever o melhor que posso a minha experiência de uma felicidade e paz inefáveis que duraram horas e horas. Lembro-me bem de quão profunda foi a gratidão que senti para com o Maharshi naquela noite sem sono e repousante quando me reclinei, banhado em paz, numa cadeira de repouso sob as estrelas para as quais olhei e olhei num êxtase de lágrimas. E lembrei-me de uma frase sua cheia de significado:
"Apenas seja. Tudo está em si. Apenas um véu está de permeio. Só precisa rasgar o véu e então, bem, apenas seja."
Eu tinha até agora achado esta sua observação favorita bastante críptica. Mas naquele momento compreendi pela primeira vez e escrevi um poema em homenagem ao Maharshi.
~ In The Mountain Path (O Caminho da Montanha), Outubro de 1964: https://realization.org/down/mountain-path/1-4.1964-Oct.pdf
[1] “Por que vimos até Vós, Sábio Ramana” - Poema publicado em O Caminho da Montanha, de Janeiro.1966 - https://realization.org/down/mountain-path/3-1.1966-Jan.pdf