Periodicamente, Eva sentia a necessidade de passar algumas horas sem olhar para pessoas com traços de consanguinidade consigo. Isso era desde antes de ter sua própria família, quando enjoava dos pais e ia dar umas voltas pelas ruas de Havana sem se importar com o risco que corria ao ter aquela atitude. Seria visto com maus olhos a cubana falar com convicção que às vezes, precisava ficar longe dos filhos para ficar em paz consigo mesma. A maternidade sempre foi algo muito romantizado para ela... Lhe venderam a ideia que ser mãe era padecer no paraíso. Em nenhum momento havia sido um, Luna era filha do marido, mas seus dois meninos, não. Era aí que todo o problema começava e que a maternidade deixava de ser Stairway to Heaven para ir a um Highway to Hell. Claro, amava profundamente as três crianças que gerou, uma menos de um ano antes, mas era difícil conviver com a ideia de que um dia teria de falar a verdade. Não só para marido, nem para as crianças, mas os genitores também.
Precisava tirar a cabeça daquilo, pensar demais nunca tinha sido uma coisa boa para Eva e por isso calçou seus tênis antes de sentir o ar gelado da rua cortar seu rosto. Olhou para os dois lados e ao invés de pegar o caminho da lojinha de conveniência, pegou o oposto, vazio e ignorando todos os casos de desaparecimento e tragédias que envolviam pessoas sozinhas e caminhos escuros. Se tratando de Gaecheon, tudo poderia acontecer, não fazia muito tempo desde os ataques do druida e a cubana parecia ter esquecido do lockdown e da histeria causada.
Corria pelas ruas, pegando todos os caminhos opostos que sempre pegava. Se normalmente pegava a saída da direita, agora ia pela esquerda. Sem celular e nem documentos, praticamente chamando um roteiro para um caso policial, só ouvia o arfar da sua respiração. Nenhum carro. Nem viatura da polícia.
Um clarão rompeu o céu e Eva gritou, levando as mãos à boca. Naquele instante, nada parecia ser forte o suficiente para dar à médica forças para fugir dali. O medo parecia tê-la feito congelar, enquanto seu cérebro a mandava sair correndo dali. Foi dando passos largos de costas para a origem da luz antes de se virar e começar a correr o mais rápido que conseguia. Não sabia dizer quanto tempo correu, mas se deu conta que estava andando em círculos de alguma forma quando passou três vezes pelo mesmo carro estacionado junto ao meio fio. Levou as mãos à cabeça e soltou um grito antes de voltar a correr tentando se lembrar o caminho de casa. Estava apavorada. Sequer viu que havia alguém caminhando na sua frente, tanto que caiu por cima do desconhecido. Foi o que precisava para voltar à realidade.
“Luz, você viu? Luz!” Apontava para o céu. “Bem aqui, eu vi, eu vi!”