Amo a incerteza daquele olhar, as dúvidas ao meu respeito, a certeza do meu amor. Amo a perturbação em plena madrugada, quando liga e não diz nada, quando fica enciumada e até mesmo quando diz que não quer mais me ver. Amo quando veste minha roupa, quando grita e fica rouca, quando sonha e fica louca, quando beija minha boca, quando implora por meus beijos, quando beija minha face. Amo o desleixo puritano, a ideia solícita de cometer pecados, de se entregar aos prazeres, de loucuras infindas. Amo quando sacia seus desejos, quando deita em minha cama, quando se aninha entre meus braços, quando sussurra em meus ouvidos, quando passeia em meus pensamentos. Amo quando ameaça dizer que me ama, quando interrompe a fala, deixando a frase sem sentido. Amo quando diz que me odeia e insiste que eu não chegue perto, e então não te obedeço, me aproximo e te abraço, e logo você diz que eu não presto. Amo o seu cheiro que impregna o travesseiro, o batom que colore meu colarinho, ou toda marca ou sintoma de carinho. Amo seu jeito piegas emaranhado aos meus clichês, tão anos 80. Amo seus mistérios, suas mandingas, suas superstições, seus enigmas e segredos. Amo a timidez do seu enlace, as pernas torneadas, a confissão de ser amada. Amo as mentiras que não me dizem respeito, as façanhas, as facetas. Amo a ideia de que me tens, a proporção que isso me toma, a convicção de que jamais me abandona. Amo os impasses, as alegorias, os desfalques, as distâncias, as saudades, os suplícios, as corridas, enfim, amo o vocabulário ao lado teu. Amo tudo mais que possa me oferecer. Amo-te da madrugada ao amanhecer, ou até quando ainda puder me pertencer. Amo como quem ousa se deixar amar, sem medo, sem pressa, sem pudor, apenas pelo desfrute do que chamamos de verdadeiro amor.