Carter Fairchild, Capital. Desafio 1. ~mandando pelo tumblr hispter por razões de sim~
- Por que não?
Tally revira os olhos pela milionésima vez em uma hora. Eu apenas suspiro, irritada, e pego um pequeno boneco que está no criado-mudo ao lado de sua cama. Analiso o bonequinho como se fosse a melhor coisa do mundo.
- Porque não, oras – ela responde – Quem quer ir é você, e não eu.
- Eu sei, mas...
- Mas nada – Tally me interrompe. Odeio quando ela faz isso. – Seja feliz se inscrevendo e se matando, eu vou ficar aqui.
Cerro os punhos. Não sei mais o que fazer para convencê-la. Por que minha irmã precisava ser tão cabeça-dura?
- Deixe de ser careta. Vai ser legal! – digo com entusiasmo – Se eu já sou foda sozinha, imagine duas de mim!
Ela revira os olhos. Milionésima e uma vez.
- Eu não sou você, Carter.
- Eu, você, tudo a mesma coisa – dou de ombros – Nós seríamos imbatíveis na arena. Você sabe disso.
- Por que você não se contenta em destruir só a si mesma? – percebo que Tally altera sua voz. Eu estava obtendo progresso – Por que precisa afetar a mim também?
Porque com você fora daqui, a filha preferida seria eu. Quase digo isso, mas me contenho no último momento.
- Eu só quero que você tenha alguma diversão em sua vida.
- Diversão? Jura mesmo?
Assenti.
- Nós passamos os últimos vinte e um anos escondidas entre essas paredes. Nada de emoção, nada de viver. Mamãe e papai nunca nos deixa fazer nada, mas não podem nos impedir disto.
Tally arregala os olhos de repente. Ela abaixa a voz para falar:
- Nossos pais não sabem que você está pensando em se inscrever?
- Claro que não! – sussurro também. As paredes de casa eram finas. – Nunca deixariam. Nos trancariam aqui até o fim do prazo do alistamento.
- Pode ter certeza que é por um excelente motivo. – ela se vira de costas e caminha em direção à porta, mas de repente para e se volta para mim – Aliás, esse quarto é meu. Saia daqui.
Decidi apelar.
- Tally, por favor! – faço minha melhor cara de persuasão. Sempre funciona – Eu nunca pedi nada para você, não pode conceder esse único pedido?
Ela fecha os olhos e suspira, e recoloco o boneco no lugar. Acho que finalmente consegui.
- Se eu me fazer a inscrição, mesmo sem ser selecionada, você promete que cala a merda da boca?!
Sorrio e assinto, sem fazer som algum. Ela joga os braços para o ar, se rendendo.
- Só não diga que sou uma irmã ruim.
Diminuo o sorriso que está em meu rosto. Tally sempre fora o centro da família – sempre recebendo mais elogios, sempre ganhando os melhores presentes, sempre sendo mais amada. Minha irmã era a gêmea perfeita: simpática, bondosa, doce, paciente, bonita (não posso negar; somos idênticas). Com isso, todas as desgraças humanas tiveram que cair sobre mim. Mas é claro que Tally não percebia o era fardo que era para mim.
- Claro, Tally – respondo – Você é a melhor irmã que alguém poderia querer.
(...)
Não há quase ninguém na mansão presidencial.
Na verdade, está vazia – com exceção de alguns funcionários, como o zelador interessado demais na tarefa de deixar o piso brilhando e a mulher sentada atrás de um balcão anotando algo em um grande caderno.
O hall de entrada era gigantesco. O teto fazia um arco sobre nossas cabeças e terminava em duas colunas – uma de cada lado. Lembrava algo como um palácio real ou algo do tipo.
Tally aceitou mandar sua ficha para o alistamento dos Jogos Vorazes, mas fez questão de ir logo em seguida – pois nossos pais não estavam em casa e também para que ela não mudasse de ideia ao longo do dia.
Não me importei. Quanto mais rápido eu fizesse isso, melhor. Antes que eu me pense melhor em minhas verdadeiras intenções.
- Olá – Tally cumprimenta a mulher que fazia anotações no caderno, sorridente. Resisto à tentação de revirar os olhos.
- Como posso ajudá-las?
- Estamos aqui para o alistamento – digo – para os Jogos Vorazes.
A mulher ergue uma sobrancelha.
- Sério? – ambas assentimos – Qual de vocês irá?
- Nós duas – eu e Tally dizemos em uníssono.
Ela pisca e abre uma gaveta, retirando duas folhas de papel e em seguida nos entregando. Ela aponta para além de nós – para um conjunto de mesas – e diz que podemos preencher as fichas ali.
Tally sai na frente. Estou atrás dela quando chamo pela mulher outra vez:
- Por que ficou tão surpresa conosco? – pergunto.
- Bom... Vocês foram as únicas pessoas interessadas nos Jogos que vieram aqui hoje.
Engulo em seco. Se ouvisse isso, provavelmente Tally desistiria na hora. Pego a inscrição e sento-me a duas mesas de distância de Tally. Ela realmente não poderia suspeita de nada.
Agora bastava apenas esperar. Seguro a caneta e finjo escrever na folha, mas não tiro o olho de minha irmã. Ela havia mesmo acreditado naquela história de “seremos imbatíveis na arena”? A intenção nunca fora essa. A ideia original era convencer Tally a ser tributo, mas não comigo. Tenho certeza que se ela mandasse a ficha, seria selecionada: como a própria mulher disse, é bem incomum tributos vindos da Capital.
Mas eu não iria com ela. Entregaria a ficha em branco. Tally iria sozinha para a arena, e como não tem nenhuma experiência em sobrevivência ou armas, morreria logo. E então a filha favorita seria eu.
- Problemas para preencher o formulário? – Tally pergunta. Ela está de pé, logo ao meu lado. Como não a vi se aproximando?
- Eu... É. – digo, sem jeito. Não a encarei; sei que meu rosto está corado – Estou travada. Não sei o que escrever.
- Que tal começar por seu nome? – ela aponta para o espaço onde iria minha identificação. Rio um pouco para quebrar o clima tenso.
- Claro – concordo – Meu nome.
Espero que Tally saia logo em seguida, mas ao invés disso, ela permanece onde está. Respiro fundo. Meu plano estava mesmo indo por água abaixo?
- Você... Já entregou a sua? – pergunto.
- Acabei de levar lá. Sinceramente, achei que você terminaria primeiro! – Tally ri, e eu sinto o coração dar uma batida a menos. Ela realmente não imaginava o que eu pretendia fazer.
Estava tudo acabado. Meu plano não iria funcionar. No fim, eu teria que ir para arena junto com Tally. Minha emboscada se voltou para mim.
Então fiz a única coisa que me restou: escrevi Carter Fairchild onde se lia “nome completo”.
(...)
Mandei Tally para casa e disse que precisava de um tempo sozinha – eu não conseguiria encará-la novamente por um bom tempo. Como eu pude deixar que minha estratégia falhasse? Eu estava tão certa de que funcionaria... E agora, o preço da minha falha será paga com a arena.
Passei anos e anos treinando como se fosse um tributo carreirista, assisti aos Jogos como uma expectadora fiel, vivo falando do evento, tudo para parecer mesmo que eu estava interessada. Não que eu não estivesse – os Jogos realmente me fascinavam, desde que eu estivesse do outro lado da tela. E o pior de tudo – não posso deixar que Tally desconfie de alguma coisa. Se ela descobrir, será o fim.
Percebo que eu não estava andando sem rumo, afinal. Acho que se passou apenas meia hora até eu chegar aqui – na casa de Ryan McCartt. Ryan era filho de um dos pacificadores da Capital e, assim como eu, tinha certo apreço pelos Jogos Vorazes.
Talvez seja por isso que nos damos tão bem. O resto do país – inclusive Tally – apenas via os Jogos como uma lembrança das rebeliões, tanto da primeira – quando começaram – como da segunda – quando terminaram. Mas pararam apenas por pouco tempo: alguns anos depois que o presidente Snow morreu, Paylor – a nova presidente – ordenou que os Jogos permanecessem. E então criou a nova era dos Jogos Vorazes: nada de colheitas obrigatórias. A arena era para quem queria ir, originando assim o alistamento. Geralmente os distritos 1, 2 e 4 têm tributos todos os anos, com alguns de distritos menores porém fortes, como 5 e 7. Mas a Capital, por ser a Capital, é muito raro.
- Olhe só quem está aqui – não percebi Ryan saindo da casa – Carter ou Tally?
- Adivinhe. – faço minha melhor cara de desafio. Sei que ele gosta.
Ryan atravessa o portão de sua casa e vem de encontro a mim. Não desvio o olhar ou recuo o passo. Ele se aproxima tanto que ouço com clareza as palavras que sussurra em meu ouvido:
- Carter?
Sorrio. Quando percebo, Ryan já me segura contra a grade do portão de sua casa. A rua não era movimentada; a impressão que dava era que havíamos apenas nós ali. E para mim, era realmente isso.
- Como adivinhou? – perguntei, afastando-o.
- Vamos ver... – Ryan faz uma cara pensativa – Talvez porque Tally não sabe que eu existo? – ele sorri e beija minha testa – Ou talvez porque você sempre vem à minha casa? – outro sorriso e outro beijo, dessa vez na ponta do nariz – Ou quem sabe porque você é a única garota da Capital que sabe falar “adivinhe” de uma maneira diferente?
Realmente, Tally não imaginava a existência de Ryan – nem meus pais; nem ninguém. Eu o conheci há dois anos, num dos bares da Capital que eu costumava frequentar. Desde então, tenho visitado Ryan regularmente às escondidas. Seu pai não sabia de nada também. Juntos, éramos o segredo da Capital.
- Você chegou cedo hoje – comentou ele, me tirando de meus devaneios – Meu pai está em casa. Aconteceu alguma coisa?
Congelo. Eu quase, quase havia me esquecido.
- Bom... Na verdade aconteceu sim.
Ryan olha ligeiramente para trás, e logo em seguida se volta para mim.
- Seja lá o que for, aqui não dá.
Sei o que aquilo significa. Sempre que precisamos conversar sobre algo sério sem que ninguém nos atrapalhe, recorremos ao nosso refúgio no centro da Capital: o pequeno bar onde nos encontramos. É o mais próximo que temos de um “lugar só nosso”. Foi naquele bar, aliás, que recebi a ideia de mandar Tally para a arena.
Enquanto caminhamos até lá, fico tentando imaginar o que aconteceria se eu fosse selecionada para os Jogos Vorazes. Minhas chances não são zeradas: em minha tentativa de parecer uma fanática, pedi para que Ryan me ensinasse o que ele sabia em combate – pedi a ele, já que seu pai era um pacificador. Havia um vasto arsenal com uma grande variedade no porão de sua casa, com todo o tipo de arma já usada nos antigos Jogos. Era como se eu realmente fosse uma carreirista.
Tally, ao contrário, sequer sabe segurar uma faca direito. E não faz questão de aprender o jeito certo – ela abomina tanto os Jogos Vorazes que só a ideia de ferir alguém é absurda. Talvez seja por isso que eu seja uma pessoa tão ruim. Minha irmã ficou com toda a bondade.
O bar está praticamente vazio, apenas duas mesas ocupadas e a garçonete no balcão. Sempre fora assim – nada de multidão aglomerada. Era realmente um ótimo lugar para discutir estratégias de manipular os familiares.
- Não deu certo – digo quando Ryan pergunta o que aconteceu – Tally mandou a ficha dela, mas eu também mandei uma minha.
- Você o quê?! – seus olhos estavam arregalados – Por que fez isso?
- Eu precisei! Ela não me deixou “preencher” o formulário sozinha. Não podia colocar tudo a perder.
- Você vai perder a sua vida, isso sim – ele diz. A garçonete de antes aparece e deixa dois copos em nossa mesa – Pelo menos diga que Tally não descobriu a verdade.
- É claro que não descobriu – dei um gole num dos copos. Vodka, sem dúvidas – É por isso mesmo que eu precisei me alistar. Para não levantar suspeitas.
Ryan suspira e vira o conteúdo do copo de uma vez. Logo em seguida, pede outra dose.
- Você sabe que a possibilidade de ir para a arena é grande, não sabe?
- Claro que sei. Por isso o plano era perfeito.
- É, mas o tiro saiu pela culatra.
- Por que você se importa tanto se eu vou para a arena ou não, Ryan? – minha pergunta sai mais áspera do que pretendia – Não somos exclusivos um do outro, você sabe disso.
- Eu também vou estar nos Jogos.
A declaração me pega de surpresa. De todas as ciosas que Ryan poderia dizer, essa era justamente a única que eu não esperava ouvir.
- Você se alistou?
- Não, não como tributo – Ryan desmente. Sinto um peso sair de meu peito – Não estarei na arena.
- Ah, certo. Vai ser Idealizador?
- Isso – ele confirma – Idealizador.
Não digo mais nada. Logo, a garçonete retorna com a outra dose de vodka – que, assim como a anterior, não demora a se esgotar.
- Bom, você está fodida – Ryan diz – Então só resta uma coisa a fazer.
- Entrar num coma alcóolico?
- Não. Treinar.
(...)
De todas as armas do arsenal de Ryan, havia uma única que eu ainda não havia tocado – o revólver de seu pai. Essa era a arma mais utilizada pelos pacificadores, por isso tantos exemplares e de tantos tamanhos diferentes.
- Aprenda a usar qualquer uma dessas, e eu garanto que receberá vários paraquedas.
Assinto, sem dar muita importância. Esperamos algum tempo antes de retornar à casa de Ryan, para ter certeza que seu pai não estaria aqui. Caminho por entre todas aquelas armas de fogo e escolho uma pequena, fácil de segurar.
Há três alvos pintados na parede larga à minha frente. Concentro-me no do meio e fecho os olhos. Então puxo o gatilho.
Só percebi meu erro quando foi tarde demais. O revólver deu um coice assim que disparou, me fazendo perder o equilíbrio e pender para trás. E, ainda por cima, errei o alvo.
- Faça assim – Ryan se aproxima e me manda segurar o cabo da arma com as duas mãos. Ele ergue meus braços até a altura do peito e me faz recuar um passo, para não desequilibrar novamente. Disparo. Funciona. – Agora repita esse processo cem vezes.
- Vai sonhando – reviro os olhos e disparo novamente.
Ele ri fracamente e pega outro revólver, analisando o próprio reflexo no cano. Percebo que ele leva um pequeno susto a cada tiro meu. Rio baixinho.
- Você nunca me disse de onde tirou essa ideia. – ele comenta.
- Que ideia?
- Essa. De mandar a sua irmã para a arena. – Ryan faz uma pausa – É algo bem cruel.
- Eu não me lembro de como pensei nisso – respondo – Faz muito tempo.
Eu estava mentindo. Eu lembrava muito bem.
(...)
Eram 19h37 quando saí da casa de Ryan. A tarde inteira foi basicamente desperdiçada puxando gatilhos e acertando alvos no porão de sua casa. Em momento algum seu pai apareceu. E, quando a brincadeira no arsenal perdeu a graça, subimos para seu quarto.
Eu sabia que precisava estar em casa antes do anúncio dos selecionados. Eu precisava saber se um milagre cairia sobre mim, e no final, o plano funcionasse. Ainda poderiam escolher Tally como tributo, e me deixar onde estou. Afinal, não há necessidade de duas de mim aqui.
Mas o contrário poderia acontecer. A selecionada poderia ser eu, e as mesas poderiam virar de vez. O quão azarada posso ser a ponto de isso acontecer?
Se eu fosse para os Jogos, não sei se faria alguma diferença: para nenhuma das partes. Minha família continuaria com Tally, e eu estaria longe deles – o único de quem eu sentiria falta, se sentisse, seria Ryan. Minha irmã teria 100% da atenção de nossos pais, enquanto eu teria pelo menos 5% da atenção do país inteiro. Talvez eu saísse ganhando.
E todo o tempo gasto praticando lutas armadas não seria em vão, afinal. Eu não seria tão inexperiente assim.
Acelero o passo ao ver que faltam dez minutos para o anúncio. Eu costumo ficar o dia inteiro fora e retornar quando o sol não é mais visível, mas hoje em especial eu preciso me adiantar. Não é possível que eu e Tally tenhamos sido as únicas pessoas da Capital a se alistar.
Ou será que sim? Os Novos Jogos eram mal vistos por toda Panem, mas principalmente para a Capital – até porque, nada mais era do que uma punição criada por eles mesmos se voltando contra. E é tão incomum pessoas daqui se alistarem; a maioria é indiferente aos Jogos, e o resto não tem nada pelo que lutar.
Passo em frente ao bar de algumas horas antes. Suspiro ao analisar o palco do início de tudo; as luzes ainda estão acesas e as mesmas pessoas que estavam ali antes permaneciam nos mesmos lugares.
Eu tinha dezessete anos quando passei por aquela porta e dei de cara com uma mulher totalmente desconhecida, a qual eu nunca havia visto por ali. Seus traços indicavam que sua idade não era muito avançada, uns vinte anos no máximo, e sua postura era de alguém importante. Mas mesmo assim, eu nunca a tinha encontrado antes.
Eu havia saído de casa devido uma discussão com Tally. Simplesmente não suportava mais olhá-la na cara e vi que me afastar seria o melhor. Então recorri ao meu esconderijo especial, onde eu sabia que ninguém me procuraria. Sentei-me num dos bancos no balcão e me deixei desabafar sobre todos os acontecimentos ruins na minha vida com Tally envolvida.
- Mas que desgraçada.
- Acho bom, para o seu próprio bem, que não tenha falado comigo.
Só então me dei conta de que eu estava logo ao lado da estranha mulher. Ela virou seu copo e passou a me encarar, com seus olhos calmos, mas perigosos.
- Não, claro que não – eu disse – Eu não te vi aí.
Para minha surpresa, sua expressão se tornou ainda mais letal.
- Então eu sou invisível, ahn?
Revirei os olhos.
- Só me deixe em paz.
Sabia que daquela vez eu havia de fato ofendido. Pensei ter visto-a fazer cara feia, mas na verdade seu semblante se suavizou. Ela passou a me olhar entretida.
- Parece que temos alguém com pensamentos ruins aqui – ela comenta.
- Que bom que notou.
- Por que você não divide sua discórdia comigo? – a mulher sorriu, convidativa. Talvez a solução fosse essa: desabafar com uma desconhecida.
- É muito a se dizer – ri fracamente.
- Eu tenho todo o tempo do mundo, quanto a isso.
Suspirei, e comecei a falar. Narrei praticamente minha vida inteira – desde quando Tally e eu éramos menores e as crianças sempre preferiam-na nas brincadeiras, até minha atual situação, onde em minha própria casa eu era a segunda opção. Em alguns momentos a mulher inclinava a cabeça como eu fosse a coisa mais interessante do mundo, mas sem perder o ar de mistério.
- Então você está dizendo que odeia sua irmã? – ela perguntou, quando termino.
- Basicamente – dei de ombros. Não era totalmente mentira; eu odiava ser esquecida.
- E não se livrou dela ainda por quê?
- Como assim?
- Se essa Tally destrói tanto a sua vida, por que ainda convive com ela?
Era uma pergunta interessante. Se meu desprezo era tanto, não havia motivo para eu ainda suportar Tally.
- Está dizendo que eu deva matar Tally? – perguntei. Seus olhos brilharam de um jeito sinistro.
- Agora estamos nos entendendo.
Olhei para ela. Fiquei imaginando se não era uma pacificadora disfarçada – ou pior, uma assassina em série.
- Não sei se conseguiria – murmurei.
A mulher ergueu as sobrancelhas. Parecia surpresa, mas ainda entretida.
- Já entendi – ela declarou – Você quer matá-la, mas não quer sujar as mãos.
Talvez fosse isso. Assenti.
- Nesse caso, deixe que façam o trabalho sujo por você – ela apontou para frente, para além de mim, e então me dei conta de que a mulher estava indicando uma tela. A cena que se passava era de um garoto bem mais novo do que eu segurando uma lança, e atacando uma menina mais velha totalmente desarmada.
- Os Jogos Vorazes? – perguntei. Ela assentiu – Como?
- Fácil. Faça o alistamento ser uma tentação. Sei que você pode ser bem persuasiva, se quiser.
Assenti, olhando para o balcão.
- Vou fazer isso ano que vem.
A mulher mudou de expressão.
- Não, não. Tudo tem que parecer real, você sabe. Espere alguns anos para isso.
- Alguns anos? – reclamei – Por que tanto tempo?
- A vingança é um processo lento – ela advertiu – É necessária muita paciência.
Pisquei. O que eu teria que fazer para parecer real?
- Tudo bem – concordei – O que eu terei que fazer exatamente?
A mulher suspirou, mas não estava entediada.
- Apenas finja que os Jogos lhe agradam. Faça o possível para pensarem que seu sonho é ser uma tributo. E quando achar que é a hora certa, convença sua irmã a se alistar com você.
- Então eu serei tributo também?
Dessa vez, ela revirou os olhos com desdém.
- Não seja tão otária – senti a maldade em sua voz, mas não fiz nada além de ouvir – Você só vai fingir que vai se inscrever, quando na verdade entregará a ficha em branco. É simples. É fácil.
- É cruel.
- É exatamente o que você precisa.
Ela estava sorrindo quando disse aquilo. Por um momento, não parecia uma sugestão de uma desconhecida que queria ajudar, mas sim uma execução planejada. Senti remorso. Mesmo que todos preferissem Tally, mesmo que ela fosse mais esperta, mais simpática, mais sociável e talvez até melhor que eu, não era culpa dela. Talvez a culpa fosse minha, por não ser tão boa quanto. E, apesar de tudo, ela era minha irmã.
- Diga um número – pedi à mulher. Ela pensou por um momento, e então me respondeu.
- Quatro.
- Ótimo – eu disse – Daqui a quatro anos, o plano começará de verdade.
Por fim, a tão desconhecida deu um risinho e pediu a conta. Ao pagar, ela deu um aceno rápido para mim e foi em direção à saída, mas de repente parou e se voltou para mim outra vez:
- Eu não sei o seu nome – ela disse.
- Carter Fairchild – respondi. Percebo que estou sorrindo também – E o seu?
O sorriso que ela me lança é frio.
- Você pode me chamar de Pryor.
Desde então, nunca mais vi Pryor em lugar nenhum. Era como se ela fosse uma espécie de anjo negro que desceu a Terra apenas para me encontrar e me dizer o que fazer. Eu também não fiz questão de procurá-la. Talvez Pryor não quisesse ser achada.
Quando finalmente avisto o portão de minha casa, sei que não cheguei a tempo. Devo ter passado alguns minutos, mas mesmo assim, a Capital é sempre pontual. Diminuo o passo conforme a casa cresce à minha frente, de modo que quando estou bem na porta, paro. Agora eu iria descobrir, de uma vez por todas, e o plano de Pryor funcionara.
Abro a porta.
- Você! – meu pai aponta para mim acusatoriamente – Você obrigou sua irmã a se alistar para os Jogos Vorazes com você.
Não digo nada. A expressão de meu pai é de raiva; minha mãe e Tally estão abraçadas e se esvaindo em lágrimas. O que significava duas coisas: ou a sorteada fora Tally, ou a sorteada fora eu.
- O que? Eu... – volto-me para Tally – Você contou a eles?
Tally balança a cabeça num “não”.
- Nem precisou, Carter. Vocês foram escolhidas. Vocês duas. – não sei de onde tiro coragem para encarar meu pai. – Mas é claro que vocês foram escolhidas. Até parece que eles iriam perder uma história dessas. Duas irmãs da Capital indo para os Jogos Vorazes juntas. É tudo muito dramático, não é mesmo?
- Pai, por favor... – Tally pede com uma voz melosa demais (se eu não estivesse tão fodida, até reviraria os olhos). Meu pai nem lhe dá ouvidos.
- Não Tally, sua irmã tem que ouvir! – ele olha novamente para mim – Como você teve coragem de enganar sua irmã só para ir aos Jogos? E por que diabos você quer ir aos Jogos Vorazes? Será que tudo o que você aprendeu sobre eles na escola não foi suficiente?
- Você fala como se fosse a pior coisa do mundo – murmuro.
- Porque é! – meu pai retruca.
- Não, não é! – dessa vez, levanto a voz. Com o canto do olho, vejo Tally se encolher – Sabe o que é tão ruim assim? Viver presa nessa droga de casa sendo obrigada a olhar para a cara dela – aponto para Tally – todos os dias sabendo que eu nunca vou ser considerada como ela é!
- Do que você está falando? – pela primeira vez, ouço a voz de minha mãe.
- Ah, por favor! Tally sempre fora a filha perfeitinha de vocês. Tanta perfeição que eu sou apenas um detalhe na família!
Sei que minha irmã está bem ao meu lado, escutando e assistindo tudo, mas as palavras praticamente pularam de mim. Guardar todo aquele desprezo por tanto tempo não era uma coisa boa, mas talvez se livrar dele fosse pior. Que culpa tinha Tally se todos a preferiam?
Toda. A culpa era toda dela.
- E vocês querem saber de uma coisa? – olho para todos; para Tally, para meu pai, para minha mãe – Eu prefiro mil vezes morrer naquela arena que morar aqui!
Minha voz falha ao dizer a última sentença. Não sei se era mesmo verdade – era melhor conviver com a concorrência ou morrer tentando se livrar dela? Seja lá qual for a melhor opção, não aguentei mais permanecer naquela sala. Virei de costas e subi as escadas batendo o pé.
(...)
Estou deitada na cama. Encarando o teto. Há três horas.
Não me conformo em como consegui não ter falado sobre o plano inicial. As coisas que eu disse saíram tão espontaneamente...
Eu esperava que a selecionada fosse Tally ou eu, mas as duas juntas foi realmente uma bomba para mim. Toda a estratégia fora traçada exatamente para eu não ter que matá-la eu mesma. E a partir de amanhã, nós seríamos oponentes naquele sádico jogo.
Mas, por outro lado... Eu teria um pretexto para matar Tally. Seria sua vida ou a minha. Seria justo, até.
O que eu estou dizendo? É claro que eu nunca teria coragem de sequer feri-la, mesmo com tanta vontade dentro de mim. Não sei por que, mas por mais que ela estragasse tudo, ela conseguia consertar. Como? Sendo a única pessoa que de fato se importa comigo, além de Ryan.
Na verdade, nem sei se Ryan se importa também. Qual teria sido sua reação ao ver meu nome na lista de selecionados? E, por ironia do destino, ele quem assinaria minha sentença de morte, já que se tornaria um Idealizador.
Viro de lado, encarando a janela. A quantidade de estrelas já é bem reduzida desde a última vez que eu checara. Acho que está amanhecendo. O que significa que em breve chegará alguns funcionários da Capital para nos levar daqui.
E o pior de tudo: Tally realmente acredita que tudo fora o destino. Nem se passa por sua cabeça o fato de tudo ter sido feito cuidadosamente com a finalidade de prejudicá-la. Ela acredita que eu sou a irmãzinha querida que faria qualquer coisa por ela.
De fato. Eu faria qualquer coisa.
Devo ter dormido em algum momento, pois lembro-me de ser acordada pela minha mãe, que dizia que eles estavam nos esperando na sala. Vesti uma roupa qualquer e desci as escadas.
Havia dois pacificadores, um de cada lado da porta de entrada. Tally já estava lá, seus olhos estavam vermelhos e seu rosto estava inchado. Ao lado dela, meus pais me fitavam com uma expressão que não consegui ler – acho que tristeza, incredulidade e até saudades.
Sem dizer uma palavra, permiti que minha mãe me envolvesse num abraço. Mesmo depois das coisas que eu disse ontem à noite, ela parecia a mesma de sempre – calma e serena.
Os pacificadores fizeram menção de sair, o que nos deu a deixa. Com um último aceno, deixamos nossa casa. E dessa vez, sei que pelo menos uma de nós não retornará.
Entramos no carro que nos conduziria até o prédio dos tributos. Era um veículo extenso – além de nós, havia mais quatro pessoas que deduzi que seriam nossos estilistas e mentores. Não fiz questão de olhar em suas caras. Ninguém ousou fazer sequer um ruído.
Alguns minutos depois, estávamos no prédio dos tributos. Tally foi levada para um quarto, e eu para outro. Reparo que duas das pessoas que estavam conosco no carro eram um menino moreno e uma garota ruiva, que devem corresponder a mentor e estilista de Tally. Comigo, restam dois garotos.
- Então você é a Carter – disse o mais alto. Seus cabelos eram castanhos e seus olhos eram incrivelmente azuis. Eu assenti – Meu nome é Nathan Ainsworth. Eu serei seu mentor.
Sua voz era firme e decidida. Um tanto intimidadora, eu diria.
- Eu vim do distrito 2 – continuou ele – O maior distrito carreirista de Panem. E você, pelo que sei, é praticamente uma carreirista.
- Como assim “pelo que sabe”?
Só então parei para analisar meu suposto estilista. Ele estava de cabeça baixa, mas pode ver seus cabelos brilhando em dourado e uma pequena cicatriz nas costas da mão esquerda. Aquela cicatriz...
- Ryan! – chamei. Ele finalmente ergue o olhar – apenas para me encarar com um olhar de culpa. – Por que mentiu?
- Ser estilista não é exatamente a coisa mais respeitosa do mundo – ele afirma.
- Achou que eu fosse julgar você?
Saber que Ryan não confiava em mim foi a gota d’água. Sem nenhum motivo restante para permanecer ali, viro de costas e saio pela porta. Ignoro meu nome sendo chamado, continuo caminhando sem rumo pelos corredores do prédio – até eu avistar uma mulher no fim de um corredor, com cabelos ruivos ardentes e uma expressão calma, conversando. Mesmo com um cabelo diferente, eu a reconheci.
Pryor.















