Ds1 Luke Snow-Capital
Estava sentado no chão. Olhos vidrados na parede branca, braço dolorido e cortado, barriga vazia (resultado de uma semana sem me alimentar). Ouvi uma batida na porta. Obviamente era minha mãe tentando me dar comida. -Lu? Posso entrar?-Ela falou por trás da porta -Tenho opção?-Falei da forma mais fria possível-E outra coisa! Não me chame assim! -Ok senhor extressado! Você não tem opção!-Ela falou. Não respondi. Apenas fiquei em silêncio sem desviar os olhos da parede. -Trouxe pão pra você!-Ela falou colocando uma bandeja ao meu lado. -Não quero!-Foi a única coisa que disse. -Você não come a dias bebê! Pensei em algo bem horrível para dizer. -Não me chame assim!-Foi a única coisa que falei. -Você vai comer Lucian Snow! -Não me chame assim!-Falei com ódio finalmente olhando ela nos olhos. -Esse é seu nome!-Ela falou irritada. -Não gosto dessa porra de nome! Me chame de Luke! Só Luke! Sem bebê, sem Lu e principalmente sem Lucian! Certo?-Falei totalmente sem controle. Ela não falou nada apenas me olhou irritada e saiu do quarto. Assim que vi a porta bater me levantei e fui até a minha cômoda e abri a primeira gaveta. Tirei um caderno de lá e puxei uma faca reluzente que estava embaixo dele. Voltei para o lugar onde eu estava e suspirei. Olhei para o meu braço coberto de cicatrizes e busquei um lugar vazio. Posicionei a faca perto do pulso e me cortei. A dor era grande, mas me sentia melhor com aquilo. Me aliviava. Era um jeito de me castigar. Me castigar por ser parente de um ser desprezível que destruiu vidas, matou por poder, que pouco se importou com a dor que as pessoas sentiram. Me castigar por não poder ter ajudado. Me castigar por ter vivido bem enquanto se empilhavam corpos dos distritos. Me castigar por ter comida e bebida em abundância enquanto pessoas passavam fome. Me castigar por estar vivo… O sangue começou a escorrer pelo meu braço. Me deitei no chão e olhei para o teto. Naquele dia seria o dia das inscrições pros jogos. Tinha vontade de ir lá. Repentinamente a porta se abriu. Era Frieda. Usava um vestido branco curto e o cabelo preso em um rabo. Não me levantei. -Luke! Por favor vamos comer algo!-Ela falou calmamente, mas é claro que com um tom de ordem, como se me obrigasse a comer. -Bom dia Frieda! Tudo bem com você?-Falei sarcasticamente e notei que ela se continha em não vir até mim e me bater. -Por favor Luke! Por mim!-Ela parecia realmente preocupada. Notei que ela virou os olhos para a faca e para o sangue em meu braço-Luke…-Ela falou de cabeça baixa-Você voltou com isso? Finalmente me sentei e olhei para ela. -Bem, não é como se eu já tivesse parado!-Foi só o que eu disse. -Você não precisa se culpar, Luke. Não precisa se culpar pelo que ele fez. Não precisa se culpar pelo seu pai, pela mamãe. Por ninguém. A culpa não é sua. -Não?-Falei olhando nos olhos dela-Então de quem é a culpa? Percebi a arrogância em minha própria voz e desviei os meus olhos do dela. Ela havia sofrido como eu. Sido discriminada como eu. Viu meu avô fazer o que fez como eu. Poderia estar se sentindo como eu. Mas achou um jeito melhor de lidar com tudo isso. -Minha?-Ela falou finalmente como se sentisse culpada. -Claro que não.-Falei a encarando. A ultima coisa que eu queria era que ela se sentisse culpada. Não queria correr o risco de vê-la na mesma situação que eu. Eu gostava da minha irmã, como nunca gostei de outra pessoa naquela casa. Ela parecia se importar mais comigo do que com seu status social as vezes. Coisa rara naquela mansão. - Okay. Apenas vai comer…-Ela encerrou a conversa, ainda parecendo um pouco insegura sobre o que eu disse. Então ela saiu batendo a porta e ela acabou nossa conversa como sempre: eu dizia algo que a intrigava e ela em sua defesa me dava uma ordem que eu obviamente nunca cumpria. Me deitei de novo e voltei aos meus pensamentos. Ir para os jogos era uma boa maneira de me sentir melhor. Queria sentir na pele a dor dos tributos. Claro que me olhariam como um inimigo, alguém que havia destruído suas vidas, mas eu não ligaria! Cresci diante de olhares duvidosos e de pré-conceitos! Eu estava decidido! Iria até a mansão e me inscreveria nos jogos! Me levantei com esforço e fui até o meu armário. Meu quarto tinha apenas três móveis: cama, cômoda e armário. O bastante para viver. Abri a porta do guarda-roupa e peguei uma camiseta e uma calça jeans. Detestava as roupas da Capital! Me vesti o mais rápido que pude e olhei para o meu braço. O sangue não havia nem começado a coagular. Abri a porta do quarto e a fechei com cuidado quando saí. Andei sem fazer barulho pelos corredores para não chamar atenção. Desci as escadas devagar e quando finalmente cheguei na saída fui barrado por um segurança. -Recebi ordens de sua mãe para não deixa-lo sair senhor!-Ele disse olhando para mim. -E eu te dou ordens para que você saia da minha frente senhor!-Falei tentando empurra-lo, mas ele parecia uma montanha. -Não posso senhor!-Ele falou -Me deixe sair senhor! É importante senhor!-Falei começando a me irritar. -Me desculpe senhor! Não posso senhor! Apenas o olhei irritado e me virei de costas. Ele pareceu se acalmar e voltou para o seu posto. Subi as escadas de novo e voltei para o meu quarto. Minha mãe sabia que eu iria sair pra isso. Bati a porta do meu quarto e a tranquei. Fui em direção a janela e a abri. Olhei para o chão. A queda era arriscada. Era alto. Mas minha vontade de ir para os jogos era bem maior. Coloquei uma perna pra fora e depois pus a outra. Olhei uma ultima vez para o chão e me joguei. Caí estranhamente de pé. Mas o impacto chamou a atenção dos seguranças. Eles me olharam e começaram a correr na minha direção. Demorei uns cinco segundos para processar o que estava acontecendo e depois comecei a correr em direção a o portão. O portão não estava longe, mas parecia estar a dez quilômetros. Vi que eles se aproximavam. Corri o mais rápido que pude e cheguei no portão. Comecei a escala-lo. Naquele momento agradeci a minha mãe por ter me obrigado a fazer aulas de parkour. Assim que cheguei no alto do portão os seguranças chegaram. Me levantei e pulei de novo sobre o portão. Dessa vez caí deitado. Eles me olharam por uns segundos e depois foram até o portão para abri-lo. Mas me levantei e mesmo doído saí correndo. Meu pé estava dolorido e meus joelhos arranhados. Eles começaram a correr, mas desistiram e voltaram para dentro de casa. Obviamente falariam pra minha mãe. Que me mataria depois. Continuei correndo até ter certeza que eles estavam longe. Depois de um tempo olhei para trás. Estava sozinho. Respirava ofegante. Meu pé parecia ter quebrado. Olhei em volta e vi onde estava. A minha antiga mansão ficava perto dali. Comecei a andar em sua direção, me esforçando para não chamar atenção. Aqueles malditos falariam para minha mãe que eu havia fugido e eu provavelmente teria que ouvir sermão. As pessoas não me olhavam, parecia que não haviam me visto correr que nem um louco a poucos segundos. Agora eu já estava em frente a mansão onde cresci. Sempre grandiosa e acolhedora. Um grupo de pacificadores estava na porta. Suspirei. Aquele lugar era recheado de lembranças. Tristes e felizes. Me lembrava de mim correndo pelos corredores e sorrindo. Sorrindo de verdade. Sem fazer força e sem sarcasmo. Eu conseguia ser feliz. Acho que depois que descobri o que meu avô fazia não consegui mais olhar para ele e sorrir. Não tinha mais essa capacidade. Me lembrava de meu avô berrando quando eu quebrava as coisas: “Lucian! Isso foi caro! Mas é pra isso que serve o dinheiro, não? Para gastar mais! Não se preocupe! Vovô compra outro!” Ele era sempre tão legal e parecia me amar! Contava histórias para mim… Cuidava de mim quando eu me machucava… E me chamava de Lucian… Acho que isso que me fez renegar meu nome! Meu avô me chamar assim. Acho que me lembrar dele sorrindo pra mim e me chamando assim me machucava. Me lembrar que era amado por um monstro. Mas mesmo com tudo o que ele fez sofri quando ele morreu. Olhei de novo para aquela casa e fechei os olhos. As lembranças não me impediriam de fazer o que queria! Subi as escadas devagar e vi os pacificadores me encararem. Era como se vissem um alienígena vindo na direção deles. -Bom dia!-Falei parando em frente a eles. Eles abaixaram a cabeça como se tivessem medo de me olhar nos olhos. -Bom dia senhor Snow!-Eles disseram em conjunto. Acho que eles não esperavam me ver ali. Imagino que fosse surpreendente ver o neto do antigo chefe deles se inscrevendo para algo que ele usava para castigar inimigos. Passei por eles e entrei pela grande porta. Tudo estava como me lembrava. Perfeitamente arrumado, com móveis caros que pareciam ter a função de causar inveja nas visitas… Enfim, tudo feito para marcar uma posição superior socialmente. Uma mulher estava sentada em uma mesa com uma pilha de folhas a sua frente. Ela me olhou com a mesma surpresa dos guardas. -Bom dia!-Falei -Bom dia Lucian!-Ela sorriu e puxou uma folha da pilha na sua frente-Vai se inscrever? -Sim!-Olhei em volta, o lugar estava vazio- Parece que só eu vou né… -Você chegou cedo senhor Snow! Acho que as pessoas vão chegar depois! -Tomara…-Falei num tom quase inaudível enquanto pegava a folha que a mulher me oferecera. Tinham apenas cinco perguntas na folha: Nome: Idade: Endereço: Motivo: Olhei para a mulher envergonhado. -Tem um problema… Não sei meu endereço… -Tudo bem! Sabemos bem onde você mora!-Ela falou sorrindo. Comecei a preencher a ficha. Nome:Lucian Snow. Idade:21. Endereço: Não sei. Motivo… Vontade própria. -Só isso?-Perguntei surpreso. -Só!-Ela afirmou-Tenha uma boa tarde senhor Snow! Entreguei a ficha preenchida e saí. Os pacificadores me olharam de novo enquanto eu descia as escadas. De repente senti uma tontura. Como se o mundo estivesse girando. Parei no degrau que estava. E antes que pudesse fazer qualquer coisa, virei meus olhos e caí desacordado. Acordei com a cabeça doendo. Não quis abrir meus olhos. De repente ouvi uma voz a o meu lado. -Você está acordado? Abri devagar um olho e me virei para a voz. Era uma enfermeira. Ela me olhava preocupada. -O que aconteceu?-Falei massageando minha cabeça. -Graças a Deus você está bem! Os pacificadores da mansão te viram cair das escadas e te trouxeram pra cá! Você desmaiou por falta de nutrientes no corpo e falta de sangue. Você não come a quanto tempo? -Uma semana… Ela me olhou surpresa e anotou umas coisas em uma prancheta. Ela sorriu e saiu do quarto. Finalmente pude notar no luxo e tamanho do quarto de hospital. Era grande, com uma televisão grande na parede, as paredes pintadas de branco. Devia ser um quarto especial. De repente Frieda entrou no quarto afobada. -Frieda!- Exclamei- O que você está fazendo aqui? -Eu que te pergunto! O que aconteceu?-Ela perguntou preocupada. -Falta de comida…- Falei indiferente- Pelo visto quando se passa uma semana sem comer você acaba desmaiando… -O que?! - Ela voou para perto de mim e me deu um tapa na cara.- Seu idiota! Como você pode ficar tanto tempo sem…- Ela se interrompeu -Quer saber? Esquece. No mesmo instante a enfermeira que havia me atendido anteriormente entrou no quarto e olhou surpresa para minha irmã. Conti minha vontade de fingir que estava muito ferido pelo tapa, para Frieda ser expulsa do hospital. -Quem é você?- Perguntou, cerrando os olhos. -Frieda. Frieda Snow. Irmã desse retardado. Hum, ele, sei lá, tá bem? -Sra. Snow, faltam muitos nutrientes e vitaminas em seu sangue, portanto recomendamos que seu irmão ingira mais carboidratos, ferro, vitaminas C, B e D. Ele se recusa, então vamos ter que deixá-lo em contato com soro direto na veia. Mas se o Sr. Snow continuar com essa recusa, teremos que recorrer ao tubo alimentício e… Era como se ela falasse outra língua. -Espera um pouco…- Interrompi- O que? -Resumindo, você está com falta de vitamina e carboidratos, e se não quiser colaborar, vão ter que enfiar um tubo no seu estômago.- Frieda disse, e pareceu ver a cara de nojo que fiz-Então a partir de agora, você vai ter que comer frutas como laranja e limão, que são ricas em vitamina C, carne, vegetais verdes, ovos e cereais, que tem a vitamina B, laticínios, da vitamina D e batata, pão e massa, que tem carboidratos, você não vai mais praticar muito esporte, e… -Nossa! Desde quando você entende tanto de comida?- Disse irritado. Ninguém me obrigaria a comer! Ninguém! -Sei lá-Foi apenas o que respondeu. -Sua irmã está certa, Sr. Snow, mas esqueceu de mencionar a falta de sangue-Provavelmente vinham dos meus corte,pensei- Eu aconselharia um transplante de sangue, pois seus globulos vermelhos não estão danificados, e poderiam começar a produzir mais sangue com uma dose extra, mas com todo respeito, não acho que alguém lhe doaria, já que vocês são… Hum… -Netos do Snow.- Completamos juntos, e a médica abaixou a cabeça, envergonhada. -Mas se os glóbulos vermelhos ainda estão em bom estado, o organismo dele vai produzir mais sangue normalmente!- Falou Frieda-Hum, mas o organismo dele só vai produzir sem a falta de vitaminas… -Na minha língua por favor…-Falei impaciente sem entender uma palavra do que diziam. -Se você não comer, vai morrer por falta de sangue e de nutrientes.-Ela falou de forma direta. O quarto ficou em silêncio. -Bem esclarecedor irmãzinha.-Conclui enfim. -Luke, você terá que passar a noite aqui, por que não comunica seus pais?-Alertou a enfermeira, como se não tivéssemos falado nada antes disso. -Talvez por que eles não dão a mínima para se eu tô em casa me cortando, ou no hospital morrendo.-Expliquei com calma, mas irritado por dentro. -Luke!- Minha irmã exclamou- Doutora, não tem a necessidade de chamar nossos pais. E por favor, vocês poderiam providenciar uma cama ou algo do tipo? Vou passar a noite aqui também… A médica moveu a cabeça positivamente e saiu do quarto. Eu e Frieda ficamos em silêncio nos encarando por dez minutos até dois homens chegarem carregando um sofá. Assim que se sentou caiu no sono. Como eu iria para os jogos se estava internado? Provavelmente isso não teria importância. Claro, que só teria que me preocupar se fosse sorteado. Coisa que eu temia que não acontecesse.
Fiquei olhando para minha irmã alguns minutos. Ela parecia tão… Delicada… Apesar de eu saber que não era. Desde pequenos tínhamos muitas diferenças. Enquanto ela passava horas brincando de boneca e de ficar trocando de roupa várias vezes, eu brincava de acertar os pacificadores com minha espada de madeira. Claro, que isso deveria ser normal! Ela era menina e eu menino! Tínhamos que ser diferentes! Mas a ideia de ter uma irmã parecia muito distante para mim! Era como se eu não tivesse uma irmã! Vivíamos em mundos diferentes. Sempre foi assim. Ela era a esperança! A menina da Capital! Aquela que sabia se portar diante da sociedade! E eu era o menino problemático! A vergonha! Aquele de quem eles queriam se livrar! Acho que estávamos destinados desde pequenos a seguir rumos diferentes. Ela se tornando alguém importante e eu morrendo ainda jovem nos jogos para limpar o nome da família Snow! Eu morreria para permitir que ela pudesse ser alguém. Para permitir que não fosse discriminada! Não planejava voltar dos jogos! De repente a TV ligou. Parei de pensar naquilo e me foquei no que estava passando. Uma mulher de roupas extravagantes sorria para a câmera e falava um discurso que eu era incapas de ouvir para manter minha sanidade mental. Assim que acabou foi colocada a sua frente uma mesa com uma lista em cima. -Bem, primeiro a Capital! As damas antes!-Ela sorriu e pegou a lista de cima da mesa lendo o primeiro nome -Tally Fairchild! A imagem de uma garota morena apareceu na tela. Ela parecia ter a minha idade. Ela sorria e seus olhos verdes se destacavam na imagem. -Próximo nome…-A mulher falou movendo os olhos mais para baixo-Carter Fairchild! Surgiu na tela a foto de uma garota. Ela era igual a outra… Tinham o mesmo sobrenome… Eram gêmeas! Eu nunca me familiarizei com gêmeas… Me assustavam… O modo como se pareciam… O como podiam ser confundidas… A imagem de duas pessoas idênticas fazendo a mesma coisa era assustadora… -Próxima…-Ela sorriu e leu outro nome-Charlotte Farewell! A garota era morena, tinha olhos azuis penetrantes. Parecia corajosa. Forte. E talvez aquele tipo de pessoa fosse o que mais poderia me atrapalhar nos jogos. -Feelcy Klist- Ela falou sorridente enquanto lia o nome. Uma garota ruiva surgiu. Ela parecia ter a idade de Frieda. Tinha um olhar feliz. -E a última garota da Capital…-A mulher olhou para a lista e mostrou um olhar confuso-Frieda Hope Snow! A imagem de uma menina morena de olhos lindos azuis apareceu. Ela sorria. Estava linda. Como ela pudera fazer aquilo? Eu notei que deixara uma lágrima escorrer. Em outra ocasião eu teria limpado a lágrima e fingido que não tinha nada errado, mas estava devastado. Estava simplesmente morto por dentro. Tinha vontade de arrancar o soro do meu braço e morrer, mas agora mais do que nunca eu teria que ir para os jogos. Para protege-la. Não tinha mais vontade de ver TV. Queria dormir. Ou beber, mas duvidava que tivesse bebidas alcoólicas num hospital. -E agora o único tributo masculino da Capital-Ela olhou pra folha e depois pra câmera-Lucian Snow! Os dois netos de Snow participarão dessa edição! Claro! Eles não deixariam escapar a oportunidade de jogar num matadouro, não um, mas dois Snows! Uma foto minha apareceu. Eu não parecia mal como nos últimos tempos. Haviam selecionado a minha única foto em que eu não parecia ou drogado, ou doente, ou maluco. Não que eu não fosse todas essas coisas. Também não era como se eu me importasse com o que iriam achar. Eu só não queria que pensassem que eu era fraco ou incapaz. -Agora o tributo do distrito um!-A mulher falou animada olhando para a lista- Phyllis Lahey! A garota que surgiu na tela tinha uma expressão ameaçadora e cabelos loiros. Em outro momento eu teria medo dela, mas naquela hora meu maior medo era de perder Frieda. E ele parecia ser maior do que qualquer outro medo ou sentimento. -E agora os tributos do distrito três!-Ela olhou a folha de papel-Mary Alice Withlock! A imagem de uma menina de cabelo ruivo e olhos claros surgiu na tela. Parecia certa do que queria apenas pelo olhar que lançava. -Lyna Becker!-A mulher falou lendo mais um nome. A foto de uma menina loira surgiu. Parecia mais nova que o resto dos tributos. O ato de se inscrever poderia ser considerado uma coisa para se orgulhar ou um devaneio de uma pessoa que precisava de algo que a inscrição traria. -E por último, Rose Tyler! Uma menina loira de olhos verdes apareceu. Era bonita. Parecia ter a idade de Frieda. Por mais que sorrisse na foto notava que o sorriso não era real. Era algo superficial. Seus olhos entregavam sua tristeza. -Agora os tributos do distrito quatro! Greyjoy O’Connor! Ela era morena. Olhar destemido. Não parecia indecisa em relação ao que fazia. -Agora o tributo masculino!-A mulher desceu os olhos e leu em voz alta mais um nome-Freddie Odair! O garoto era pouco mais novo que eu. Pelo que eu conhecia do sobrenome ele devia ser parente de Finnick Odair. O antigo vencedor dos jogos que morrera na batalha contra a Capital. Supus que ele me odiaria. Seu pai morreu por causa do meu avô. Aquela não era a melhor primeira impressão que poderíamos ter um do outro. -A tributa do distrito cinco será… Melody Hutch! A garota era loira. Olhos castanhos e bem desenhados. Ela parecia ter saído de um conto de fadas, se não fosse, claro, pelo fato de ela em uma semana se tornar mais uma assassina. As aparências podiam enganar. -Do distrito sete… Ravena Sawyer! Uma garota surgiu. Era de certa forma bem bonita. Cabelos escuros e olhos penetrantes. Mas algo nela mostrava que não era só mais um rostinho bonito de Panem. -Clarissa Black Morgan! A menina que apareceu era simplesmente encantadora. O cabelo ruivo caia como uma cascata pelas costas. Ela se destacava das outras garotas que eu já vira. Ela parecia alguém especial. Que eu deveria proteger. -E os rapazes… Charlie Malone! O garoto que surgiu era assustador. Tinha cabelos escuros, da cor dos olhos. Algo nele fazia com que eu me sentisse ameaçado. -E Aaron Malone! Esse garoto parecia menos ameaçador. Apenas parecia. O cabelo era mais curto e sua aparência era de alguém mais rico. -Do distrito dez… Wendy Chase Jones! A garota da foto sorria. Era loira e não aparentava ter mais de quinze anos. -E por fim o distrito treze! Temos como tributo feminino… Rebekah Fray! A imagem que surgiu mostrava uma menina morena de cabelos curtos e de aparência séria. -E como tributo masculino… Chon Waynes! Aquele deveria ser o tributo mais velho. Parecia já ter vivido mais dificuldades do que os outros. Parecia ser mais experiente. Algo me dizia que ele seria um obstáculo. Logo depois que passou a última foto desliguei a televisão e me virei de lado. Eu só queria dormir. Dormir pra ver se esquecia a realidade. Acordei no dia seguinte pouco depois das onze. Meus olhos estavam inchados. Como se eu tivesse chorado a noite. Não duvidava que aquilo tivesse acontecido. Não seria a primeira vez pelo menos. Fui até o banheiro e tranquei a porta. Me olhei no espelho. Parecia acabado. Morto. Se minha mãe estivesse lá me olharia espantada e me mandaria passar alguma coisa na cara para fingir que estava tudo bem. Ela me obrigaria a jogar junto com ela o jogo do cego. Minha família jogava a décadas. Você só tinha que fingir não ver o que acontecia a sua volta, só tinha que dizer a todos que estava tudo perfeitamente bem. Eu nunca gostei desse jogo. Não me parecia certo fingir estar feliz. Pessoas da alta sociedade brincavam de casinha e vestiam uma máscara de eterna felicidade. Me cansei de brincar quando tinha quatorze anos e sempre que podia saía de casa como queria, sem fingir, ou seja parecia um louco. Por isso minha família foi se afastando de mim. Meu pai evitava olhar nos meus olhos e dirigir a palavra a mim, minha avó me olhava com nojo e minha mãe me olhava como se eu fosse uma desgraça. Com o tempo passamos a ser ameaçados. Recebíamos muitas. Por correio, telefone, em conversas… No começo eu morria de medo, todos morríamos. A ideia de que qualquer um poderia nos matar era assustadora. Minha mãe demitiu todos que trabalhavam em casa com medo de serem eles os assassinos. Estávamos completamente loucos. Cegados pelo medo. Um dia não me lembro ao certo porque, comecei a pensar que estava cansado. Cansado de ter medo de andar na rua, cansado de ter medo de ficar em casa, cansado de ter medo de ficar sozinho, cansado de ter medo de falar com as pessoas, cansado de me esconder… Comecei a pensar no porque do medo. Concluí que ele não se passava de algo da nossa cabeça, não era nada mais do que a incerteza. A incerteza sobre algo que vai acontecer. A dúvida sobre o futuro. A incerteza em relação a se eu morreria, quem era a pessoa que nos ameaçava, se ela falava sério, se mataria todos nós, se eu a conhecia… Eu entendia que o perigo era real, mas o medo era uma escolha. E eu escolhi não ter medo. Desde então parei de sentir medo, e aos poucos a maioria dos meus sentimentos pelas pessoas e pelas coisas foi diminuindo. Não amava, não sentia medo, não sentia admiração, não sentia pena… Sentia apenas nojo e ódio. Pelo menos pela maior parte das pessoas e coisas. Minha irmã era um exemplo de pessoa que eu não conseguia odiar. Talvez porque ela não parecia ter raiva ou vergonha de mim. Eu nunca fora o tipo de pessoa que interagia ou que era super animada e extrovertida. Sempre me mantive na minha, evitando muito contato com as pessoas e passando minhas tardes sozinho lendo. Minhas mudanças então não mudaram muita coisa na minha convivência com as pessoas, já que era quase inexistente, mudou apenas as coisas dentro de mim. Até aquele dia eu pensava ser imune ao medo. Pensava que nunca o sentiria novamente. Mas quando ouvi o nome da minha irmã na lista de pessoas que provavelmente morreriam, senti medo. Mais medo do que eu jamais sentira. Medo de perde-la. De não poder mais olha-la todos os dias. De não poder mais brigar com ela. De não poder rir com ela. De não ter ela por perto. Ouvi batidas na porta. Voltei a realidade e limpei as lágrimas que escorriam. -Senhor Lucian está tudo bem com o senhor?-A enfermeira falou de trás da porta. -Está tudo ótimo! Não posso nem mais mijar em paz?-Falei irritado abrindo a porta bruscamente. A mulher pareceu sem graça. -Me desculpe… Deseja algo? -Hum… Um copo de água por favor.-Respondi. -Já trago! A enfermeira deixou o quarto. Me sentei na cama do hospital e suspirei. Não ingeria nada líquido a pelo menos quatro dias. Estava me torturando de forma completa. Sem água, sem comida e me cortando. Não sabia como não haviam notado a desidratação nos exames. Fiquei observando a parede branca atentamente até a enfermeira vir com minha água. Assim que ela chegou agradeci e a dispensei. Antes de dar um primeiro gole na água resolvi chamar Frieda. A balancei e a chamei com calma. -Ei! Acorda! Ela nem se moveu. -Acorda, Frieda!-Dessa vez falei irritado e impaciente. -Cinco minutos mãe…-Foi o que ela disse de forma sonolenta. Olhei para o copo de água em minha mão e tomei uma decisão adulta. Joguei toda a água nela. -Ah! O que foi?!-Ela berrou irritada. Ver ela irritada e ridicularizada daquele jeito me divertiu. Era uma espécie de vingança. Sorri de forma breve torcendo para que ela não tivesse visto. -Bom dia…-Falei me virando de costas e saindo do quarto. Ao mesmo tempo que deixei o quarto uma enfermeira entrou. Caminhei pelos corredores do hospital. Pessoas muito doentes passavam com suas aparências abatidas e olhares tristes. Me sentia mal por elas. Muitas ali jamais sairiam de lá, passariam o resto de seus dias sofrendo, pensando na vida que poderiam ter tido… Eram cadáveres que estavam presos a esse mundo, mendigando mais tempo de vida. Vivendo apenas pelo medo de morrer, de não se ver mais quem ama… Acho que era como eles. Vivia um dia após o outro vendo dias virarem noites, noites virarem dias, vendo dias se tornarem semanas, então meses e anos que duravam eternidades para passarem. Aquilo era um inferno, mas o pior de tudo era saber que ele estava apenas começando… Vi uma criança andando pelo corredor. Devia ter uns cinco anos. Olhar triste. Roupa de hospitalizado. Parecia amedrontado. Arrastava um poste com um soro pendurado que estava ligado ao seu braço. Ele me olhou e parou de repente me encarando. -Qual é seu nome?-Perguntei me abaixando para ficar da sua altura. Ele levantou os olhos castanhos e me encarou. -James… E o seu?-Ele esboçou um sorriso, mas via a tristeza em seus olhos. -Luke!-Respondi -Por que você está aqui?-Ele me perguntou. -Desmaiei na rua…-Falei sorrindo- Tive que ser carregado até aqui! Ele riu. -Sabe porquê estou aqui?-James perguntou. -Não… -Minha mãe me levou no médico e ele disse que eu estava doente-Ele começou-Daí viemos pra cá fazer uns exames e minha mãe me disse que iríamos para casa depois. Chegou uma mulher depois de eu fazer os exames e disse que eu tinha câncer. Mamãe começou a chorar e foi embora e me deixou aqui, não me levou pra casa que nem prometeu. Depois disso estou morando aqui… Não vi mais o papai e a mamãe! Eles pagam o que podem pra eu ficar aqui, mas não temos dinheiro… -Uma lágrima brotou de seus olhos-Acho que vou morrer… O olhei triste. Antes que pudesse perceber o estava abraçando. -Vai ficar tudo bem…-Cochichei no seu ouvido. O soltei e olhei nos seus olhos. Pareciam menos tristes, mas ele ainda chorava. Ele levantou o canto do lábio, puxou uma pulseira dourada do braço e me entregou. Era daquelas que se ganha quando nasce. -Quero que fique com ela para se lembrar de mim quando estiver nos jogos!-Ele falou limpando uma lágrima que escorreu-Lucian Snow! Fiquei parado olhando para ele. -Como você… -Vi TV ontem!-Ele me interrompeu. Sorri e puxei uma das minhas pulseiras de amarrar do braço. -E essa é para você se lembrar de mim quando eu estiver lá…-Falei enquanto amarrava a pulseira no pulso dele. James me abraçou e sorriu. Passei a mão no cabelo preto dele sorri de volta. Ele me olhou uma última vez e saiu andando pelo corredor de novo. O olhei enquanto se afastava. Quando ele já se misturava com a multidão desviei o olhar e me foquei na pulseira que ele me dera. Caberia em mim se eu a emendasse com outra. Peguei uma pulseira de couro que minha mãe me dera quando eu era menor que estava apertada mas que eu levava no bolso sem que soubessem e amarrei com a de James. Coube perfeitamente no meu pulso. Olhei para ela e sorri. Seria uma lembrança de uma pessoa que eu amava e de um guerreiro que eu desejava ser. Aquele seria um motivo pelo qual lutar. Caminhei até a recepção. A recepcionista me olhou confusa. -Bom dia… No que posso ajudar? -Poderia me informar sobre onde é o quarto do paciente James? -Temos mais de um paciente com esse nome… Você pode me falar o sobrenome dele? -Eu não sei… Ele deve ter uns cinco anos… É só o que sei dele… Ela me olhou irritada. E desviou os olhos para p computador digitando o nome. -O paciente James Harris está no quarto 136 na ala sul. -Essa é a mais barata…?-Perguntei confuso. -É sim senhor.-Ela me respondeu. -Os tratamentos da doença são piores…? -Sim senhor. Desviei os olhos dela e puxei do meu bolso um bolo de dinheiro que eu guardava para encher a cara e joguei em cima do balcão.
-Isso deve pagar o quarto que eu estava e a estadia dele lá… Prazer! Sou Lucian Snow! Paciente do quarto 300 de luxo da ala norte.
Eu e Frieda estávamos sentados na recepção a uma meia hora sem falar um com o outro. Ela me olhava de vez em quando como se quisesse conversar, mas eu devolvia um olhar irritado e bufava. -Sabe…-Ela começou e nem me dei o trabalho de me virar para ela, apenas olhei com o canto dos olhos do modo mais irritado que consegui-Eu tenho tanto direito de me voluntariar quanto você. O que muda? Estava bolando uma resposta inteligente e irritada apresentando mais de vinte razões óbvias para ela não poder se voluntariar e eu sim, mas, quando abri a boca para responder, um grupo de pacificadores chegou. Reconheci um entre eles. Leo. O chefe. Detestava ele. O modo como se achava o máximo porque era o chefe e como já me prendera mais de uma vez, me irritava. Não gostava de quem me prendia. Me levantei e andei ma direção do grupo. Olhei com ódio para Leo e ele me retribuiu olhando para o lado, como se não tivesse visto. Notei que todos que estavam lá nos olhavam. Olhares irritados e curiosos. Em outra ocasião os olharia e sorriria de modo sarcástico, mas me sentia derrotado. Como se eu já tivesse perdido antes de começar. Olhei para trás. O chefe dos pacificadores estava falando com Frieda. Não gostava daquilo. Como eles se conheciam? Talvez de alguma das vezes que Frieda fizera besteira. Não queria mais pensar nela. Nem mais sabia ao certo se queria esgana-la ou abraça-la.
Finalmente chegamos aos apartamentos em que ficaríamos até os jogos. Era lá que eu viveria minha última semana de vida. Lá eu criaria minhas últimas lembranças. Nunca pensei que acabaria assim. Nunca me imaginei morrendo nos Jogos. Mas talvez o inusitado fosse bom. Talvez aquele ato de morrer nos jogos melhorasse a vida de minha família dali pra frente. Daria um jeito de salvar Frieda. Iria para os jogos apenas para protege-la e para garantir que ela não fosse mais odiada quando saísse. Os pacificadores nos levaram para dentro e indicaram onde ficaríamos. Era um apartamento grande e luxuoso. Tinha toda a tecnologia que a Capital podia oferecer. O apartamento tinha seis quartos, devido a quantidade de tributos que tinha. Frieda ficou olhando o lugar, mas não estava nem um pouco paciente para isso. Logo chegariam os outros tributos e também não estava com vontade de socializar. Marchei até um quarto no fim do corredor e me joguei na cama. Várias coisas passavam pela minha cabeça. Tudo o que eu queria era me aliviar. Algo que tirasse aquele peso de mim. Me levantei apressado e fui até a cômoda ao lado da cama. Abri a primeira gaveta e busquei algo. A minha faca. Não estava lá. Aquela não era minha casa. Eu precisava de algo cortante. Qualquer coisa. Não achava nada. Tudo parecia ter sido projetado para abrigar uma criança. Fui até o banheiro e lavei o rosto. Me olhei no espelho. Eu estava mal. Doente. Como poderia proteger minha irmã daquele jeito? Que exemplo eu seria para o pobre menino que vi no hospital? O que minha família pensaria de mim? Quem gostaria de alguém como eu? Eu era um louco. Doente. Mal-humorado. Triste. Esquentado. O tipo de pessoa que qualquer um iria querer longe. Me olhei uma última vez no espelho. Vi uma pessoa desprezível. Antes que pudesse me controlar, já estava socando o espelho. Ele se despedaçou e cortou toda a minha mão. O sangue começou a pingar pelo banheiro. Me agachei e fiquei ali sentindo a dor dos cortes. Me sentia melhor. Depois de alguns minutos deitado no chão do banheiro pensando me levantei. Peguei um caco do chão do banheiro e me olhei nele. Estava sangrando pelos pedaços de vidro que caíram e o cortaram. Me levantei e lavei meu rosto e retirei os cacos presos na pele. Limpei as lágrimas e o sangue do rosto e me olhei no caco de espelho de novo. Estava melhor. Parecia normal. Ouvi uma batida na porta do quarto e fui até ela com um sorriso no rosto. -Está tudo bem senhor?-Um pacificador perguntou. Olhei para ele sorrindo. -Quebrei o vidro do espelho com uma pedrinha sem querer…-Ele me olhou mais tranquilo- Está tudo bem… Tudo ótimo…












