LUGAR DO CORAÇÃO
O sinal sonoro já denunciava que o recreio tinha acabado, o tão temido momento: despedir-se dos personagens do livro que estava lendo, e caminhar exatos treze passos em direção à estante dos ROMANCES.
Aqueles sagrados quinze minutos, uma pequena sala, com pouco mais de quatro metros quadrados, se tornava um porto seguro, onde podia transitar sem máscaras, e em sua face era denunciada a puberdade exacerbada, ele ficava longe dos julgamentos e perseguições.
A quarta aula do dia fora iniciada, o quadro negro se encontrava cheio de palavras enormes e desenhos que não condiziam com o ambiente escolar, o professor até fazia um sermão, mas ninguém abria a boca para denunciar quem havia escrito.
O olhar era fixo para o relógio, centralizado na parede, de tons cinzas e levemente descascadas, era audível - o seu lento e irritante: tic-tac, contavam-se as horas para sair, e provar a comida de sua avó.
Preenchendo as linhas negras e retas do seu caderno, as dores nas articulações já se apresentavam, em seu íntimo existiam expectativas e sonhos para um mundo melhor, onde a humanidade pudesse enxergar além do físico, e deixasse os rótulos para colarem nos produtos dos supermercados e não nas pessoas.
E aquele lugar do coração era fechado por volta do meio-dia, e só seria reaberto amanhã, por volta das nove e quinze: a biblioteca.

















