RESENHA - Psicanálise e Psicoterapia de Orientação Analítica. – Cláudio Laks Eizirik; Simone Hauck. – 2008
Esse texto apresenta a história da elaboração teórica e a técnica da terapia analítica a partir dos estudos de Freud, os desenvolvimentos posteriores de maior relevância e os aspectos que caracterizam o método analítico. É também revisadas as evidências disponíveis de sua eficácia, além do seu papel na realidade atual.
A psicanálise e a psicoterapia psicanalítica têm suas raízes no trabalho realizado por Sigmund Freud, que, a partir da observação de pacientes psiquiátricos e da aplicação sistemática do método psicanalítico, fundou a psicanálise como ciência no início do século XX. Uma grande variedade de tratamentos foi desenvolvida desde então para o tratamento das psicopatologias e distúrbios de natureza emocional. No entanto, a terapia analítica se caracteriza por buscar ampliar a capacidade da mente e as possibilidades de escolha do indivíduo, além da melhora dos sintomas.
Com estudo sistemático de pacientes portadores de sofrimento psíquico e da aplicação do método analítico para o alívio desse sofrimento, Freud introduziu uma série de conceitos teóricos e recomendações técnicas que serviram de alicerce para o desenvolvimento da ciência psicanalítica, constituindo sua base até os dias de hoje. Dentre esses conceitos estão a existência do inconsciente, as resistências, a transferência, a importância dos sonhos e da livre associação como via de acesso ao material reprimido, a instituição teórica da instancia psíquica (id, ego, superego), o uso de defesas contra a angústia, como a clivagem, além da instauração de recomendações técnicas imprescindíveis ao processo analítico, como o uso de interpretações e a neutralidade.
Junto com Freud, o texto também aborda as teorias de outros autores, como Klein e Bion. Para Klein, as relações como os cuidadores no início da vida seriam a pedra angular da vida mental. Bion descreve a importância da capacidade de “conter” e decodificar sentimentos de angústia e sofrimento, em algo que possa ser decodificado e compreendido.
Também trata sobre os conflitos primários e os mecanismos de defesa. O conflito primário diz respeito ao padrão de relações objetais internalizado nesse período, ao desenvolvimento ou não da capacidade de conter e pensar e dos sentimentos, fantasias e desejos estabelecidos juntamente aos modelos primários de relação objetal. O conflito primário vai determinar, de forma dinâmica o quanto o indivíduo distorce mais ou menos a realidade e estabelecer a forma de lidar com a(s) realidade(s) percebida(s).
Sobre indicação a psicanálise, o texto fala que costuma-se dizer que, para indicar corretamente análise ou psicoterapia, é imprescindível avaliar em que grau o conflito atual está relacionado com o conflito primário. De certa forma o conflito atual sempre será resultado da interação do conflito primário com fatores advindos da realidade externa ou da interpretação que o sujeito dá a ela. O conflito atual pode ser mais ou menos independente do conflito primário, de acordo com o grau que a conflitiva primária dá forma à percepção da realidade e ao processo de pensamento. Se por um lado a indicação de psicoterapia implica uma maior autonomia em relação ao conflito primário, para a indicação de análise é necessário um grau mínimo de integração do ego, que tolere a regressão necessária para o estabelecimento da neurose de transferência.
Na realidade, o processo analítico impõe um estresse adicional à vida do indivíduo, que deve ter recursos mínimos para manter-se funcional durante o tratamento, apesar do sofrimento imposto pelo contato com verdades internas e externas antes ignoradas, muitas vezes com o objetivo de evitar esse mesmo sofrimento. Por outro lado, o objetivo desse tratamento vai bem além da redução de sintomas, e busca uma verdadeira ampliação da capacidade da mente, de pensar, de criar e de se relacionar.
Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o pensamento psicanalítico é, de fato, essencial nesse momento, por carregar consigo aspectos humanos negligenciados pela realidade. Situa-se, assim, ao lado de outras expressões do pensamento crítico e independente, alheio às imposições dogmáticas e contrário a toas as formas de fundamentalismo.
Gustavo Hjort
















