Desafronta
Mas ainda me perseguiam, as cicatrizes. Às vezes acordava à noite gritando, os delírios injetando minha mente com doses de adrenalina pesada que me tiravam o sono e a capacidade de chorar. Sempre a capacidade de chorar.
Até que um dia eu fuçava a minha bolsa, a procura de qualquer coisa sem importância.
Algo frio, nas pontas dos meus dedos.
Uma chave.
Uma única chave. Minha chave reserva do apartamento que já não alugava mais.
Uma chance. Carlos tinha uma dívida para comigo . E ah, isso ele tinha de pagar.
Calada da noite. A chave na minha mão. Fácil abrir a porta da frente com algumas cédulas.
Girando a fechadura, na outra mão eu só tenho uma bolsa com morfina inalável e uma peixeira.
Ele está acordado. Posso ouvir ele da cozinha, falando sozinho.
Ele já está bêbado.
Abro a porta. Ele me vê , mas nada faz sentido no delírio alcoolizado dele.
Convenço-o a dar um tiro de morfina.
Eu tiro suas calças.
Tiro a peixeira.
Tiro sua virilidade.
Nessa hora ele acorda tamanha sua dor
e ele rapidamente dá outro tiro de morfina, sem querer.
sem ele querer.
Texto de Isabel Moreau
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