O despertador tocou cedo naquele dia; era meu primeiro dia de trabalho no emprego diurno, e apesar de estar completamente exausta por causa da agitada noite anterior, eu realmente precisava daquele segundo emprego. Tratei de levantar logo, tirar a maquiagem pesada, colocar uma roupa decente e partir para o andar do Viena Café.
Quando abri a porta, tive uma surpresa: um homem alto, de terno e óculos escuros que eu bem conhecia me encarava com uma expressão nada contente.
- Olá, Carlos. O que te traz aqui a essa hora? – antes que eu pudesse terminar a frase, levei um tapa no rosto.
- Cadela! Onde está o dinheiro do aluguel?
- Sobre isso... Eu ainda não tenho o suficiente, mas hoje estou começando meu segundo emprego e logo... – levei outro tapa. Ele suspirou e disse, em um tom baixo:
- Eu não quero saber. Pouco me importa a sua vida, desde que você me dê o dinheiro. Você tem até o final de semana para me pagar, senão além de ser despejada daqui, vai ter qu me prestar serviços muito especiais de graça, querendo ou não. Entendido?
Eu apenas assenti. Ele olhou com desprezo para mim por uma última vez, cuspiu em meu rosto e saiu andando, murmurando palavrões e sem olhar para trás. Eu fiquei parada lá por um momento, pensando na vida, e o que eu havia feito de errado para merecê-la. Olhei para o relógio e percebi que já estava atrasada. Saí correndo e peguei o elevador para o andar da cafeteria. O Conjunto Nacional estava relativamente vazio àquela hora da manhã; os moradores começavam a sair para o trabalho, as lojas tinhas as luzes acesas e grades levantadas, e um novo dia começava na cidade de São Paulo.
O salário por hora como garçonete não era dos melhores, então eu cheguei à conclusão de que eu teria que trabalhar triplicado. A semana foi passando, e eu ficava cada vez mais cansada. O período diurno era grande, mas o noturno parecia cada vez maior. De dia eu era a garçonete simpática que buscava gorjetas, de noite, eu não era alguém, não era ninguém, mas era todas. Eu era quem meus clientes quisessem que eu fosse e quem me trouxesse mais dinheiro, sem me importar com a perda da minha dignidade noite após noite e até a violência e as marcas que esta deixava em meu corpo.
Finalmente a manhã de domingo havia chegado. Eu não queria me levantar... Meu corpo doía e minha cabeça latejava. De repente, ouvi uma batida forte na porta. Respirei fundo e a abri, apesar de eu ainda estar vestindo meu pijama.
- Oi, cachorra. – Carlos disse, me agarrando e forçando um beijo na boca.
- Argh, você não pode fazer isso! – eu disse, limpando a minha boca.
- Claro que posso, - ele entrou em meu pequeno apartamento e se acomodou na poltrona. – não é como se você não estivesse acostumada – ele fez uma breve pausa e olhou para mim com um sorriso malandro. Será que ele não tinha limites? – Cadê a grana?
Eu andei até a cabeceira e peguei o maço de dinheiro com todas as minhas economias. Antes que eu pudesse contar, ele arrancou tudo da minha mão e contou por si mesmo. Eu aguardei em silêncio.
- Tá faltando dinheiro. Onde está o resto?
- Isso é tudo que eu tenho...
Ele colocou o maço no bolso, veio na minha direção e me segurou pelo pescoço, com força.
- Carlos, para, eu fiz tudo o que pude, consigo o resto até a semana que vem, para! Tá me machucando!
- É a intenção. Eu avisei o que ia acontecer, vadia. Prepare-se para o seu último e mais intenso dia no seu precioso apartamentinho...
Foi horrível, humilhante, perturbador. Ele me estuprou horas a fio, e eu saí sangrando e despedaçada. Ele se foi, mas meu trauma ficou. Eu fiquei meses na escuridão, acabei mudando de apartamento e comecei a trabalhar em outra cafeteria, largando meu trabalho noturno.
Texto de Isabella Machado
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