“Quero descobrir, ficando uns dias longe de Roger mas ao mesmo tempo mais perto (na casa onde Arno Morou), em que pé estamos, nós dois. Eu: sentindo a cada dia mais vontade de redesenhar um cotidiano que se apresenta a cada dia mais medíocre. Nossa vida, construída com base no que chamamos de exercícios de liberdade (de parte a parte), revelando, e mais a cada dia, um outro tipo de exercício. O da indiferença e da indiferenciação. Preciso descobrir como, sem nunca termos sido próximos conseguimos nos separar.” ● Elvira Vigna
[46/50] - Um livro escolhido pelo título
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O Que Deu Para Fazer Em Máteria de História de Amor
Uma mulher tem um caso de amor com um homem. Não passa disso. Um caso de amor. E, muitos anos antes, a mãe desse mesmo homem teve um caso rápido com um amigo da família, o que resultou numa gravidez que acabou, de certa forma, com o seu casamento. O homem, então, é fruto de um caso e não há história de amor alguma em como ele foi concebido. Tudo não passa de uma transa casual em um banheiro durante uma partida de um jogo que acontecia sempre na casa desse amigo da família.
Nossa narradora personagem tem a missão de ir até a casa no Guarujá, onde os pais de seu amante, o Roger, viveram os últimos anos de sua vida. Seu trabalho consiste em separar todos os pertences, colocá-los em caixas e encontrar a última obra que o pai de Roger (que não é o pai verdadeiro) criou. Entretanto, sua verdadeira missão, a sua missão interna, é tentar entender a relação nos antigos moradores do apartamento e buscar qualquer vestígio de que ali aconteceu uma história de amor.
Ela pensa que, talvez, se conseguir juntar esse quebra-cabeça e criar um sentido para esse relacionamento que já morreu, talvez ela salve o seu com o Roger. Todavia, ela não encontra naquele apartamento nada que a conforte, apenas pistas que evidenciam que de fato ali nunca houvera amor. Muito pelo contrário, havia traição, distância, mentiras, vazio, solidão e, talvez, um assassinato.
É um livro extremamente bem construído. A trama vai e volta inúmeras vezes a fim de nos revelar tudo o que aconteceu naquele apartamento e no passado de nossa narradora. Não é uma história de amor, passa bem longe disso. É uma história que tenta resgatar qualquer pedaço que busque explicar as relações que ocorrem entre um casal e de como isso afeta todos a sua volta.
Me apeguei a esse livro como uma desesperada.Semana difícil (parecia TPM, era só eu), lugar algum para me abrigar, tinha um livro. Por acaso, gostei da capa, abri ao meio, veio o que precisava. Sou e fui esse livro. Me perco, preciso da cidade, preciso ser ninguém na sua confusão, seus ônibus, a barca às 18 hrs. Gosto de estar nos lugares, insignificante, sem história, sendo. A personagem é como um Bartleby, só que mulher, ela prefere. Não precisamos do não. Preferir é muito mais radical. Preferir qualquer coisa. Sentir a graça absurda que é comer um lanche de madrugada em Copacabana (Copacabana é um bairro absurdo, é o Rio de Janeiro em síntese, absurdo). E também o vazio de despencar que é isso. Em vez de sentar pra sempre no escritório. Fazer os passeios sem sentido para uma empresa de fazendeiros, ir, o verbo que tanto cismo, dormir no mesmo dos hotéis, preferir metrôs a pontos turísticos (eu prefiro). Quando sentir que não tenho lugar para morar, sei que posso voltar até esse livro.