O sol nasce, o despertador toca e os teus olhos - abertos há algum tempo - piscam lentamente em um pequeno sinal de cansaço.
Caminhando até o banheiro em silêncio, a brisa fria da manhã lhe encontra antes mesmo do segundo ou terceiro sinal de um sono diário inconstante. Ali, escovando os dentes, olha pela janela do banheiro uma pequena parte de sua cidade, já imaginando o decorrer do dia frio e ensolarado que começara há algumas horas, a fazendo crer que nem sempre os raios solares conseguirão aquecer teus finos braços por si sós.
Lava o rosto, penteia o cabelo, troca de roupa. Esconde as horas de sono perdidas em sua face com maquiagem, pega seu sapato e sai de casa tomando aquele café requentado da noite anterior.
No caminho, visualiza histórias, cria personagens e transforma suas próprias dolorosas decepções em lições de vida para todas as pessoas que a cercam naquele ônibus cheio.
Vê que a vida que leva, de fato, não é a mesma que planejou quando era feliz.
Todo dia isso se repete e ela continua à procura de um motivo pra sorrir.
Quase meia hora após ter saído de casa, do lado de fora, ao olhar pela janela, fixa o olhar em uma estressada e descontente face com a barba mal feita, destacando a camiseta amassada. Se encanta com as imperfeições daquele exausto rosto pálido.
Por fim, chega ao seu destino. As horas passam, a exaustão bate em tua porta e o merecedor descanso torna-se sua rotina noturna.
Já atrasado e com o céu um pouquinho mais claro, ele levanta rapidamente procurando a camisa que o mesmo deixara de passar no dia anterior. Passa a mão direita no desajeitado e bagunçado cabelo em frente ao espelho, enquanto com a esquerda escova os dentes. Chega na cozinha, faz um rápido carinho e alimenta seu cachorro, toma aquele café puro e sem açúcar que tinha feito para “acordá-lo de vez” pois sabia que a noite anterior seria complicada. Pega seu material de trabalho e fecha a porta.
Ops... as chaves. Malditas chaves!
Saiu correndo contra o tempo e se esqueceu das chaves em cima da cabeceira. Voltou rápido, se esgotou mais um pouco, entrou novamente em seu carro e finalmente seguiu o rotineiro caminho.
No trânsito, vinte minutos após sua correria matinal, ele encontra o caos. Milhares de vidas atrasadas e estagnadas buscando de alguma forma o progresso nos sons de suas buzinas.
Ouvindo as propagandas eleitorais no rádio, aquieta-se um pouco no próprio banco do motorista e desvia o olhar para um local aleatório imaginando todos os goles que o mesmo dará na mais barata bebida alcoólica ao fim do dia.
Repete sua rotina, tentando esquecer tudo o que um dia deixara para trás. Todo dia ele se arrepende de não ter feito o que era capaz.
Vê, de fato, que a vida que leva não é a mesma de anos atrás e que aquela rotina já não o satisfaz mais.
Ao voltar o tímido olhar no trânsito, esbarra nos brilhantes olhos daquela jovem mulher dentro do coletivo - e lotado - transporte.
O semáforo libera sua passagem e o mesmo se perde dos olhares rápidos e tímidos da bela moça que encontrara sem querer. Minutos depois, chega ao seu destino.
As horas passam, a bebida destilada toma conta de seu corpo e o faz cair em um sono profundo, o deixando tão atrasado quanto no dia anterior.
A repetição diária acontece enquanto ambos procuram encontrar a própria paz.
A verdade incontestável é que, de alguma forma, não importa como ou onde, eles cairão.
Cairão no limbo do desgosto e da falta de coragem para trocarem, por pelo mais uma vez, aqueles olhares do começo da manhã daquele fatídico dia. Por isso, tudo o que os cerca não é nada mais do que uma viagem com obrigatórias paradas e caminhos interditados.
Entretanto, todos os dias são abertas novas estradas para se percorrer. Assim como as histórias de ambos, a opção de conhecer o novo é inexplicável.
Naquela monótona rotina, ela e ele continuavam viajando em seus pensamentos, ficando cada vez mais enojados com a vida.
Mas, como todas as viagens, uma hora ambos parariam de ‘viajar’ daquela forma e começariam a busca atrás da mudança.
E, como em raras exceções, ela decidiu levantar a cabeça, parar de esperar um sinal - divino talvez - e resolveu descobrir. Se descobrir. Mudou as rotas, dormiu mais do que deveria e voltou a sorrir. Desligou o telefone, não recebeu mais ligações - colocando fim em seus relacionamentos - e esperou o céu abrir.
Ele pediu férias, descansou e se reformulou. Cortou o cabelo, fez a barba, acertou seu horário de sono e passou mais tempo com o próprio cachorro enquanto tomava o café fresco que acabara de ter feito.
Nada mais seria como era antes.
Entre palavras e promessas, ambos sentiram falta de quando a verdade era sincera. Em alguns momentos, eles dificultaram as coisas. Cada um deles chama Deus de um nome sendo que para ELE os dois são iguais.
Daí, a parte da reflexão diária se tornou comum. Ela e ele tornaram-se questionáveis... mas ambos sempre souberam que olhares sempre valeram mais que ouro.
Contudo, estão os dois de volta à estaca zero. O que era novo se tornou igual. Os mesmos caminhos também.
A rotina era a mesma, as situações estagnadas eram as mesmas... até que aqueles olhares se encontraram, mais uma vez. E dessa vez ele desceu do carro. Por dezenas de segundos, ambos se conheceriam através daquela única, encantadora e exclusiva recíproca visão.
Ele pediu o número dela aos gritos. Rapidamente ela acatou o pedido, jogando um bilhete pela janela do ônibus. Estavam, sem dúvida alguma, no começo de algo muito bom que não precisara de um nome específico.
Contudo, o final da história todos já conhecem.
Ele se tornou ela, ela se tornou ele e os dois viraram ELES.
O que é pra sempre, de forma ou de outra, sempre se vai... e é engraçado como nem tudo que acaba tem, de fato, um final.
Numa vida incomum, eles pararam de viver e presenciar mais do mesmo. Seguiram, tiraram onda com algumas pequenas gotas de seus particulares oceanos e abriram suas próprias mentes para o novo. Caminhando pra frente, sempre ao Norte.
Felizmente, hoje, ele e ela se encontram em suas diferenças com um pequeno detalhe em comum: nenhum deles guerreia mais por paz.
(Texto inspirado nos últimos três trabalhos de estúdio da banda paulista Nx Zero - ‘Em Comum’, ‘Estamos no Começo de Algo Muito Bom, Não Precisa Ter Nome Não’ e ‘Norte’).