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Windsor Tax Increase After Green For Life Bid
Windsor Tax Increase After Green For Life Bid #YQG #WindsorPoli #OutSourcing @CUPEOntario
By Ian Shalapata (WINDSOR, ON) – City Administrators have recommended that Windsor Council accept a combined $5,125,663 bid for recycling and garbage collection from Green For Life. The bid represents a 19.2% increase over the 2016 collection budget. City Council voted to out-source the collection duties in 2010 and contracted with Turtle Island, now Green For Life. At the time, Council was told…
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em terra
2014 performance | instalação
em terra propõe reflexões sobre o tempo, buscando somar a lentidão à paisagem (definida por Milton Santos como “acumulação de tempos desiguais”). Criada a partir do meu convívio cotidiano com os fluxos da terra e as plantas, das quais observo a qualidade de uma atividade-passiva – ou passividade-ativa – a ação consiste em uma não-ação, ou, mínima-ação, onde fico sentada em um banco com os pés dentro de uma bacia com terra.
Em contraponto à aceleração do mundo contemporâneo, em terra se potencializa nos grandes centros urbanos, em locais de grande circulação, buscando-se o contraste: tempos rápidos x corporeidade lenta.
(Camaçari, BA. 13 de agosto de 2014. aprox. das 9h às 15h50)
EM TERRA | março de 2014 | Estação da Lapa | Salvador, BA
em terra propõe reflexões sobre o tempo, buscando somar a lentidão à paisagem (definida por Milton Santos como “acumulação de tempos desiguais”). Criada a partir do meu convívio cotidiano com os fluxos da terra e as plantas, das quais observo a qualidade de uma atividade-passiva – ou passividade-ativa – a ação consiste em uma não-ação, ou, mínima-ação, onde fico sentada em um banco com os pés dentro de uma bacia com terra.
Em contraponto à aceleração do mundo contemporâneo, em terra se potencializa nos grandes centros urbanos, em locais de grande circulação, buscando-se o contraste: tempos rápidos x corporeidade lenta.
(19 de março, Salvador - aprox. das 9h às 12h)
Pego um ônibus da Pituba para o 2 de Julho carregando comigo uma bacia de alumínio e um banco de madeira. Nos bolsos: cartão, 10 reais, chaves, 3 folhas de papel dobradas, um pedaço pequeno de lápis e um apontador.
No 2 de Julho vou a uma loja para comprar terra. Dois sacos de 10kg; sinto o peso na cabeça pra organizar o corpo que deve carregar os sacos, a bacia e o banco até a Estação da Lapa; a vendedora diz que chegarei com o pescoço doendo.
Um homem que compra embalagens de quentinha para o restaurante da irmã no Tororó diz que passará pela Lapa e insiste em levar a terra para mim; agradeço, tento negociar metade-metade, mas não; levará, tem costume, não tem problema. Em troca eu carrego o saco de embalagens que é umas cinco vezes mais volumoso que a terra, mas um tanto mais leve.
Seguimos em poucas conversas: torso, peso, lavadeiras, irmã, mãe, rua…; na Lapa nos despedimos, o agradeço, nos abraçamos e seguimos.
Carrego agora os dois sacos na cabeça, uma mão auxilia o equilíbrio, a outra carrega a bacia e o banco. Sinto um pouco desajeitada.
Olho o espaço ao redor e decido descer as escadas. Sinto vertigem de tantos degraus, o peso, as formas que não se encaixam com o corpo… Desço e procuro um ponto de fluxo intenso, já que me interessa esse contraste tempos rápidos/corporeidade lenta.
Paro em um ponto entre as escadas que sobem e as que descem para o subsolo. Coloco a bacia no chão, o banco, a terra. Abro um saco por vez, colocando a terra na bacia e, em algum momento, uma mulher passa, volta e me pergunta: sabe onde encontro terra para orquídea?
Escolho sentar em uma direção onde possa olhar as raspas de verde que a cidade nos oferece.
Sento, tiro as minhas sandálias e calço terra.
Logo encontro o olho de um homem que me olha.
Os porquês começam a brotar. Qual o objetivo? O que é isso?
Um cego me tateia com a sua bengala.
– Não importa o que é. O que importa é que ela tá fazendo o trabalho dela bem.
Em deriva parada sinto o fluxo que se faz ao redor: rodas de pessoas que cercam, observam, questionam, comunicam, contemplam, filmam, fotografam… Quanto mais gente, mais gente. Por vezes as pessoas se dispersam, passam, alguns poucos permanecem… Imagem pulsante trânsito pausa trânsito pausa trânsito pausa trânsito pausa Um homem começa a dizer que é para colocarem dinheiro, dizem de estátua, estauta, homens pintados de prata, logo negam, estátua não é assim. Em um momento de trânsito, um homem para, pergunta se pode tirar uma foto, tira, me mostra rapidamente e coloca uma nota de dinheiro ao lado da bacia. Eu só olho para frente; raspas de verde e altura de olhares que me olhem. Uma menina grita: vai voar os dois reais! Um homem pega a nota e coloca na terra.
Dois homens me agenciam sugerindo aos que passam que me deem dinheiro. Começam a pôr notas e moedas, as quais sinto o peso reverberar na terra até meus pés. Algumas afundam.
Visualizo mentalmente essa imagem que nunca tinha me ocorrido: uma mulher sentada em um banco com os pés em uma bacia com terra e dinheiro. Tento entender e não consigo. Entrego
Começa o fio sem fio do telefone sem fio, momento de pausa, burburinho: – Ela não é daqui e quer voltar para o seu país. – Ela está presa na terra. – Quer dinheiro pra voltar pra sua terra! – Habla português? – Where are you from? – issi yor neme? – Argentina? – Alemã? – What´s your name? Me desnaturalizam, não tenho nome, nada respondo com palavras ou gestos. Uma seiva me sobe por dentro em afirmação muda: sou daqui! E logo a árvore que me olha responde: sou daqui, de qualquer lugar; sou daqui também. Minha terra é a Terra. As árvores me maestram. – É protesto? Verdade inventada que já virou resposta a qualquer porquê: ela não é daqui e quer voltar pra sua terra; não fala nossa língua, fala inglês. – Alguém aqui fala inglês? Sou soteropolitana, americana, africana, brasileira, lençoense, holandesa, jequiense, indígena, portuguesa, paraibana, ser humano, sou; me dispo de qualquer estado como quem tira fardas; como vi ontem dois policias se despindo de fardas que na verdade estavam em mim (Uma menina diz no meu ouvido tão próximo que por uma fração penso ser um beijo e logo sinto sua respiração: levanta daí que Deus te ama!) (Cédulas, porquês, moedas)
Uma menina me olha com muita fundura e por muito tempo; olhar comunicante, nos desnudamos, mergulhamos. Sinto que compreende minha língua por micro-variações que percebo em seus olhos, nos compreendemos sensivelmente, sem encerrar: seremos do mesmo país? Afirmo em silêncio: minha terra é a Terra.
Crianças me olham, filmam, fazem golpes de capoeira, uma me chama atenção para eu olhar, me olha de modo que não entendo e umas duas vezes me dá lingua.
Olho no olho de quem me olha.
Muitas câmeras, profusão de imagem, rede de controle, dispositivos-olho, teia, vigia, chamam a TV e me avisam como uma possível solução: a TV está vindo.
– É a interpretação de cada um. É o que cada um achar que é. Você não sabe o que ela está sentindo…
De mato que não se espera nascem as flores mais bonitas. Não expectar floresce o mundo.
– Ela tá querendo se expressar!
– Ela quer gritar. (Moedas, porquês, tentativas de palavras)
Muitas tentativas de comunicação; são poucos os que tentam em silêncio. Esforço-me em comunicar com os olhos. Nos vestimos com palavras sem elas, nus
A posição começa a ficar incômoda. Tento micro ajustes, mas os ísquios reclamam sua dureza de osso em banco de madeira.
Respiro fundo. O verde me fortalece. Alguns olhares fazem esquecer a dor. Fluxo, fluxo, fluxo… Observo algumas pessoas que já há muito tempo estão paradas a observar. Penso ser isso uma potência da ação.
– É arte cênica? É místico?
– É pra liberar a massa, né?
(explicam a narrativa estabelecida: a mulher não é daqui, não fala nossa língua, quer voltar pra casa…) (Colocam um panfleto em meu colo) Inventar realidades é construção de cotidiano.
– Do you speak português?
Ouço um “oxe!” que, se fosse possível ver o reverberar por dentro, revelaria a infância da minha língua. A boca seca, mas o único limite ainda são os ossos a reclamar sua dureza. Momento de pausa, o círculo começa a engrossar novamente e me sufoca. Muita gente; quanto mais, mais. Ouço ao longe: quem morreu? (Alguém que não vejo, por trás de mim, tira o panfleto do meu colo) – Qual é a causa? Qual é a causa?
Uma menina tenta insistentemente conversar comigo: do you speak português?
Um movimento beirando meu pé, alegria de vida na terra. Uma minhoca?
Uma mulher com uma criança no colo e outra de mão dada fala comigo e diz: ela responde com o olho. A gente fala e ela responde piscando.
– Quer comida? Água?
A mulher com as crianças vai pedir ajuda/explicações a dois policiais que, mais cedo, haviam passado por mim. Volta com a informação: ela tem problemas mentais; chegou mais cedo em uma van; deixaram ela ai.
Me impressiona o potencial criativo humano.
Chamam a SAMU.
Tocam em mim pra ver se reajo. – Ela tá gelada! – Abre espaço pra ela respirar! – Quer chorar, tá triste. (Lembro de uma moça que disse recentemente que eu tinha água no olho, parecia que ia chorar)
Colocam um copo de água mineral na minha mão. Não reajo. Me dão na boca que, ainda fechada, vai se abrindo aos poucos. A água derrama escorrendo boca, colo, barriga… Me refresca; prazer de terra molhada; quase sinto esse cheiro.
– Vamos molhar o rosto dela?
A água que eu beberia é passada em meu rosto delicadamente por uma mão grande de um homem que me afaga como quem, prestes a plantar, cuida da terra. Fecho os olhos e me deixo ser cuidada como um passarinho precisasse de calor para sobreviver.
Cogitam me carregar dali. Como levar tudo?
Me deixo ser árvore, tudo me atravessa.
Começo a sentir o descontrole da situação.
As pessoas se envolvem demais, cruzam narrativas, inventam verdades, se preocupam, falam da mãe que também tem depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, estrangeira, se perdeu no carnaval, van, país de origem, SAMU, TV… O limite sai da dureza dos ossos – que já nem lembro – e se transforma na fluidez da potência viva desse espaço de atravessamentos. Qual o limite? Pelas beiras, margens, olhares, ações, sinto medo de onde isso pode chegar. Até onde deixar que se criem tantas realidades? Como lidar com o momento em que se desvelaria que eu simplesmente estava ali sentada com os pés na terra, não queria chegar a nenhum país, não sai de van, não queria dinheiro; simplesmente estava? Sinto vertigem em pensar sobre como todo aquele envolvimento pode se transformar, redirecionar; penso na minha responsabilidade de mesmo estando passiva, exercer atividade.
Um moço perdeu o turno do trabalho. Outra deixou crianças em casa esperando. Des-controle. Preciso agir.
As árvores me sabem e, embora de mesma terra, somos de naturezas diferentes. O próprio corpo diz.
Levanto. Alguns comemoram a minha (re)ação.
Me alongo esticando coluna; mãos e pés na terra. Permaneço.
Continuam muitos ao meu redor.
O que fazer agora? Distribuo punhados de terra em agradecimento aos que me circundam. Alguns aceitam, outros recusam, ignoram, se oferecem, sorriem. Não tenho vontade de palavra, mas digo no ouvido da moça acompanhada das filhas que ainda insistia no estrangeirismo e na vontade de voltar pra casa: palavra é pouco. Ela diz em voz alta o que eu disse.
– Ela fala português! – Mas você é daqui mesmo?
Trocamos abraços, sorrisos, olhares. Ouço palavras que me emocionam, marejo, gotejo. Sinto de perto o toque de alguns que foram tocados. Eu também fui.
Sou
fotos: Amanda Rocha
Em terra de rei eu sou rainha.
Em terra de príncipe eu sou princesa.
Em terra de malandro eu uso boné e all star e sou uma pequena moleca .