Não pinto os lábios, pinto a língua. Encarnada, vermelho sangue. Rubra. Violenta, colérica. Diz todas as coisas e lambe vários papéis.
Pinto a língua, abro os lábios para sair da minha boca as muitas encarnações da cor. Matiza-se do cinzento timidez e perfume, do amarelo amanhece, nascem rios com o verde, os dentes são pérolas da sua cor. Bebo as águas cintilantes, mergulho no branco. Venho à tona num barco bocal, agarro-me aos lábios, debato-me com a língua e reescrevo. Marco a lacre, beijo o selo e o envelope. Envio a carta num papel impecável.
Limpo a boca num punho, mas a língua não se lava. A língua é apenas presa numa ponta, músculo em forma de falo. Falo todas as mentiras, ponho-lhes cor, dou-lhes nomes, chamo-as o que calhar. Lambo os lábios escondendo o riso aqui dentro, uma caixa-surpresa, a mola da língua salta. Desperta toda uma casa, o universo dentro de um mundo, dentro de uma língua, fora do coração.
A minha língua acorda as tuas mãos, a tua pele, os teus cheiros, a cor dos teus olhos, os teus sexos. Pudesse a minha língua acordar todas as línguas.
Pudesse a língua não caber nunca, nunca numa mão. Que seja a língua bandeira e cometa e sempre se veja neste ponto minúsculo. Lamba a língua encarnada, deguste o sal, salive um céu inteiro e omisso, presa em si mesma, presa à carne da sua própria língua.
Até que a língua se me cale. Então preta. Então encarnada.