O Tipo Descomplicado, Discreto: Receptivo, Tranquilizador, Agradável e Complacente.
Chamamos este tipo de personalidade de o Pacifista porque nenhum outro é mais dedicado à busca da paz interior e exterior, para si e para os demais. Seus representantes abrigam muitas vezes um anseio de busca espiritual, de ligação com o cosmo e com as pessoas. Eles se esforçam por manter sua paz de espírito tanto quanto para estabelecer a paz e a harmonia no mundo em que vivem. As questões mais vivenciadas por este tipo são fundamentais a todo trabalho interior: despertar X adormecer, para a nossa verdadeira natureza, presença X transe, tensão X relaxamento, paz X sofrimento, união X separação.
Ironicamente, sendo um tipo tão voltado para o mundo espiritual, o Nove está no centro da tríade do Instinto e é aquele que potencialmente está mais ligado ao mundo físico e ao próprio corpo. A contradição se resolve quando atentamos para o fato de que seus representantes ou estão em contato com seus instintos e possuem uma tremenda força primitiva, um forte magnetismo pessoal, ou se abstraem deles e tornam-se alheios e distantes, até superficiais.
“Deixo-me levar pela correnteza“
Para compensar a perda de contato com a energia dos instintos, as pessoas do Tipo Nove também se recolhem à imaginação e às fantasias. (Por isso, seus representantes às vezes identificam-se erroneamente como pertencentes aos Tipos Cinco e Sete, regidos pela mente, ou aos Tipo Dois e Quatro, regidos pelos sentimentos.) Além disso, quando suas energias instintivas entram em desequilíbrio, eles as acabam usando contra si próprios, reprimindo sua própria força até tornar-se psiquicamente inertes. Quando essa energia não é utilizada, estagna-se como um lago que transborda até represar a nascente que o alimenta. Porém, quando estão em harmonia com seu Centro Instintivo e a energia que lhe é própria, eles tornam-se como um grande rio que a tudo transporta em seu leito.
O Tipo Nove já foi denominado a coroa do Eneagrama porque está no alto do símbolo e parece abarcar tudo que ele contém. Seus representantes são capazes de exibir a força do Tipo Oito, o espírito brincalhão e aventureiro do Tipo Sete, o caráter consciencioso do Tipo Seis, o intelectualismo do Tipo Cinco, a criatividade do Tipo Quatro, o poder de atração do Tipo Três, a generosidade do Tipo Dois, e o idealismo do Tipo Um. Entretanto, o que eles geralmente não demonstram é estar dentro de si mesmos - uma noção mais forte de sua própria identidade.
Ironicamente, portanto, o Tipo Nove só não é como ele mesmo. A ideia de ser um eu à parte, um indivíduo que precisa se impor diante dos demais, apavora seus representantes - eles preferem fundir-se com outra pessoa ou entregar-se silenciosamente aos seus idílicos devaneios.
Red, um consultor de mercado nacionalmente conhecido, comenta essa tendência:
Estou consciente de que me concentro nas pessoas, quero saber como elas são, onde e como vivem, etc. Nos relacionamentos, geralmente abro mão de meus planos em favor dos planos do outro. Tenho de estar sempre alerta quanto a ceder às exigências alheias em detrimento de minhas próprias necessidades.
As pessoas do Tipo Nove demonstram a tentação universal de ignorar aspectos mais perturbadores da vida e buscar um pouco de paz pelo adormecimento. Elas reagem à dor e ao sofrimento tentando atingir um estado prematuro de paz, seja ele uma falsa conquista da espiritualidade ou uma negação maior. Essas pessoas demonstram, mais do que a maioria, a tendência de fugir às tensões e aos paradoxos da vida pela tentativa de transcendê-los ou de buscar soluções simples e indolores para os problemas.
Pensar no que a vida tem de bom naturalmente não é mau - só que é uma abordagem limitada e limitante da vida. Se as pessoas do Tipo Nove procuram ver o lado bom das coisas pra se proteger das vicissitudes da vida, os outros tipos também têm suas próprias distorções. O Quatro, por exemplo, concentra-se em suas próprias feridas e em seu papel de vítima; o Um, no que há de errado nas coisas e assim por diante. Já o Nove se prende ao lado bom da vida, de forma a não deixar que sua paz de espírito se abale. Porém, em vez de negar o lado sombrio da vida, seus representantes deveriam compreender que todas as perspectivas propostas pelos outros tipos também são verdadeiras. Eles precisam resistir ao impulso de fugir do mundo real para um “prematuro estado zen“ ou para a “luz branca“ do Divino e lembrar-se de que a única saída passa por uma coisa e pela outra.
Fonte: Riso & Hudson - A sabedoria do Eneagrama Ed. Cultrix