I. Dezembro
Era um dia anormal, podia sentir isso sentada no ônibus a caminho da faculdade. Posso lembrar de como o dia estava cinzento demais e as avenidas não pareciam tão cheias de carros quanto antes. Possivelmente as pessoas estavam começando a fugir ou evitando sair. A epidemia estava chegando cada vez mais perto, como uma sombra pairando na cidade. Eu sabia que devia estar em casa, segura. Ao mesmo tempo, sabia que se ficasse a ansiedade me cortaria de dentro para fora se continuasse assistindo as noticias pipocarem na minha tela. As transmissões eram cada vez mais urgentes, o sul estava caindo, porém o exercito tinha sido enviado para as áreas de risco. “Não se preocupem, continuem com suas vidas”, era o que os jornalistas praticamente gritavam tentando nos colocar um pouco de otimismo. Tentei manter minha rotina, o que quer que fosse não poderia nos atingir.
A guerra tinha começado cerca de dois anos atrás, tão silenciosa e escondida que quase ninguém se deu conta da gravidade até se tornar um monstro descontrolado. O inicio era incerto, uma briga por petróleo, uma briga por água, uma briga por dinheiro? Uma coisa oculta do governo, uma aliança com países errados? Nenhuma noticia tinha fontes, nada era confiável e as teorias eram muitas. A guerra era como uma linha no rodapé, por muito tempo as pessoas nem se quer sabiam para onde os militares estavam indo. O que era real? As pessoas estavam ocupadas demais para se importar antes que fosse tarde demais. E o governo adorava que elas não se importassem. Hoje sei que a guerra foi contra o Estado Maior, a organização que se preocupava com O Futuro.
Recebi uma ligação da minha mãe no mesmo dia, ela estava preocupada conosco, meu marido e eu tínhamos decidido continuar na cidade. “Não temos motivo para entrar em panico e fazer loucuras, Olivia”, sua voz se repetia na minha cabeça sempre que o medo me mordia.
O dia tinha sido sombrio, as pessoas passavam rápido de um lado para o outro, os supermercados eram os únicos lugares cheios. Alguns carros tinham explodido na semana anterior, um pressagio do que estava por vir. Viver no interior do país não nos livraria do caos?, me perguntava. Por via das duvidas, havia estocado comida para algumas semanas sob o pretexto de estar preparada e se não houvesse nada, uma dispensa cheia não devia ser um problema. As pessoas se olhavam desconfiadas, uma mochila era motivo de andar com distancia. A tensão estava escondida por todos os lados, até mesmo o ceticismo de Adam, meu marido, não podia esconder isso.
Lembro do início de tudo, era o fim da tarde e caminhava para nossa casa, raios cortaram o céu com clarões e em seguida trovões sacudiram tudo ao redor. Pelo menos, achei que fossem raios. Mais tarde descobri que eram caças do Estado Maior chegando a cidade. poucas horas depois a primeira chuva caiu.
Na mesma noite a Epidemia chegou.







