FALA AÊ! (Crônicas do Cotidiano Carioca)
Guilherme Schrago
A CORNA
Natalício se recusava a acreditar na história de Dona Gersina.
Apesar de ser a senhora mais velha da rua, e costumeiramente vangloriar-se da sua condição de religiosa para intitular-se a guardiã da moral e dos bons costumes do bairro, a verdade é que a sua fama de fofoqueira era mais forte e reconhecida por todos dali.
— Dona Gersina, seu Valtenir sempre foi um homem correto.
— Um santo do pau-oco, isso sim! Um sem vergonha! Safado!
Ela insistia que havia visto o cara saindo do Motel Pecadillos, a pé, abraçado com uma loura de farmácia.
— Uma vagabunda! Daquelas que só querem destruir famílias cristãs! Com mamões deste tamanho...
Elionélson, que adorava ver o circo pegar fogo, babava só de imaginar o tamanho dos peitos que a senhora mimicava para descrever a louraça Belzebu.
— Um absurdo mesmo! Que safado! Devíamos contar tudo para Dona Adalgisa!
— Aquela pobre senhora! — concordou Dona Gersina, abaixando o olhar em claro sinal de compadecimento — Coitadinha!
— Calma aí gente, em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher — Natalício continuava tentando apaziguar os ânimos, pois odiava confusão e já começava a sentir o cheiro de barraco no ar. Olhou na direção do sabe-tudo da rua, Oriovaldo, implorando pelo apoio de alguém que tinha opiniões respeitadas por todos — não é, Oriovaldo?
— Assim diz o ditado popular, mas há também outro, que avisa que “por mais que a verdade venha a doer, a mentira não irá curar”.
“O filho da puta achava sempre uma maneira de ficar em cima do muro. De que adiantava saber tanta coisa se era incapaz de tomar uma posição? Natalício perdia a batalha contra D. Gersina graças ao apoio entusiasta de Elionélson e a irritante neutralidade de Oriovaldo.”
— Aquele safado chega tarde todas as noites! Trabalhando? A pobre Adalgisa pensa que sim. E agora sabemos que na verdade está sempre na esbórnia! Pecador! Esbaldando-se com uma piranha qualquer naquele antro de satanás do Pecadillos! Enquanto isso, a coitada fica em casa fazendo comida, e ele janta a vagabunda na rua!
— Isso mesmo! — berra Elionélson, já sentindo cheiro de sangue — um absurdo! E a pobre ainda passou as últimas semanas fora, dizem que cuidando da mãe do safado! Isso não pode ficar assim!
— Verdade, lembrou-se do babado D. Gersina. Enquanto a esposa, tão dedicada, cuida da sogra, ele se aproveita da liberdade para aumentar ainda mais o tamanho dos chifres na cabeça da coitada!
A gasolina colocada na fogueira por Elionélson, lembrando a caridade da corna, foi a gota d’água para definir a discussão. Saíram em peregrinação rumo à casa de D. Adalgisa, decididos a delatar a infidelidade de Valtenir.
Natalício balançava a cabeça de um lado para o outro, contrariado com o veneno da fofoqueira. Elionélson e D. Gersina puxavam o grupo, empunhando as tochas vingadoras da moral e dos bons costumes. Oriovaldo apenas acompanhava calado, com o seu ar de superioridade, talvez para não se comprometer, talvez acreditando que o silêncio separa os gênios dos ignorantes. Sempre achou burros os que insistem em falar sobre aquilo que não conhecem, ele que não daria um mole destes.
Elionélson tocou a campainha, sentindo um prazer mórbido em saber que o couro ia comer. A porta se abriu e a visão surgiu na varanda, para o espanto de todos.
“Seu cabelo, agora de um louro platinado, brilhava como um ovo de Páscoa neon no escuro. Em seu peito, duas bolas estufadas pareciam que cairiam a qualquer momento, pois claramente não cabiam onde estavam espremidas. Era como tentar fixar orelhas de elefante em um rato. A antiga barriga pronunciada havia desaparecido em uma mágica, deixando uma tábua achatada em seu lugar. Era uma nova Adalgisa. Feliz como um pinto no lixo, linda, parecia a Mérilin Monrou de Roliúdi.”
Ficaram em silêncio por algum tempo. A cabeça maldosa de Elionélson pensava em palavras como “silicone” e “lipuspiração”. Natalício respirava, aliviado. Oriovaldo, mantinha sua cara de paisagem, escondendo uma surpresa que alguém com a sua sabedoria não poderia admitir. Seu rosto demonstrava um “eu já sabia” superior, e mais falso do que nota de três Reais.
Dona Gersina saiu de fininho, sem que ninguém percebesse. Sabia que a coisa ia feder para o seu lado. Nem percebeu seu Valtenir chegando pelo outro lado com um buquê de flores em mãos, surpreso com o grupo parado e estarrecido diante da porta da sua casa, sem saber o que fazer ou para onde ir.
Ele estava tão feliz com a nova mulher. Trabalhou como um louco para financiar os procedimentos que ela queria tanto fazer. E aprovou o resultado.
Só pensava em livrar-se logo de todo mundo e seguir colhendo os frutos da tecnologia.














