Equipe 6 - Mariana Valentina e Mariana Girius
A casa estava escura, em silêncio, a única luz presente era a que saia da geladeira. Era uma e pouca da manhã e, todos os dias, por volta daquele horário, ouvia os passos leves de Sibéria no corredor. Sempre buscando o mesmo destino: a minha geladeira.
Eu tentava evitar me levantar ou a seguir, mas a pequena possibilidade daquelas visitas de madrugada à cozinha terminarem em algumas marcas roxas no meu pescoço e o formato das minhas mãos nas coxas torneadas de minha garota de Rye era irrecusável. Esses pequenos pensamentos, pequenas considerações que me passavam desapercebidas em grande parte do tempo que me assustavam. Eu era totalmente dependente daquela mulher. Faria qualquer coisa em troca de um beijos seus.
Ou pelos menos acreditava que faria. Meu queixo caiu e meus braços, que seguravam seu traseiro firmemente enquanto eu tinha as suas pernas entrelaçadas em meu tronco nu, a soltaram bruscamente no chão enquanto ela sugeria um dos maiores absurdos que eu já tinha ouvido na vida. E bem, eu já havia escutado muitos. Principalmente vindos da mocinha em minha frente.
– Pensa, detetive – Sibéria tinha um sorriso zombateiro no rosto, como se estivesse se divertindo muito com a situação. E ela estava. –, eu não beijei aquela mulher na Dirty Robbers no seu aniversário? Qual era mesmo o nome dela mesmo? Marcia, Melissa… Mariah… – Inclinou a cabeça para trás, fingindo buscar no fundo de sua mente o nome da mulher, mesmo nós dois sabemos que ela se lembrava claramente. Seria impossível apagar aquela noite.
– Mandy. – Respondi. O que havia acontecido entre Mandy e ela era totalmente diferente do que ela tinha proposto.
– Mandy. – Ela repetiu lentamente, saboreando cada pequena sílaba do nome da mulher, com certeza se lembrando nos acontecimentos da noite na boate. – Beijei uma mulher na sua frente, senhor Strauss, me diga por que o senhor não deveria retribuir isso?
– Isso é totalmente diferente, Sibéria. – Retruquei e afastei uma de suas mãos que veio em direção ao meu rosto. Quando eu me imaginaria negando contato físico com aquela mulher? – Se não lembra, também beijei Mandy. Beijei você, foi algo nosso. Definitivamente é diferente.
– Vai me dizer que não ficou exitado enquanto me beijar? – Perguntou com seu sorriso de canto de boca, aquele para qual eu não conseguia negar nada, surgindo em seus lábios. Dessa vez não a afastei quando entrelaçou os braços em meu pescoço, aproximando nossos corpos, estava extasiado demais revivendo outras sensações para dar ouvidos a sensatez. – Vai dizer que não ficou exitado assistindo ela me tocar, detetive? Vai me dizer que não lhe deu prazer?
Sibéria colava cada vez mais nossos corpos, falando baixo em minha orelha. Suspirei fundo e engoli em seco, algo que não passou por ela sem ser notado. A garçonete de Rye riu e me esforcei para não me deixar levar por suas palavras e as sensações que elas me proporcionavam.
– E te dará prazer me ver beijando o Christiansen?
O sorriso que tomou conta do rosto de Sibéria me fez negar com a cabeça. A garota era louca, sempre fez de tudo que estava ao seu alcance par provar isso, mas aquilo era demais. Era doente. Propor que eu beijasse um cara? Dizer que isso lhe traria prazer? E beijar Christiansen? Poderia enumerar diversos modos mais agradáveis de divertir Sibéria Lindell.
– Qual é, Sibs? – Enlacei sua cintura a trazendo novamente para junto de mim. – Você só pode estar brincando. Já riu o suficiente da minha cara por hoje, não acha? Podemos partir para a parte que você acordar na minha cama.
Para a minha surpresa maior, Sibéria foi quem se afastou dessa vez, andando lentamente de costas levantando uma sobrancelha provocativa.
– Talvez eu pense em seu caso depois que você passar pela cama de Erik. – Disse simplesmente, como se dissesse “Não esquece de comprar meu pudim quando voltar.”
– Isso só pode ser brincadeira… – Repeti olhando para a garota já na escada com incredulidade. – O que você vai fazer? Greve de sexo? Só irá abrir as pernas quando eu enfiar a língua na boca daquele almofadinha?
– Olhe, só! O senhor finalmente entendeu algo que eu disse, senhor Strauss. Já estava começando a me preocupar com o seu raciocinio lento, tem certeza que é o número 1 a Scotland Yard? – Sorriu, se virou e desapareceu pelas escadas, me deixando sozinho com a minha geladeira lotada de pudim.
Depois do meu aniversário, a Durty Robbers se tornou o lugar preferido das poucas pessoas que restaram no Departamento para passar as noite de sexta. Era difícil se concentrar na música e nos balanços das mulheres na pista de dança com todo o trabalho que estavamos tendo. Havia um assassino louco a solta, não tinhamos a menor pista do seu próximo passo, e por isso, segundo Savannah e Charlie, precisavamos esvaziar a cabeça.
Me encostei no bar e tomei mais um gole da minha bebida, observando Sibéria de longe conversando com Christiansen. A garota ainda não tinha tirado da cabeça a ideia ridícula e estava a defendendo cada dia mais, me parando nos momentos de mais intensos entre uma provocação e outra, reafirmando que não me deixaria encostar um dedo em seu corpo enquanto não aceitasse o desafio. Toda aquela provocação e falta de foda estava me enlouquecendo. Ao menos era isso que eu dizia para mim mesmo, que eu estava louco, enquanto observada meu ex melhor amigo de longe.
Já era o quarto copo de whisky que descia na garganta e tudo que eu conseguia sentir era raiva. Maldita Sibéria. Aquela garota me paga. Beijar Christiansen? Sério? Por que eu tinha que ser cara bobo apaixonado que sempre fazia o que a madame pedia?
Toda aquela situação havia deixado as coisas mais desconfortáveis entre o policial e eu. Já não bastasse o nosso histórico, agora tinha que ouvir Sibéria e Charles com suas suposições que toda a inveja e intrigar que Christiansen tinha por mim eram na verdade tesão reprimido. Isso mesmo, Sibéria contou para Charles a sua ideia ridícula e meu colega, ao invés que me ajudar a mostrá-la como aquilo era loucura, ficou do lado dela. E, me deixando mais chocado ainda, admitiu na maior naturalidade sobre seu caso mal resolvido com Clinton. Sim, meu melhor amigo, companheiro das minhas noites de conquista, se atracava com o bom e velho Clinton nos banheiros da policia de Winchester quando pensavam que ninguém estava vendo. Será que, no final, quem estava levando tudo de forma errada era eu?
Pedi mais uma bebida ao barman e me direcionei à Sibéria. A mulher usava um vestido vinho com fenda lateral que roubava os olhares de todos os homens no estabelecimento. Parei ao ledo dos dois e pedi licença ao detetive. Uma sensação estranha, a mesma que senti nas outras vezes que nos encontramos após o pedido de Sibéria, correu pela minha espinh e não pude evitar olhar o rapaz de cima a baixo. Seria tão estranho assim beijar outro homem? Quer dizer, isso não me fazia mais ou menos hétero, a coleção de gemidos que arranquei da mulher ao meu lado nos últimos meses estava ali para provar. Contudo, Erik não era só um cara qualquer que Sibéria poderia escolher aleatoriamente, sem fundamento, Erik tinha sido meu melhor amigo, tinha me traído e acabado com minha primeira paixão. Conseguia o ouvir me zombando e espalhando pela cidade o sobre minha tentativa de o seduzir. Eu viraria cachota no departamento e logo essa história chegaria na Scotland Yard, afetando diretamente a minha carreira. O pedaço de paraíso que Sibéria tinha entre as pernas valia tudo aquilo? Haviam outros meios que fazê-la ceder aos meus encantos, já tinha feito isso antes, a verdade, o que mais me preocupava mesmo, era que eu não sabia mais se os meus olhos passeando pelo rosto e a barba por fazer do loiro era pelos motivos que eu tentava me convencer.
Sem conseguir mais lidar com meus próprios pensamentos e o sorriso contido de Sibéria que tinha os olhos passeando do policial para mim, segurei-a pelo braço e a puxei para longe de Erik.
– O que está esperando, detetive? – Perguntou com seu sorriso cheio de inteções.- Erik já está todo soltinho, parece até que sabe que vai ser beijado pelo número 1 da Scotland Yard.- Riu como satanás ria do pecador. – Siberia, não sei se já te disse, mas você é a pior pessoa que eu tive o prazer de conhecer. – Oh, jura? Pois saiba, meu querido Logan, que você é um amor – Apertou minhas bochechas com aquelas mãos que traziam sofrimento. – Agora vai. Erik está te esperando. – Virou-se pronta para sair. – E aproveite que o pessoal ainda está na mesa, tenho certeza que a Savannah vai adorar o beijo de vocês. – Soltou por último, antes de partir indo se sentar na mesa ao lado de Charlie. E que o santo das porpurinadas me ajude. Andei até Erik e vi que ele ria em pé com alguma piada. Respirei fundo e tentei me imaginar em qualquer outra situação senão aquela enquanto passava meus braços envolta de seu ombro largo. Ombro largo? O que eu estava falando? Caminhei com ele para um pouco mais longe das outras pessoas e ouvi seu riso gostoso. Oh, céus.
– Do que está rindo Christiansen? – Até que o perfume não era de má qualidade. – Por que está me abraçando?– e assim como eu, ele parecia bem desconfortável com a situação.
– Sabe, Erik, estava pensando o quanto nós temos sido imaturos durante todo esse tempo. Desde Clementine nós temos essa rivalidade e, como uma memória amizade que tivemos e dos bons momentos acho que deveríamos esquecer tudo aquilo que nos afetou e começar de novo. Mas que merda era aquela que eu estava falando? Eu nunca perdoaria com ele tinha feito comigo. Assim que o Sr. Moreau expulsou eu e meus pais de sua casa as coisas começaram a ficar apertadas. Tivemos que ir morar na casa dos meu avós e tive que ralar para passar na universidade. Erik não sabia o sinônimo da palavra irmandade. – Strauss, acredito que você já tenha esgotado sua cota de cachaça por hoje. – ele começou a ficar nervoso quando sentiu minhas mãos descendo por seus braços. Não conseguia ver Siberia, mas sabia que ela estaria com aquele sorriso diabólico nos lábios só esperando a cena acontecer.– E pare de me tocar desse jeito. E seria agora em 1,2,3 Segurei seu rosto em minhas mãos e o beijei. Beijei forte. De início sua boca travou, mas assim que sentiu minha língua em seus lábios ele os abriu dando passagem. Esse deveria ser o momento em que eu deveria estar sendo jogado no chão.
. – E então, senti suas mãos em minhas costas. Ok, Erik, chega. Não podia ver a reação do pessoal, mas com certeza todos deveriam estar chocados. Menos a Siberia. Ahh a Siberia deveria estar rindo como uma louca. Não fazia ideia de quanto tempo estava ali, mas independente disso já estava na hora de parar. Tirei minhas mãos da sua nuca e me afastei
Ele me olhava confuso. Todos me olhavam confusos. Que puta merda eu fui fazer. Antes que o interrogatório começasse saí da mesa e fui até o banheiro tirar aquele gosto terrível de macho da minha boca.
Erik Christiansen
Logan Strauss havia me beijado. Me beijado. Logan Strauss. O número 1 da Scotland Yard. O queridinho da Inglaterra. A paixão infantil de Clementine.
Logan Strauss, aquele que, segundo os maiores sites de fofoca inglesa, era dono dos melhores lábios e da língua mais eficiente. Eu precisava urgentemente entrar em contado com esses tabloides para confirmar os boatos.
Levei, involuntariamente, meus dados a minha boca dormente. Pude sentir o susto do Logan ao perceber que eu retribui o beijo, que o aprofundei. Não entendia como aquilo havia acontecido. Porque ele havia chegado daquela maneira, eu digo, pois minhas ações não eram nada mais do que reproduções dos meus sonhos mais secretos.
Quem eu estava tentando enganar todos os dias, indo trabalhar com aquele cara e me esforçando ao máximo para responder as suas alfinetadas ao invés de abaixar as suas calças no meio de uma investigação – eu iria para o inferno por isso, mas o detetive ficava absurdamente sexy analisando uma cena de crime. É lógico que Logan, assim como todos os nossos outros colegas de trabalho, já haviam notado a minha atração por ele. Eu não era o cara mais discreto.
Por anos acreditei que tudo o que senti por aquele cara, meu amigo de infância, o garoto que roubou a menina que eu gostava, que se sobressaia de mim em tudo que faziamos, era inveja. Um ciúme profissional. Demorei algum temo para perceber que o incomodo que eu sentia pela sua relação com Clementine não era ciúmes da menina que eu acreditava ser apaixonado. Não, eu era apaixonado por ele. Pelo dono daqueles olhos hipnotizantes. Foi Clementine, em seu leito de morte, que ajudou a perceber aquilo. A assumir meus sentimentos. Naquele ponto Logan já estava longe estudando e, quando voltou, não tive coragem que o contar nada. Como teria? Strauss comia uma média de dez mulheres por semana.
Perdido nesses pensamentos, observei o homem que tinha acabado de me beijar se afastar, se encaminhando para aporta da boate em passos atordoados. Recobrei meus sentidos, abalados pelos beijos do detetive, e o segui. Oras, havia um assassino paranormal a solta, eu poderia morrer em qualquer instante. Não teria melhor momento para colocar para fora aquilo me sufocava há anos.
Esbarrei e não me dei trabalho de me desculpar em quatro pessoas na pista de dança lotada. Respondi de qualquer jeito para um dos meus subordinados que já voltada. Mas que porra, onde o detetive havia se enfiado? Sai pela porta principal e senti aquele costumeiro palpitar do meu coração ao avistar o que eu procurava próximo ao seu carro. Era agora.
– Eu sei o que você vai dizer, não precisa nem…
– Não, você não sabe. – O cortei me aproximando. Como ele conseguia permanecer tão calmo, eu sentia cada célula do meu ser entrar em combustão.
Respirei fundo e passei os olhos por sua expressão, procurando algo que me desse um empurrão. Logan estava ali, com suas sobrancelhas grossas e os lábios carnudos – lábios que estiveram no meu há poucos minutos. Havia uma ruga entre suas sobrancelhas, aquela fofa que sempre aparecia quando ele ficava curioso. Curioso. Era isso que eu precisava.
– Fui eu quem entregou vocês. – Falei. Eu sabia que ele tinha entendido, mas mesmo assim prossegui.– Para o pai de Clementine. Eu dizia que era apaixonado por ela, eu acreditava que era. Te ver com a garota que eu amava era… me provocava sentimentos horríveis, sentimentos que me assustavam. – Prossegui sem coragem de levantar meu olhar para o homem em minha frente, porém sabia que seus olhos estavam em mim, atentos. – O que mais me assustava era a verdade. Eu sempre soube, mesmo que tentasse me convencer do contrário. Nunca senti nada pela Clementine, Logan. – Falei alguns tons mais baixo finalmente tomando coragem para o encarar. Logan não tinha expressão nenhuma no rosto, mas seus olhos estavam carregados. Seus olhos olhos estavam fundos e me traziam mais emoções do que o meu corpo era capaz de aguentar. Nem treinos diários com os melhores treinadores da polícia poderiam me preparar para aguentar seu olhar enquanto me declarava. Era você, Strauss. Sempre foi você. Eu não tentava ao máximo ganhar de você em todos os desafios da vida por querer me sentir superior. Eu queria que você me notasse. Me percebesse como eu era bom. Como eu era o suficiente. Que você não precisava de Clementine, Savannah, Missandei, Sibéria ou qualquer outra. Eu poderia te satisfazer. Eu poderia amar por nós dois. Te daria amor, paixão, sentimentos que eu sei que você procura e não encontra. Eu te daria tudo, detetive.
Terminei de falar, talvez por medo de sua reação, por falta de coragem para enfrentar suas próximas palavras ou seu silêncio, acabei com o pouco que nos separava em dois passos e tomei seu rosto em minhas mãos.
– Eu te daria tudo. Tudo que você pedisse. Porque eu já me dei para você no momento em que te conheci. Como nunca percebeu isso? – E uni nossos lábios em um último suplico. Ah, esses lábios.











